Cautela com IA nas escolas

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Cautela com IA nas escolas



Mudança na relação entre o que é estudado e quem estuda pode atrapalhar o desenvolvimento infantil, na visão do pesquisador Paulo Blikstein

Por

JC


Publicado em 30/08/2026 às 0:00

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O gesto de busca ao celular deixou de ser apoio esporádico para se tornar parte das conversas cotidianas. Poucas pessoas mantêm o esforço de revistar a memória para lembrar de alguma informação que falta ao bate-papo. O oráculo ao alcance dos dedos e dos olhos em uma tela providencia resposta para qualquer pergunta. O mesmo costume avança nos ambientes de trabalho, delegando-se pesquisas e construção de relatórios às ferramentas de inteligência artificial (IA), que seguem expandindo a produtividade e o alcance em diversas atividades humanas.
Um dos problemas nessa nova facilidade para o acesso e arrumação de dados e ideias se manifesta na educação. Em todos os níveis, mas os especialistas expressam preocupação maior no início do processo de aprendizagem, cuja organização acompanha o desenvolvimento infantil à adolescência e à vida adulta. O que será de uma criança ou adolescente com a cognição dirigida pela IA? Talvez pior: de um adulto cujos conhecimentos vieram das máquinas de processamento de informação?
Em entrevista para a Folha de S. Paulo, o professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Paulo Blikstein, afirmou que a velocidade com que a IA vem sendo aplicada nas escolas pode conter um sério risco aos estudantes – e num grau maior, a toda a geração atual nas bancas escolares. A previsão parece sombria, mas talvez seja apenas realista: “Daqui a cinco anos a gente vai ver o resultado do uso dessas ferramentas e pode ser tarde demais para toda uma geração que não vai saber escrever ou fazer contas sem usar a inteligência artificial”, alerta.
As habilidades cognitivas nas crianças estão ainda em pleno amadurecimento. Privá-las disso é comprometer algo mais duradouro e profundo que o aprendizado elementar. “Adultos já desenvolveram a habilidade de aprender sozinhos, de identificar quando devem parar de usar uma ferramenta e fazer as coisas por conta própria. Crianças ainda não sabem fazer essa distinção” diz o professor, para quem a substituição dos professores pela IA seria um enorme equívoco – mas é o que muitos defendem, sem compreender as implicações dessa escolha. Blikstein sustenta que o trabalho de ensino vai muito além de explicar. “O professor é um motivador e é também um modelo para as crianças. Um modelo de como estudar e de comportamento. Ele é um criador de cultura em sala de aula, um curador de recursos de aprendizagem, um mentor. Ou seja, ele faz um trabalho muito mais complexo do que qualquer ferramenta pode fazer”.
Se uma criança ou adolescente transfere a tarefa de casa para a IA com um comando, o esforço de pesquisa, interpretação e criação não é empreendido. E o domínio da linguagem faz da IA mais perniciosa que as redes sociais, “porque nós, seres humanos, temos uma tendência a atribuir humanidade para coisas inanimadas”. Quando se pode perguntar tudo e obter qualquer resposta, a dependência emocional pode gerar problemas psíquicos de longa duração.
Qual a saída? Em primeiro lugar, cautela. Cada escola e gestor público escolar precisa pesar bem as consequências da IA nas salas de aula e nas tarefas. E em seguida, regulação e controle de acesso, como já se estabelece consensualmente em relação às redes sociais.



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