Crítica: ‘A Greve dos Mendigos’ é livro de escárnio fino e ironia provocadora

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Crítica: ‘A Greve dos Mendigos’ é livro de escárnio fino e ironia provocadora


O diretor-geral do Serviço de Saneamento Básico do Senegal é um homem respeitável e quer o melhor para o país —não à toa almeja a Vice-Presidência.

Não é qualquer um, afinal, que vira Cavaleiro da Ordem dos Méritos, “distinção que só homenageia os nativos em quem se reconhecem qualidades excepcionais”, não é qualquer um que tem a ideia que trará cada vez mais turistas a Dacar e às belas praias do entorno: eliminar a população de rua.

Se este texto começa com ironia, é para se aproximar de um dos méritos de “A Greve dos Mendigos”, romance de 1979 inédito no Brasil e publicado pela editora Bazar do Tempo com tradução de Mirella Botaro.

A senegalesa Aminata Sow Fall, voz importante da literatura contemporânea, usa um escárnio fino para contar esta história, o que a torna, além de provocadora, divertida.

A proposta higienista que dá origem ao enredo é levada a cabo pelo número dois do Serviço de Saneamento, um servidor público que se recusa aos desvios, que nunca faltou sem motivo em seis anos de devoto trabalho e que realmente acredita que a presença de pessoas em situação de rua pedindo doações atrapalha o prestígio do país. Mais do que isso, o homem está convencido de que “a cidade está pedindo para ser varrida desses elementos”.

A aplicação da nova política pública, que envolve perseguição e batidas violentas, esbarra em uma subversão inesperada. Os mendigos sabem que as esmolas que recebem não são motivadas por corações empáticos ou almas sensíveis: se os ricos param para olhá-los e doar algo, é porque esperam uma recompensa —uma recompensa dos céus, no caso.

Paralisar os trabalhos, então, é tirar da elite a principal ferramenta de negociação com a própria consciência e com Deus.

Eis a greve dos mendigos: depois de um episódio brutal, eles decidem sair voluntariamente das ruas e esvaziar a possibilidade de expiação de culpas daqueles que entregam uma moedinha ou outra. Assim, bloqueiam tanto a caridade pregada em espaços corânicos quanto a recomendada por feiticeiros consultados para garantir conquistas.

Os mendigos passam a se reunir em um pátio sob a liderança do homem que propõe que eles se organizem e da ex-trabalhadora doméstica que, agora negociante, recebe o dinheiro arrecadado pelos colegas, dando em troca comida e abrigo.

A mulher é uma figura intrigante, que o leitor conhece com limitações. Se há uma ressalva no livro, está na profundidade menor concedida aos grevistas do que aos mandantes e executores da política higienista.

A greve impõe mais um desafio ao diretor-geral, que, dentro de casa, se debate com outra crise: o levante da esposa, que aprendeu a reconhecer seu valor e se recusa a aceitar a poligamia do marido. São tempos de mudança no mundo e no país que pouco mais de uma década antes —até 1960— era colônia francesa.

O Senegal do fim dos anos 1970 está no texto o tempo todo, mas só se deixa ver pelas frestas, a ponto de nos permitir pensar nos higienistas do Brasil de hoje.

O romance não atua como um mapa aberto nem como uma aula de história —a ficção dá conta plenamente de situar o leitor. Se sabemos mais de como vivem os personagens, é porque a verossimilhança demanda que eles não se furtem de seus papéis como sujeitos históricos.

Há um momento em que um feiticeiro repreende o diretor-geral: “a cidade está desumanizando vocês, endurecendo seus corações a tal ponto que vocês não têm mais pena dos fracos”.

O homem rebate, explicando que agora os brancos não estão mais ali para roubar, mas para descansar e relaxar, e é importante garantir que eles continuem vindo. “Agora somos nós os responsáveis pelo destino do nosso país.”

Um destino que, se depender do diretor-geral, será de superar os insolentes e insubordinados e abrir caminho para que os predestinados à prosperidade sigam em frente sem incômodos —sempre fazendo o bem, claro.



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