Mesmo que com a roupagem do cristianismo, Rosalía rejeita a ideia de verdade absoluta ou da perfeição e costura o misticismo de mulheres dedicadas à fé absoluta com uma cidade construída no sincretismo religioso e no mistério no show da turnê “Lux”, apresentado pela primeira vez nesta segunda-feira (10), no Rio de Janeiro.
O espetáculo da cantora espanhola cria rachaduras por onde as luzes entram e nos atingem em cheio enquanto estamos cercados pela hiperestimulação do mundo e das redes.
As concepções de mundo “real” e “divino” não se colocam distintas num show extremamente sensorial. Na turnê de “Lux”, quarto álbum da artista, lançado em novembro de 2025, tudo se ancora na possibilidade de identificação com ídolos que parecem reais e admiráveis, conectados com a esfera humana da arte.
Rosalía testifica um trabalho interno fidedigno que se expande ao entorno, em uma linha limítrofe entre esses dois estados de espírito. O mais importante do show é a travessia, a experiência de dentro, do som, do corpo e do que se assiste.
“Eu seria muito amigo dela” ou “quero que ela seja minha amiga” foram frases ouvidas na pista. O universo simbólico criado em torno do álbum foi adotado positivamente pelos fãs engajados, que compareceram usando véus, saias e acessórios que lembram o catolicismo —crucifixos, tules e imagens de santos.
Uma fila se formou para aguardar a abertura dos portões desde as primeiras horas da tarde, em um momento clássico nos shows de divas pop. A apresentação aconteceu em uma noite chuvosa, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, com a Arena Farmasi lotada, em uma demonstração da lealdade construída entre a cantora catalã e o público brasileiro, que enfrentou o frio e limitações de transporte para ver o espetáculo.
Na primeira parte da apresentação, uma caixa é desmontada, forma uma cruz no chão do palco e revela uma bailarina delicada, que, carregada nos braços dos dançarinos, ansiava “habitar entre os dois mundos”. Era Rosalía.
Assim como em sua última turnê, a estrutura visual dos painéis de LED e um cenário de filmagem compõem o visual do show. As câmeras, em diferentes posições, do alto, de cabeça para baixo, em preto e branco e de dentro de uma caixa transparente, formam a atmosfera cinematográfica.
Entre os destaques do show está o cover de “Can’t Take My Eyes”, em que a cantora, dentro de uma moldura, simula ser uma pintura que ganha forma completa na imagem dos painéis. Isso antes de interagir com fãs levados ao palco. Entretanto, tirar fotos parece ter cooptado a atenção dos selecionados para o momento próximo à cantora.
No palco, um painel horizontal exibe todas as letras das músicas ao público, em português. A orquestra replica a qualidade sonora de um concerto, como no álbum. O balé que a acompanha mistura passos do flamenco aos do balé clássico, pliés e saltos, rebolado e movimentos singelos.
Não dá para classificar o show a partir do auge, porque Rosalía o distribuiu em distintas partes altas e eletrizantes, sem meios-termos.
O ato 1 injetou a emoção necessária com “Sexo, violencia y llantas”, “Reliquia” e “Porcelana”. Em “Divinize” não houve pirotecnia, fogos e luzes difusas. Apenas lenços esvoaçantes e um visual simples, com muita técnica. Ao cantar, ela introduziu a frase “agradeço por estar com vocês” e se emocionou ao olhar para o público.
Antes da performance de “Mio Cristo Piange Diamanti”, a cantora começou o diálogo, totalmente em português, que se estenderia com o público durante todo o show. Em tom de brincadeira, ela relembrou que esteve no Rio de Janeiro para a audição especial de “Lux” e também nas férias, mas nunca tinha vindo para fazer um show.
“Que honra para mim que vocês tenham me trazido para essa cidade tocada pelos deuses. Além disso, chegou meu momento de comer de novo pão de queijo, pavê, e feijoada. Tenho sonhado muito com isso. Obrigada por gostarem da minha música, significa muito para mim. Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar que a vida me traria até o Rio”, disse.
Entre os cinco atos que compõem a festa, há o intervalo “Imita lá pose!”, em que a câmera procura fãs na plateia e sugere que eles imitem pinturas do telão, como o quadro “O Grito”, de Edvard Munch.
Esperado pelos fãs, o momento do confessionário, em que ela ouve histórias de famosos, teve a cantora Marina Sena como convidada. Rosalía disse ser fã da artista.
Alguns fãs esperavam que fosse a atriz Letícia Colin, que protagoniza a novela “Quem Ama Cuida”, da Globo, em que a faixa “Sexo, Violencia y Llantas” faz parte da trilha sonora. Marina combinou com o tom carismático do ato e contou uma história envolvendo um ex-namorado e a proposta de uma relação aberta que não funcionou.
“Vocês não vieram só para chorar, também vieram pra mexer essa bunda”, disse a cantora antes de iniciar o ato 2. Com figurino preto, ela cantou o single “Berghain” e esquentou o público com hits do álbum “Motomami”: “Saoko” e “La Fama”.
Em “La Perla”, mencionou ex-namorados, em uma suposta ironia sobre seu antigo noivado. A performance de “Sauvignon Blanc”, em seguida, retomou a beleza da apresentação, com a voz da artista, o som do piano e cenário com papéis dourados picados.
Depois, com a frase “bora botar pra quebrar”, veio um apagão e uma surpresa: um pêndulo, suspenso no meio da pista, se movendo no escuro para os lados, enquanto piscava e soltava fumaça. A performance de “CUUUUuuuuuute” levou a arena ao delírio, ao som de uma balada techno misturada com bateria de escola de samba e leques batendo. O sucesso internacional “Despechá” também não ficou de fora.
Ao encerrar e agradecer, Rosalía demonstrou como os atos de falar em português, cantar sobre o desejo, dividir o palco com uma brasileira e transformar a própria imagem em objeto de devoção e identificação são capazes de construir uma experiência que renega a distância entre artista e público, fazendo de “Lux” um espetáculo sobre sentimento e aproximação.
A segunda apresentação de “Lux” será nesta terça (11), na Arena Farmasi.













