Olivia Rodrigo passou os últimos cinco anos se transformando numa das artistas mais influentes de sua geração. Aos 17 anos, a ex-atriz da Disney explodiu com “Drivers License”, balada de separação que se tornou um fenômeno global em 2021 e abriu caminho para “Sour“, álbum de estreia que a consolidou como a voz de uma juventude, marcado por inseguranças e corações partidos.
Dois anos depois, em “Guts“, ela ampliou esse universo, trocando parte da melancolia por guitarras mais agressivas e uma postura mais confrontadora, sem perder a habilidade de transformar experiências íntimas em sucessos de massa.
Agora, no terceiro álbum, “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love“, lançado nesta sexta-feira (12), Rodrigo abandona parte das certezas que construíram sua carreira. O disco acompanha o nascimento, o desgaste e o fim de um relacionamento ao longo de 13 faixas. Mas, em vez de narrar uma decepção amorosa já consumada, ela se interessa pelo processo de estar apaixonada —e pelas formas como esse sentimento pode ser intoxicante.
A sensação é de assistir a um relacionamento acontecer em tempo real. O álbum abre com “Drop Dead”, single lançado em abril e que acompanha um clipe gravado no Palácio de Versalhes. A música é uma explosão de euforia em que Rodrigo se entrega sem reservas ao encantamento de uma nova paixão. Nas músicas seguintes, ela mergulha ainda mais fundo nesse estado de obsessão romântica. Em “Stupid Song”, transforma o deslumbramento em melodrama; em “U + Me =
Mas há algo de estranho rondando essas canções desde o início. Mesmo nos momentos mais felizes, Rodrigo insinua que a história não terminará bem. As inseguranças aparecem cedo, seja na dependência emocional descrita em “Maggots for Brains”, seja no ciúme possessivo de “My Way”. Em entrevistas, a cantora disse ter se inspirado tanto no romance “Paixão Simples”, da escritora francesa Annie Ernaux, quanto na relação entre Miranda e Steve, da série “Sex and the City“. O interesse estava menos no ideal romântico e mais na maneira como o amor pode tornar alguém irracional.
É justamente nessa tensão que nasce o álbum. Rodrigo afirmou inicialmente ter tentado escrever apenas músicas sobre felicidade amorosa, mas o fim do relacionamento que inspirou o projeto a levou de volta ao estúdio. Muitas das canções precisaram ser reescritas para se tornarem, segundo ela, “mais honestas, mais tristes e mais sinistras”, ao podcast Popcast, do jornal The New York Times. O resultado é um disco dividido em duas metades quase espelhadas entre a fantasia e a desilusão.
Apesar do tema continuar sendo reconhecivelmente Olivia Rodrigo, o som mudou de maneira significativa. Durante a divulgação do álbum, a cantora afirmou que não estava mais interessada em repetir a fórmula baseada em guitarras e explosões pop-punk que ajudou a definir seus trabalhos anteriores. Em seu lugar surge uma paleta inspirada pela new wave dos anos 1980, construída a partir de sintetizadores, violões, corais e arranjos mais elaborados.
A influência do período aparece por todo o disco. Rodrigo cita bandas como The Cure, Talking Heads e Devo entre as referências que a acompanharam durante a composição. Aliás, o vocalista do The Cure, Robert Smith, participa da faixa “What’s Wrong With Me”.
Isso não significa que Rodrigo tenha abandonado completamente o rock. As guitarras continuam presentes, mas dividem espaço com elementos que antes apareciam de forma mais discreta. Há faixas dançantes como “Maggots for Brains” e “Purple”, explosões pop como “Expectations”, baladas conduzidas por piano como “Less” e canções acústicas em que o violão assume protagonismo, caso de “The Cure” e “Cigarette Smoke”, que encerra o álbum.
Também chama atenção a disposição da cantora para experimentar. Os refrãos seguem grandes e imediatos, mas agora convivem com corais dissonantes, vozes manipuladas, mudanças abruptas de dinâmica e estruturas menos previsíveis. As músicas, em geral, são mais longas do que nos discos anteriores e ajudam a construir uma narrativa coesa.
Agora, aos 23 anos, Rodrigo parece querer examinar as próprias contradições. Ao longo do álbum, não aparece como vítima. Ela se mostra ciumenta, dependente, possessiva e, por vezes, bastante engraçada.
“You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love” é o trabalho mais diferente de sua carreira até agora. Não porque representa uma ruptura completa com tudo o que veio antes, mas porque registra uma artista em transição. Rodrigo ainda preserva o instinto melódico e a capacidade de transformar sentimentos íntimos em canções populares. Mas, pela primeira vez, parece mais interessada em descobrir quem pode se tornar do que em revisitar quem já foi.














