Como a união de Xande de Pilares e Revelação ajudou a redefinir os rumos do pagode

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Como a união de Xande de Pilares e Revelação ajudou a redefinir os rumos do pagode


A última vez que Xande de Pilares subiu ao palco como vocalista do Revelação, em 2014, parecia marcar o fim de uma das histórias mais bem-sucedidas do pagode brasileiro. Depois de duas décadas à frente do grupo, o cantor saía em meio a desgastes nos bastidores e encerrava uma parceria responsável por um repertório que redefiniu o gênero e ajudou a moldar a trilha sonora dos anos 2000. Doze anos depois, a despedida dá lugar ao reencontro.

A turnê “Tava Escrito: O Reencontro Histórico” reúne novamente Xande e a banda em torno de canções como “Coração Radiante”, “Velocidade da Luz”, “Deixa Acontecer”, “Tá Escrito” e “Novos Tempos”. Depois de estrear com casa cheia na Farmasi Arena, no Rio, o espetáculo chega a São Paulo neste sábado (18), no Nubank Parque, antes de seguir por outras capitais até dezembro.


Mas a história deste encontro começou muito antes da fama. Num Centro Cultural de Pilares, na zona norte do Rio, um jovem que aparecia nas rodas de samba para cantar conheceu outro músico, igualmente tímido, que se dividia entre o pandeiro e o cavaquinho. Foi ali que Xande encontrou Mauro Júnior, parceiro que ajudaria a escrever boa parte do repertório que transformaria o Revelação em referência do gênero.

“A música fez a gente se conhecer, gostar de música”, lembra Xande sobre aquele primeiro encontro.

Os dois ainda se perderiam de vista por algum tempo. Voltaram a se encontrar anos depois, na Barraca do Louro, no Salgueiro. A amizade virou parceria musical, e a parceria acabou desembocando no grupo que mais tarde se chamaria Revelação.

“Acho que a gente sempre foi muito tímido. O complemento de um com o outro ajudava a derrubar as barreiras. A afinidade de palco, um olhar pro outro, um ajudar o outro, acho que vem da timidez”, diz Mauro Júnior.

Antes de adotar o nome Revelação, a banda passou por diferentes formações sob a alcunha de Faixa Nobre. Reunia músicos da vizinhança que não sonhavam em gravar discos ou aparecer na televisão. “A pretensão de ser artista a gente não tinha. Queria tocar nos bares da vida e levar nosso dinheirinho para casa”, diz Xande.

O rumo mudou no fim dos anos 1990, quando um registro ao vivo improvisado —e pirateado— virou sucesso comercial e projetou nacionalmente um grupo amadurecido nas rodas de samba cariocas. O salto definitivo veio em 2002, com o álbum “Ao Vivo no Olimpo”.

Poucos grupos conseguiram transformar rodas de samba suburbanas em um fenômeno nacional com a consistência do Revelação. Enquanto o pagode romântico consolidava artistas como Só Pra Contrariar, Exaltasamba e Raça Negra, o conjunto carioca apresentou outra identidade —uma sonoridade ancorada no partido-alto, na cadência das rodas de samba e na força coletiva dos instrumentos.

A divisão dos vocais e o diálogo constante entre banjo, cavaquinho, tantã e reco-reco se tornaram referência para uma geração inteira de músicos. Para Mauro Júnior, banjista e principal parceiro de composição de Xande, essa identidade acabou moldando o próprio gênero.

“Não se tocava pagode no botequim com microfone, do jeito que a gente fazia. Isso veio dali para frente. Então nós temos muitos grupos gravando disco, gravando DVD no nosso formato de tocar.”

Essa relevância histórica também explica por que Mauro Júnior trata com certa impaciência a velha discussão sobre onde termina o samba e começa o pagode. Para ele, o debate é mais vaidade do que música: “Eu acho que tudo que você consegue tocar com um cavaco, um pandeiro, um violão, um tamborim, um reco-reco, é samba”. O pagode, segundo ele, é apenas o contexto social em que esse samba acontece — “uma reunião de pessoas que se reúnem para festejar e tocar um samba” —, não um gênero à parte.

Parte desse repertório nasceu por acaso. “Coração Radiante” surgiu depois que Xande tentou conquistar uma vizinha, levou um fora e jogou a música fora, sem perceber que Mauro tinha a gravação numa fita. O parceiro recuperou a melodia, terminou a composição e chamou Helinho do Salgueiro para concluir a letra. Já “Velocidade da Luz” marcou a infância de Xande, que ouvia a música escondido da mãe na porta de um bar e reescreveu de memória a letra num caderno de escola.

Quando Xande deixou o grupo, em 2014, ainda no auge do grupo, o motivo, dizem hoje, não foi o que se especulou na época. Ambos afirmam que o problema estava na gestão do Revelação, não na relação entre eles.

“Eu não tomei aquela decisão porque estava ganhando pouco. A gente estava bem para caramba. Mas a parte que tinha que estar melhor não estava fortalecida”, diz Xande.

Mauro Júnior compara a saída do parceiro à perda de um craque de futebol: “Falar da saída dele é como falar da saída do Messi do Barcelona. Será que o Barcelona sofreu? A gente sofreu também.”

Depois da separação, cada um seguiu seu caminho. Xande conta que recebeu de Arlindo Cruz o conselho de nunca abandonar as rodas de samba que o formaram. Consolidou a carreira solo, lançou discos, aproximou-se da MPB sem deixar o samba e conquistou um Grammy Latino por “Xande Canta Caetano“.

O Revelação passou por diferentes vocalistas até encontrar estabilidade, em 2018, com Jhonatan Alexandre, o Mamute, sobrinho de Xande. “A gente tinha dificuldade de encontrar uma pessoa que se encaixasse ali no Revelação. Entendesse a nossa forma de tocar, o que a gente queria. A gente só conseguiu superar com o Mamute, que tinha as mesmas características e conhecia tudo do tio, que é um fã incondicional do tio, e sabia exatamente o que a gente queria.

A pandemia acabou servindo como ponte para a reaproximação. Uma live conjunta, a primeira aparição de Xande ao lado do Revelação desde a separação, reacendeu a ideia de uma reunião.

“A gente se reencontrou na pandemia. Fizemos uma live e ali acendeu uma luz”, lembra Xande.

Segundo ele, a proposta da turnê ganhou força graças à insistência da empresária Paula Lavigne. Mauro Júnior, por sua vez, diz que o convite partiu do próprio ex-vocalista. O resultado é uma turnê que celebra tanto o repertório que marcou o pagode quanto a história de amizade interrompida e retomada mais de uma década depois.

Para Xande, porém, o aspecto mais emocionante do reencontro é dividir o palco com o sobrinho, hoje responsável pelos vocais do grupo. “É emocionante. Tenho muito orgulho da história do Revelação, mas o Mamute foi uma coisa que eu não esperava. Foi a grande surpresa da minha história de vida.”



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