Quando George Orwell publicou “A Revolução dos Bichos“, em 1945, o mundo era um pouco mais simples: havia o lado certo e o lado errado. Para Orwell, o lado errado eram as ditaduras, mais especificamente o comunismo bolchevique, afundado naquele momento no stalinismo triunfante.
Ali, os bichos de uma fazenda rebelam-se contra os homens, tomam a fazenda e conseguem se libertar do jugo a que eram submetidos. Era a liberdade. E liberdade, naquele momento, também parecia um conceito simples.
A alegoria não podia ser mais clara: a revolução pode ser uma coisa boa, pois nos traz a liberdade, desde que todos olhem na mesma direção, que ninguém busque usurpar o poder, que ninguém oprima os semelhantes. Na sua visão, as revoluções são como sonhos. O livro soou, claro, como uma condenação do comunismo.
Com seu gosto pela antropomorfização, é até estranho que a Disney não tenha criado sua versão para o romance. Talvez tenha notado que não se tratava de uma obra para crianças. Portanto, o desafio de seus sucessores era ou bem transformar o livro em uma fábula ao gosto infantil ou bem trazê-la para o universo adulto.
Resultou daí que “A Revolução” não é ágil o bastante para agradar às crianças contemporâneas, nem capaz de seduzir os adultos sem a necessidade de forçá-los a pensar. Um meio-termo um tanto problemático.
O problema maior, no entanto, é que de 1945 para cá o mundo mudou bastante. Para começar, não dá para falar de Stálin, nem de Mao Tsé-Tung. De quem, então, está falando esta animação? Da China contemporânea? Improvável. Da Coreia do Norte? Pouco significativo. Do Irã? Lá o problema é outro. Quem seria então esse ente ditatorial que devemos manter afastado de nossas crianças e mentes? No tempo da URSS era fácil fazer a ligação. Hoje, fica tudo um tanto abstrato. Pode valer para Putin, para Trump ou para quem quiser.
Alegorias vivem de um significado preciso. Qual seria aqui? Os bichos livram-se dos homens, tornam-se livres e iguais. Mas eis que surge Napoleão, porco grandão com ânsia de poder. Ele se livra da rival, Snowball (a intelectual da turma, que se opunha aos métodos totalitários de Napoleão). Seduz o pequeno Lucky, que passa para o seu lado e leva os demais porcos a imitá-lo.
Com Napoleão tirano absoluto, surge então o verdadeiro vilão da história: Frieda, a humana que já tem quase tudo, mas lhe falta uma coisa: a fazenda dos bichos.
Ela é sabida e enche Napoleão de presentes. Por exemplo, um carrão vermelho —do tipo que a polícia apreende na casa de gente ligada ao PCC.
Logo o mundo dos animais começa a parecer coisa de PCC: festas alucinantes, dinheiro a rodo, consumo desenfreado, porquinhas se exibindo como garotas de programa, megashows tipo Shakira, etc.
Aonde nos leva a Disney com isso? A um estranho mundo em que a ideia de liberdade não é o que se opõe à tirania. Nos leva a pensar na noção de liberdade tal como professada por, digamos, Elon Musk. Quer dizer: alguém muito rico e poderoso impõe a sua liberdade. Ou seja, domina os demais.
Dotado de liberdade total, pode fazer o que bem entender. Napoleão, o ditador, é só um capataz de Frieda. Para chegar a isso é que Frieda inunda o mundo com shopping centers, consumo, cartões de crédito, etc.
Desde então percebemos que essa “A Revolução dos Bichos” pretende dialogar com adultos e não com crianças. Mas será que adultos pretendem dialogar com ela?
Anos atrás, “A Fuga das Galinhas” foi um sucesso porque conseguiu entreter crianças e adultos. Era algo novo no universo da animação. “A Revolução dos Bichos” requenta um livro bem-humorado e fascinante sem conseguir captar o seu encanto. Enfim, Disney corre o risco, aqui, de não dialogar com ninguém, sejam crianças ou adultos.












