Looney Tunes, descartados pela Warner, tiram sarro de Hollywood em novo filme

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Looney Tunes, descartados pela Warner, tiram sarro de Hollywood em novo filme


Um azarão processa uma empresa enganosa. A trama é a do filme de Coyote, Looney Tune que gastou milhões, sem sucesso, para capturar o saboroso Papa-Léguas, mas quase ocorreu com o diretor Dave Green, que penou para lançar “Coyote vs. Acme“.

É que a comédia com os personagens da Warner Bros., em cartaz, teve seu lançamento cancelado após ficar pronta, em 2023, apesar de avaliações acima da média em sessões teste.

De um lado, um relatório mostrou que o estúdio queria declarar o longa como um “ativo perdido” e reduzir impostos sobre títulos que considerava ser mais lucrativos. David Zaslav, o controverso e atual gestor da Warner, já o havia feito com um desenho do cão Scooby-Doo e uma versão em carne e osso da heroína Batgirl, que nunca mais viram a luz do dia.

Do outro lado, protestos tomaram as redes até o filme ser salvo em 2025, quando a Warner voltou atrás e o vendeu para a Ketchup Entertainment. Naquele ano, a produtora independente distribuiu nas salas “O Dia em que a Terra Explodiu”, animação em que Patolino encara ETs.

Antes de abrir mão desse outro título dos Looney Tunes, a Warner quase o lançou na HBO Max, mas a ideia não resistiu às reformas pelas quais o estúdio passava na época, quando se fundiu com a Discovery.

No tempo que se passou até a estreia de “Coyote vs. Acme”, usuários destacaram a ironia entre a trama do longa, que ri de megacorporações, e os desafios que Green e sua equipe enfrentaram.

Há quem diga, aliás, que o tom crítico do projeto foi a verdadeira causa do cancelamento —mesmo antes do anúncio de que a Warner pode ser adquirida pela Paramount. A empresa é próxima de Donald Trump e Hollywood tem retraído seus protestos contra o presidente.

O cineasta cita a frase de divulgação do filme e diz que nunca entenderá a decisão do estúdio. “É o filme que a Acme não quer que você veja. A luta entre Davi e Golias sempre esteve lá, e os temas não mudaram desde o início do planejamento.”

Ele descreve o protagonista como um viciado em produtos maléficos. “Qualquer um pode se identificar com a história desse dependente. Certo dia, ele vê que essa corporação, uma mistura da Amazon, do Google e da Apple, é justamente o seu maior obstáculo.”

No longa, Coyote decide que é hora da Acme, líder na produção de armadilhas mirabolantes, pagar por seus produtos defeituosos. Ele viaja até Albuquerque, nos Estados Unidos, onde se passa “Better Call Saul“, e contrata um advogado parecido com o da série.

Num mundo em que os Looney Tunes fracassaram como celebridades, a dupla se junta a outros rostos em situações precárias, como o malandro Pernalonga e o endiabrado Taz, e leva a empresa ao tribunal.

Seguindo a técnica que juntou os seres animados e Michael Jordan, nos jogos de basquete de “Space Jam“, e, depois, os uniu a Brendan Fraser numa trama de espionagem, “Coyote vs. Acme” insere animações 2D em cenas em live-action para que desenhos e homens lutem juntos contra o poder.

Afinal, a irreverência segue essa turma desde sempre. Ou quase. É que, em 1930, quando surgiram para competir com a Disney, os Looney Tunes obedeciam a músicas da Warner. Na época, estavam restritos a curtas que abriam sessões de cinema, em causos ritmados pelas canções escolhidas.

Com o tempo, o sucesso transformou um galpão abandonado pela empresa em um promissor estúdio de animação. Foi lá que os Looney Tunes perderam a disciplina, deixando de copiar Mickey Mouse e seus amigos, e ampliaram as narrativas até chegar à TV.

Antes disso, desenhos já invadiam filmes de carne e osso. Nos anos 1920, a Disney já apostava nessa mistura em curtas como os da série “Alice Comedies”, em que uma atriz mirim invadia cenários animados. Já na década de 1940, outras figuras do estúdio, como o Zé Carioca, passaram a dançar com artistas como Carmen Miranda, num esforço para estreitar laços entre os Estados Unidos e o Brasil.

Mais tarde, foi a vez de Mary Poppins sapatear com um grupo de pinguins. Já em 1971, “Se Minha Cama Voasse” usou a técnica para reunir leões falantes e crianças da Segunda Guerra, ainda que em cenas pontuais.

Diante da fama de seres ácidos como os Looney Tunes, a Disney antecipou o sucesso de “Space Jam” com “Uma Cilada para Roger Rabbit“, de 1988. Numa Los Angeles habitada por pessoas e “toons”, o coelho e um detetive amargo investigam a morte de um magnata.

Durante a investigação, enfrentam crises pessoais, interrogam desenhos conhecidos e flertam com vários gêneros do cinema. Entre paródias, a sedutora Jessica Rabbit, mulher do protagonista orelhudo, e personagens da Warner licenciados para a ocasião, o longa de Robert Zemeckis conquistou a crítica, as crianças e os adultos.

Já em 1992, coube a “Mundo Proibido” reproduzir o feito, mas o longa para maiores fracassou nas bilheterias. Recentemente, os esforços vieram de “Tico e Teco: Defensores da Lei“, em que os esquilos encontram o ouriço Sonic e um Peter Pan ranzinza, um novo “Tom e Jerry“, dupla da Hannah-Barbera, e um segundo “Space Jam”, rejeitado durante a pandemia.

De um jeito ou de outro, o hibridismo projetou animações e permitiu aos Looney Tunes absorver a cultura pop, testar formatos diversos, como esquetes, episódios maiores e longas totalmente animados, e ganhar derivados, como aquele que explora a infância de Pernalonga, Piu-Piu e outros conhecidos.

“Eles sempre foram autoconscientes, e a Warner sempre foi citada nas histórias”, afirma Green, que cita o curta em que Pernalonga é o ex-contrabandista Rick Blaine, papel de Humphrey Bogart no clássico “Casablanca“.

Em 2020, o Cartoon Network lançou “Looney Tunes Cartoons”, em que os bichos resolvem confusões em episódios de trinta minutos. Em meio ao que parte da imprensa diz ser um boicote aos personagens, a série é um dos títulos da marca que ainda estão na HBO Max. Os curtas estrelados entre 1930 e 1969, porém, não tiveram a mesma sorte, já que a Warner terminou de removê-los em 2025.

Apesar das críticas positivas e dos bons números de estreia, ainda é cedo para calcular o sucesso de “Coyote vs. Acme”. Se depender de Dave Green, o diretor, as explosões animadas, as crises de Looney Tunes psicóticos e as críticas à América servem a todos.

“Meu maior medo é fazer um filme que subestime crianças”, diz. “Lembro bem de quando me sentia menosprezado por adultos. Meus filmes favoritos eram aqueles que eu não tinha permissão para ver, como ‘Beetlejuice’ e ‘Os Caça-Fantasmas’. Eles eram assustadores e corriam riscos, e espero que essas produções não desapareçam.”



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