No baile do Met Gala deste ano, a atriz Sarah Paulson —do seriado “American Horror Story”— apareceu no tapete vermelho com uma máscara no formato de uma nota de dólar cobrindo os olhos. A criação, dos designers de moda Matières Fecales, era parte de uma coleção intitulada “O Um Porcento”, um conjunto de roupas no qual a dupla canadense se propôs a pensar sobre a ganância e a corrupção decorrentes do poder extremo.
Vulgar, o acessório podia ser lido como um comentário sobre o namoro das grandes fortunas com a moda de luxo. A festança de maio em Nova York, um evento de alcance global para as grifes mais desejadas, teve como patrocinadores e anfitriões Jeff Bezos, o dono da Amazon, e sua mulher, Lauren Sánchez. Em fevereiro, Mark Zuckerberg, chefão da Meta, e sua mulher, Priscilla Chan, sentaram na primeira fila do desfile feminino da temporada de inverno da Prada, na Semana de Moda de Milão.
Em ambas as situações, os tecnocratas foram ciceroneados por Anna Wintour, a ex-editora da Vogue americana e uma das mulheres mais influentes do universo da moda —ela legitimou a presença dos magnatas da big tech num clubinho antes fechado para quem definia o bom gosto.
Se algumas das maiores contas bancárias do mundo agora se sentam na disputadíssima fila A dos desfiles e brindam suas taças de espumante com as principais figuras do setor, é de se perguntar —o que os bilionários da tecnologia querem com a moda? Como eles foram da festa da posse do segundo mandato de Donald Trump, onde marcaram presença, para o exclusivo e esnobe cercadinho das grifes de luxo?
Para a diretora criativa de moda Camila Yahn, o universo fashion pode dar aos bilionários a imagem de ilustrados que eles não têm. “Eles já são donos de tudo. De como a gente se comunica, da nova forma de consumir, agora com a inteligência artificial também são donos dessa parte, dominam a política. Mas eles não tinham uma coisa, que era a cultura. São pessoas inteligentes, polêmicas, espertas, disruptivas, horríveis, mas não são considerados cultos. Nunca falamos ‘que bom gosto o Elon Musk tem!’. Este é o principal capital da moda, especialmente de luxo —é onde a cultura acontece”, diz ela.
Yahn ressalta o lugar da moda como um espaço de beleza, bom gosto e olhar estético e, até poucos anos atrás, restrito a quem era convidado a entrar. Gente cafona, mesmo com as contas bancárias mais polpudas do planeta, era barrada por quem montava as listas de convidados dos eventos. Os ricaços se contentavam em gastar seus dólares nas lojas das marcas, seja com as roupas prontas para usar, o “prêt-à-porter”, ou com a alta costura, as peças exclusivíssimas feitas sob medida.
Segundo a imprensa americana, Bezos e sua mulher doaram US$ 10 milhões para o Met Gala deste ano, em torno de R$ 50 milhões. Quem queria respirar o mesmo ar do casal precisava desembolsar R$ 500 mil por um convite, ou US$ 100 mil. O dinheiro arrecadado no baile serve para financiar o Costume Institute, o departamento de moda do museu Metropolitan.
Não faltaram protestos contra a influência dos Bezos no evento —que aconteceu depois de Lauren Sánchez estampar a capa de uma edição digital da Vogue americana no ano passado—, mas os atos não ofuscaram o imenso sucesso do Met Gala, que se provou incancelável.
No caso do desfile da Prada, os fashionistas ficaram horrorizados com a presença do executivo da Meta. Os convidados já estavam posicionados à espera do show quando Zuckerberg e sua mulher chegaram, sem falar com ninguém —a apresentação começou assim que o casal sentou. Rumores davam conta de que a maison italiana lançaria óculos inteligentes com a Meta, mas não houve nenhum anúncio.
Zuckerberg, Bezos —e Elon Musk— não são figuras bem vistas de modo geral, seja pela fortuna obscena que acumulam ou pela imensa influência sobre a sociedade e a política que detêm. Então o que a moda, sempre tão seletiva, ganha ao se associar com eles?
Mariana Cerone, professora do núcleo de luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, a ESPM, observa que as marcas calculam os riscos ao se colarem a figuras detestadas, porque sabem que a polêmica, mais do que os personagens, pode ser motor de negócios.
Ela lembra do caso da Balenciaga, que ficou vinculada à sexualização infantil devido a um anúncio no qual uma criança segurava um ursinho de pelúcia adornado com acessórios de couro sadomasoquistas —o bichinho era uma bolsa vendida pela marca. Embora tenha sido cancelada nas redes sociais, pedido desculpas pelo anúncio e enfrentado um colapso de reputação gigantesco, a maison não só não quebrou como trocou de estilista e segue lançando coleções e sendo desejada, diz Cerone.
Cerone acrescenta que o mercado de luxo tem a capacidade de operar no olho do furacão da crise, de modo a manter a ânsia dos consumidores por seus produtos tão grande que ela não arrefece diante de escândalos. Ou seja, fabricar uma controvérsia, no fim, pode ser bom.
“Em algumas situações, tem aquele jargão popular —falem mal mas falem de mim. A polêmica é importante. A nossa sociedade, hoje, vive na base do conflito. Como a gente tem a polarização do bom e mal, gordo e magro, bonito e feio, as marcas que sabem a importância da cultura precisam saber trabalhar nos dois extremos”, diz Cerone. “Não adianta criar uma estratégia para viver de um lado só.”
Cerone argumenta que as controvérsias levam quem não sabia direito o que era uma marca a prestar atenção nela. Assim como no mercado de ações, a professora afirma ser uma operação arriscada trabalhar com os “haters” e o boicote. Porém, grifes já poderosas, como as do calendário das semanas de moda internacionais, dificilmente perderiam clientes por isso.
Além disso, as especialistas concordam que o cenário político dos Estados Unidos é um pano de fundo favorável à expansão da influência dos magnatas americanos da tecnologia sobre a moda, até então considerada um patrimônio cultural europeu. Para Cerone, o capital econômico tende a ganhar mais peso numa era conservadora como a atual. Yahn é direta: “O Trump abriu a porta da frente para esses caras todos, eles estão com Trump em tudo. Inclusive, Elon Musk fazia parte do governo“.












