Na busca por algo que a inspirasse a desenhar cenas da personagem Supergirl em um ônibus desconfortável, cheio de alienígenas, a quadrinista paulista Bilquis Evely pensou na rua 25 de Março, uma das mais caóticas de São Paulo. Embora pareça estranha, a ideia funcionou e foi parar num dos gibis mais celebrados da personagem.
Cinco anos depois, ela vê sua criação tomar a tela do cinema. “Supergirl”, que chegou aos nesta quinta, é uma adaptação dos quadrinhos “Mulher do Amanhã”, desenhados por Evely e coloridos pelo capixaba Matheus Lopes, ambos convocados pelo autor, o americano Tom King.
O texto do filme também tem conexão com o Brasil, de certa forma —o pai da roteirista americana Ana Nogueira nasceu aqui, e ela cresceu admirando a cultura nacional. História parecida à do cineasta Craig Gillespie, que, por influência da família, incluiu na trilha sonora de “Supergirl” uma versão da bossa nova “Garota de Ipanema”.
“Meu pai costumava cantar em casa, foi uma homenagem”, afirmou o diretor em visita ao Rio de Janeiro, na semana passada, em que o elenco e a equipe promoveram o filme numa espécie de capítulo final dessa improvável ligação entre a Supergirl e o Brasil.
“Garota de Ipanema” toca em inglês enquanto a protagonista ataca inimigos para conseguir o antídoto do veneno que ameaça a vida do seu cão Krypto. Nessa jornada, Supergirl recebe, a contragosto, a companhia da jovem alienígena Ruthye, que precisa de ajuda para se vingar do mercenário que matou sua família.
Violência e humor ácido marcam esta versão da heroína vivida agora pela australiana Milly Alcock, mais inconsequente e rebelde que nas suas encarnações anteriores —Helen Slater fez a Supergirl no filme de 1984, e Melissa Benoist em uma série de TV lançada em 2015.
Diferente do Super-Homem, a poderosa não é uma bem-comportada nem benevolente, exatamente —embora justa, Supergirl não hesita em arrancar sangue dos vilões.
Além disso, ela sempre recorre ao álcool para tentar sufocar a dor do luto por Krypton, seu planeta natal, que foi destruído. Diferentemente do seu primo, criado na Terra desde bebê, Kara Zor-el —como a personagem foi batizada— teve de deixar a família quando já era mais velha. O trauma nunca se foi.
“Fez sentido para mim que ela tivesse essa tendência autodestrutiva e tentasse se entorpecer com algo como álcool. É isso que humanos comuns fazem, e ela também é uma pessoa, à sua própria maneira”, diz Nogueira, a roteirista.
A diferença de tom entre “Supergirl” e “Superman” —o filme solar e otimista lançado no ano passado— fica clara já na cena de abertura, que mostra Krypto, o supercão, urinando numa foto do Super-Homem. Enquanto isso, a garota se prepara para desperdiçar o dia num bar qualquer que encontrar pela galáxia.
Embora se passe quase inteiro em planetas distantes, o filme constantemente faz paralelos com a Terra. Esses bares que a protagonista visita, por exemplo, lembram os pubs das ruas de Londres.
Gillespie diz que se inspirou em “Star Wars”, saga que povoou a galáxia com tavernas, mercadores e pistoleiros. Cita também “Bravura Indômita”, faroeste dos irmãos Coen. A combinação ajuda mesmo a resumir “Supergirl”, que eleva ao espaço uma história de vingança típica do Velho Oeste.
Apesar de serem conceitualmente diferentes, o filme se assemelha a “Superman” quando usa seus alienígenas para discutir a humanidade.
No longa do todo-poderoso, o diretor James Gunn —líder dessa nova fase da DC no cinema— abordou imigração, identidade e até ecoou os conflitos armados contemporâneos. Agora, “Supergirl” fala de problemas igualmente universais, como tráfico de mulheres. Sem entrar muito na trama, a heroína se vê tendo de salvar um grupo de moças de sequestros.
Questionada, a roteirista atribui o teor social da história aos quadrinhos, diz que só incorpora política aos seus roteiros quando vê algum sentido nisso e que “há coisas no filme que são apenas fiéis a questões do mundo real”.
A personagem também vem despertando outras leituras. Parte dos fãs passou a ver nela um suposto subtexto LGBTQIA+, o que reforça essa ideia de que a Supergirl é mais descolada que heróis tradicionais.
Em entrevista à revista Variety, Alcock disse se sentir honrada com essa interpretação, que vê na personagem uma representação da mulher moderna e com a qual a comunidade LGBT provavelmente se identifica pela resiliência dela.
Enquanto sua protagonista enfrenta uma série de missões difíceis dentro da trama, o filme também vai ter de encarar uma fora das telas.
“Supergirl” é, afinal, a segunda aposta de uma nova fase da DC Comics, reformulada após seus últimos filmes não corresponderem às expectativas de bilheteria e crítica. “Besouro Azul”, de 2023, por exemplo, fez US$ 130 milhões —um dos maiores fracassos do gênero.
Pesou, ainda, o fato de que boa parte do público considerava que a DC não conseguia unir as histórias dos seus super-heróis com a mesma habilidade da Marvel, dona dos Vingadores, cujos últimos dois capítulos fizeram juntos quase US$ 5 bilhões na bilheteria.
Previsões de veículos especializados apontam que “Supergirl” pode gerar menos dinheiro que o esperado em sua semana de estreia. A preocupação aumenta porque nem mesmo o popular “Superman” alcançou os números que parte do mercado esperava, tendo feito US$ 618 milhões, distante do bilhão alcançado por “Aquaman”, em 2018, um dos maiores sucessos da DC.
“Não me envolvo nisso. Para mim, o importante é fazer um filme do qual tenho orgulho”, diz Gillespie, o diretor. “E esse não é um típico filme de super-herói, então espero que a bilheteria responda a isso.” A atriz Milly Alcock, por sua vez, afirma que “reduzir arte a um valor métrico não parece certo”.
Um dia antes da entrevista, eles desfilaram na première do filme no Museu do Amanhã, banhado de luz azul e vermelha em homenagem à personagem. Estava lá também o produtor e executivo Peter Safran, que divide a presidência da DC com James Gunn, e que afirmou que não existe “fadiga com filmes de super-heróis, mas com filmes medíocres”.
“Se você faz um filme ótimo, não importa o gênero, a audiência vai responder, seja ele ‘Pecadores’, ‘Superman’, ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ ou ‘Obsessão’“, diz Safran, mencionando por último os filmes de terror independentes que viraram sucesso de bilheteria nas últimas semanas.
Fazer de Supergirl “complicada e perfeitinha”, para citar um dos versos mais célebres da música brasileira, foi justamente o que revitalizou a personagem nos quadrinhos ilustrados por uma desenhista de Barueri, na Grande São Paulo. À época, contra as expectativas, a heroína saiu vitoriosa. Difícil é prever o resultado da sua luta agora.
O jornalista viajou a convite da Warner Bros. Pictures











