Especialista explica que à medida em que nos aproximamos da votação, as pessoas vão atinando melhor para os candidatos ao Senado Federal
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Pernambuco chega às urnas neste domingo (4) para escolher os dois novos representantes do Estado no Senado, em um pleito que reúne 12 candidatos e foi marcada, ao longo da campanha, por alianças, negociações, mudanças de composição e diferentes estratégias para conquistar o eleitorado.
Ao longo da disputa, Marília Arraes (PDT) apareceu numericamente à frente nos levantamentos, enquanto seu colega de chapa Humberto Costa (PT) e os deputados federais Mendonça Filho (PL) e Eduardo da Fonte (PP) formam o grupo que vem se mantendo próximo, com Túlio Gadêlha (PSD) aparecendo logo na sequência.
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O cenário, porém, ainda não permite uma leitura definitiva sobre os dois nomes que serão eleitos neste domingo de eleição. A avaliação é da cientista política Priscila Lapa, que aponta uma característica própria desta eleição: além de o Senado tradicionalmente receber menos atenção do eleitor do que as disputas para presidente e governador, neste ano cada pernambucano terá de escolher dois candidatos.
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Para ela, o eleitor ainda está em processo de definição sobre como distribuir os dois votos. “À medida que a gente vai chegando perto do dia da votação, as pessoas vão atinando melhor para a eleição ao Senado. Até então, o que predomina no imaginário coletivo é fortemente a eleição para o Executivo, tanto para o presidente da República quanto para o governo do Estado. Então, a decisão para o Senado é sempre uma decisão mais de última hora, mais tempestiva, na circunstância real da votação propriamente dita. E ainda mais porque este ano temos o desafio de duas vagas”, destaca.
Segundo a cientista política, a própria forma de votação pode fazer com que o eleitor escolha primeiro um nome de sua preferência e só depois defina quem receberá o segundo voto. A segunda escolha pode seguir critérios ideológicos, vínculos locais ou mesmo a orientação de lideranças políticas.
“Possivelmente o eleitor faz o movimento da escolha do seu candidato favorito e depois pensa quem seria o seu segundo senador. As pessoas ficam imaginando que vão fazer a escolha de apenas um nome. Quando elas vão na segunda opção, muitas vezes elas vão por exclusão ou tentando dar uma certa proximidade.”
Superlive da cobertura das Eleições 2026
Marília chega à reta final na frente
Marília Arraes chega à urna mantendo a posição de liderança que construiu ao longo da campanha. Desde os primeiros levantamentos, a pedetista apareceu entre os nomes mais citados e, nas rodadas mais recentes, permaneceu numericamente à frente.
A candidatura de Marília está vinculada à chapa de João Campos (PSB), ao lado de Humberto Costa. Os dois contam com o apoio do presidente Lula (PT). A ex-deputada foi uma das primeiras candidaturas ao Senado a se consolidar no campo da oposição a Raquel Lyra e construiu uma campanha com forte associação ao presidente.
Para Priscila Lapa, esse movimento inicial ajudou Marília a criar uma identificação própria no eleitorado. A cientista política, no entanto, chama atenção para a diferença entre a força dessa identificação e a estrutura tradicional de apoios municipais.
“No início havia uma questão de recall, sim, dela ter se colocado primeiro. Ela foi uma das primeiras a fazer o movimento. Não é difícil lembrar que a chapa da governadora foi definida aos 45 do segundo tempo, e ela ganhou a dianteira, demarcou esse espaço com muita força, com muita facilidade. Então isso fez com que ela tivesse o voto mais evidente conectado a Lula. Ela fez essa movimentação sendo a candidata de Lula.”
Ao mesmo tempo, Lapa avalia que a falta de uma base municipal tão estruturada pode representar uma variável na reta final. Marília depende, em parte, da capacidade de transformar a conexão direta com o eleitor em votos sem contar com a mesma rede de prefeitos que outros candidatos possuem.
“Ela tem um fator que dificulta a gente cravar o resultado e dizer que ela já está eleita, que é essa questão de que ela não tem uma base nos municípios de prefeitos muito constituída. Ela é quase que um voto atrelado ao palanque do governador, do candidato a governador, que o candidato dela é o João Campos, mas é quase que um voto independente do conjunto das bases dos municípios.”
Esse cenário pode aproximar Marília de Humberto na composição do segundo voto. O senador petista busca a reeleição e possui uma estrutura política construída ao longo dos anos, especialmente entre prefeitos e lideranças municipais.
“Mesmo que ela não tenha o pioneirismo junto ao eleitor de esquerda, porque ela não tem essa base mais fortalecida de apoios municipais, ela pode vir como a reboque desse voto melhor estruturado nas bases de Humberto. Essa conexão que o eleitor pode ocasionar, essa lógica de votar em candidatos que tenham um discurso semelhante, que tenham uma semelhança do ponto de vista ideológico. Então, de uma forma ou de outra, ela mantém um elemento de competitividade muito significativo.”
Humberto aposta na reeleição
Humberto Costa é o único senador pernambucano em exercício que disputa novamente uma das duas vagas neste ano. Em segundo mandato, o petista tenta permanecer na Casa Alta em uma chapa formada com Marília Arraes e vinculada à candidatura de João Campos.
Nos levantamentos recentes, o parlamentar aparece entre os quatro nomes que concentram os maiores percentuais. Além da posição nas pesquisas, a candidatura carrega o peso de um mandato em andamento e de uma rede política construída no Estado. Essa estrutura é particularmente relevante em uma eleição em que, segundo Priscila, o eleitor ainda procura referências para decidir o voto.
Na campanha, Humberto Costa tem apostado no trabalho acumulado ao longo da trajetória política para buscar a permanência no Senado. Entre os feitos que apresenta estão a participação na implantação e expansão do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), além da criação do Farmácia Popular e do Brasil Sorridente, programas implementados durante sua passagem pelo Ministério da Saúde.
Para a cientista política, o Senado é uma disputa mais distante do cotidiano do eleitor do que a eleição para prefeito, governador ou deputado. Isso faz com que o voto seja frequentemente definido a partir de associações com outros candidatos ou lideranças.
“O Senado é algo que parece distante, ele parece quase igual, a mesma coisa da Câmara dos Deputados. É um voto mais distante historicamente do eleitor, ele não tem tanta conexão no dia a dia, na base, com esse ator político. E aí acaba que ele não consegue avaliar, por exemplo, se um senador teve um bom mandato ou não, se ele fez um bom trabalho ou não.”
Mendonça chega com campanha própria
Mendonça Filho é outro dos candidatos que chegam à reta final entre os nomes mais competitivos. O liberal apoia Raquel Lyra para o Governo de Pernambuco, mas disputa o Senado fora da chapa oficial da governadora, formada por Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha.
A candidatura de Mendonça ganhou espaço associada ao eleitorado de direita e ao bolsonarismo. A definição, porém, foi precedida por negociações dentro do grupo de Raquel, que terminou com Eduardo ocupando a vaga do PP e Mendonça consolidando sua candidatura pelo PL.
A disputa também provocou atritos entre os candidatos. Em setembro, Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha recorreram à Justiça Eleitoral contra uma propaganda de Mendonça que, segundo eles, estabelecia uma associação indevida entre a candidatura do liberal e a de Raquel. Em ato com Flávio Bolsonaro, Mendonça voltou a criticar Eduardo e pediu que seus eleitores escolhessem Carlos Sant’Anna, do Novo, como segundo voto.
Para a cientista política Priscila Lapa, porém, os conflitos internos podem ter impacto menor entre os eleitores do que entre os próprios grupos políticos. Na avaliação dela, o funcionamento das estruturas de campanha pode ser mais determinante.
“Essas movimentações ficam mais evidentes para a própria classe política, que está ali participando desse bastidor. Ela fica quase como uma coisa do começo, de bastidor, de partida. E eu não sei até que ponto de fato isso chega para o eleitor. Obviamente que um palanque desorganizado, desarrumado, com insatisfações latentes, ele pode ser um palanque menos competitivo.”
Priscila também cita o chamado “fogo amigo”, quando integrantes de uma mesma composição não atuam com a mesma intensidade na busca de votos. Segundo ela, grupos que se sentem preteridos podem reduzir o empenho na campanha de aliados.
“Existe o chamado fogo amigo, aquelas alianças que estão ali presentes, que engole o sapo porque estão dentro de uma composição partidária, mas que não estão efetivamente fazendo aquele trabalho de base, pedindo voto e trabalhando para aquele candidato ser eleito. Isso é muito comum e principalmente em processos que saem com um certo aspecto de trauma, de um grupo político que se sente preterido em detrimento de outro.”
Eduardo da Fonte busca consolidar apoio da chapa
Eduardo da Fonte chega à reta final em quarto lugar nos levantamentos recentes e é um dos dois nomes oficialmente apoiados por Raquel Lyra para o Senado, ao lado de Túlio Gadêlha. A estratégia do deputado federal passa pela associação direta com a candidatura da governadora e pela estrutura construída em torno da chapa.
A composição foi definida após uma disputa interna que também envolveu Miguel Coelho. Com Eduardo confirmado, Mendonça seguiu para uma candidatura própria, embora tenha mantido o apoio a Raquel na eleição para o Governo.
Para Priscila, a vinculação entre as disputas majoritárias pode funcionar como uma referência para o eleitor, especialmente em uma eleição em que a escolha para o Senado costuma receber menos atenção. A associação, no entanto, não significa necessariamente que os dois votos sejam destinados aos nomes da mesma chapa.
“O voto para governador arrastou consigo os votos para o Senado. Isso foi quebrado em alguns ciclos, inclusive no último ciclo aqui em Pernambuco, mas a gente pode imaginar que, quando você tem campanhas reforçando isso, é um elemento que funciona como espécie de atalho de informação para o eleitor.”
A cientista política avalia ainda que a força dos palanques municipais pode interferir nessa escolha. Em vez de avaliar individualmente a atuação dos candidatos ao Senado, parte do eleitorado pode usar a relação com outras lideranças como referência para definir o voto.
“O eleitor não faz fortemente a conexão com o papel efetivo do senador, que é no dia a dia dar suporte ou ser oposição a um presidente, a um governo federal. Ele faz a conexão estadual, de que o senador é quase que um assessor que vai trazer recursos para o Estado. Porque é assim que as candidaturas se colocam, historicamente. Então, ele acaba tomando essa decisão por associação, vai associar a imagem do senador ao seu candidato a governador.”
Túlio e os demais candidatos
Túlio Gadêlha é o quinto colocado nos levantamentos mais recentes. O deputado federal, que inicialmente esteve entre os nomes considerados para a disputa majoritária, acabou compondo a chapa oficial de Raquel ao lado de Eduardo da Fonte.
Durante a campanha, Túlio também protagonizou embates com outros candidatos. Em sabatina realizada em setembro, discutiu com Marília Arraes e houve troca de acusações entre os dois. O encontro também reuniu Eduardo da Fonte, Humberto Costa, Mendonça Filho e Paulo Rubem Santiago.
Carlos Sant’Anna (Novo) aparece em seguida. O candidato declarou apoio a Raquel Lyra e passou a ser citado por Mendonça como opção para o segundo voto dentro do campo de direita.
Com percentuais menores ou sem pontuação nos levantamentos mais recentes, completam a disputa Paulo Rubem Santiago (Rede), Samuel Timóteo (UP), Gorett Bitu (UP), Pastor Gilvan Costa (Democrata), Mariano Macedo (PSTU) e Mailson da Silva Neto (PCO).
Voto pode ser descolado das chapas
Embora as duas principais candidaturas ao Governo tenham chapas definidas para o Senado, o eleitor não necessariamente repete a mesma combinação de votos. João Campos tem Marília Arraes e Humberto Costa, enquanto Raquel Lyra conta oficialmente com Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha. Fora das chapas, Mendonça Filho e Carlos Sant’Anna também apoiam a governadora e disputam os votos para o Senado.
Para a cientista política Priscila Lapa, uma das características desta eleição é justamente a possibilidade de o eleitor combinar candidatos de diferentes grupos políticos. Segundo ela, os apoios de prefeitos, deputados e outras lideranças podem pesar na escolha e produzir uma composição diferente daquela apresentada oficialmente pelas chapas.
“Hoje, na campanha deste ano, tem sido muito comum essa questão de um voto mais descansado, mais descolado, quase que um voto avulso. Você escolher um candidato a presidente que não é exatamente aquele candidato que está mais conectado com o palanque para governador e acaba que a escolha para o Senado está dependendo de quem está ali, o prefeito ou o deputado que está apoiando.”
O que está em jogo no Senado
A escolha de dois senadores por Pernambuco ocorre em uma eleição que, em todo o país, vai renovar 54 das 81 cadeiras do Senado. Ao todo, 314 candidatos disputam as vagas, uma média de 5,8 concorrentes por cadeira.
A Casa participa da elaboração de leis e de emendas à Constituição, fiscaliza o Executivo e tem atribuições exclusivas, como processar e julgar autoridades em crimes de responsabilidade e analisar indicações do presidente da República para cargos como ministros de tribunais e o procurador-geral da República.
Para a cientista política Priscila Lapa, porém, a distância entre essas atribuições e o cotidiano do eleitor faz com que a escolha seja frequentemente baseada em referências externas ao próprio candidato. “Esse voto para o Senado precisa de um apoio de informação. O eleitor se ampara em algo para poder fazer essa avaliação de quem tem mais condições, quem realmente vai o representar melhor nessa Casa Legislativa.”
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