Aliança Francesa cancela exposição de fotos sobre símbolos políticos no Brasil

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Aliança Francesa cancela exposição de fotos sobre símbolos políticos no Brasil


Uma mostra no Rio de Janeiro com imagens da fotógrafa Andrea Eichenberger, representando símbolos associados à polarização política no Brasil, foi cancelada pela Aliança Francesa horas antes da abertura, que estava marcada para 14 de maio.

Eichenberger, catarinense radicada em Paris há mais de 20 anos, catalogou objetos e gestos desde as manifestações de junho de 2013 até os ataques do 8 de janeiro —como a coxinha para designar os eleitores de direita, a mortadela, para os de esquerda, uma arminha com a mão e a camiseta da seleção brasileira em referência aos bolsonaristas e a panela usada nos protestos contra o governo durante a pandemia.

A partir deles, fez uma série de fotos em estúdio, em fundo neutro, para evidenciar como o significado de algo está atrelado a um contexto social e político. Esse material seria exposto no espaço da Aliança Francesa em Botafogo, acompanhado de textos de 50 pesquisadores de várias áreas.

A artista afirma que, depois de desembarcar no Rio vinda de Paris, no dia anterior à inauguração da exposição, recebeu uma mensagem de Nathalie Lacoste-Yebra, diretora-geral da Aliança Francesa no Rio de Janeiro e coordenadora-geral das Alianças Francesas no Brasil, dizendo que a mostra não mais aconteceria.

“Ao analisar mais atentamente algumas das obras em exposição, percebo que elas contêm posicionamentos políticos explícitos sobre a vida política brasileira e nomes de figuras políticas. No entanto, a Aliança Francesa, como instituição e associação cultural brasileira, está vinculada a uma estrita neutralidade política, especialmente no contexto atual”, escreveu a diretora da Aliança Francesa em mensagem de texto para a artista. “Portanto, infelizmente, não poderemos prosseguir com a exposição nem com a inauguração prevista para amanhã.”

Lacoste-Yebra está em férias, de acordo com um email de resposta automática recebido pela Folha após uma tentativa de contato. A reportagem, então, escreveu para as pessoas indicadas como substitutas dela neste email —a secretária da direção geral e diretora adjunta da Aliança Francesa no Rio—, mas nenhuma respondeu.

A reportagem conseguiu contato pelo WhatsApp da instituição, mas o atendente não escreveu mais nada após saber o motivo da procura.

Eichenberger afirma não julgar a atitude da Aliança Francesa, mas ressalva. “Claro que não foi fácil para mim vivenciar esta experiência. Teria sido muito simples se [o cancelamento] tivesse sido feito com antecedência; não teria sido tão violento. O que me incomodou foi ter sido feito na véspera da abertura”, diz, acrescentando que o trabalho de várias pessoas foi perdido. “Estou esperando uma reparação que seja justa.”

Eichenberger conta que o projeto vinha sendo desenvolvido há cerca de um ano com a Aliança Francesa e que o conteúdo do que seria exposto era conhecido com antecedência pela instituição. As fotos foram impressas e a exposição chegou a ser montada na unidade de Botafogo, ela diz, para que as obras deixassem as paredes pouco depois.

Ela afirma ter a impressão de que, com a ruptura de laços familiares e de amizade causada pelas diferenças políticas exacerbadas no Brasil, as pessoas precisam conversar sobre o que está acontecendo. “Talvez seja perigoso falar e mostrar algumas coisas, mas é muito perigoso se calar. Não pode se deixar levar pelo medo. É importante a gente não se calar.”

A série será exposta no final deste ano, no festival de fotografia FotoRio, na capital fluminense, e também tem a possibilidade de virar um livro.



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