Banda Deafkids desafia as fronteiras musicais em novo disco ‘Cicatrizes do Futuro’

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Banda Deafkids desafia as fronteiras musicais em novo disco ‘Cicatrizes do Futuro’


É punk demais para os metaleiros e eletrônico demais para os punks. Mas também é brasileiro e latino, quente e suingado para o universo da música eletrônica. O choque entre estéticas que ora se digladiam, ora se complementam é uma chave para entender o som da dupla Deafkids, um dos principais nomes do cenário independente do Brasil, que lança agora seu quarto disco de estúdio, “Cicatrizes do Futuro”.

A banda cria uma música “rítmica, febril e corporal”, diz Douglas Leal, um dos multi-instrumentistas do grupo, responsável por vocais, guitarra, baixo, percussão, flauta e programação eletrônica. Para Marian Sarine, a outra metade da banda, que toca baixo, bateria e percussão, o Deafkids faz um som “que tem pulsão de vida, a música de um frenesi, do corpo para a mente, e não da mente para o corpo”.

Em seus 39 minutos, “Cicatrizes do Futuro” traz percussões hipnóticas combinadas a batidas eletrônicas industriais. Há também vocais indecifráveis, repetidos como mantras, e guitarras rasgadas que invadem as músicas em ondas, entre idas e vindas. O resultado é um amálgama sonoro sem paralelo.

A sonoridade original foi uma das razões pelas quais o Deafkids assinou, há quase dez anos, com o influente selo americano Neurot, que olha para a vanguarda da música pesada e pelo qual sai o novo álbum da banda. O disco será apresentado em show de lançamento nesta sexta-feira (17), no Sesc Pompeia, em São Paulo, antes de a dupla partir para uma turnê pela Europa e, em seguida, por países da Ásia.

A identidade do Deafkids resulta de uma pesquisa sonora desenvolvida desde 2013. Naquele ano, a banda de Volta Redonda, no interior do estado do Rio de Janeiro, lançou de forma independente seu primeiro disco. O álbum foi gravado no estúdio do irmão de Leal, onde o grupo segue registrando suas criações até hoje.

Foram os álbuns “Configuração do Lamento”, de 2016, e “Metaprogramação”, lançado três anos depois, que sedimentaram a banda como um nome a ser visto ao vivo tanto pelo público do metal quanto da música experimental.

Naqueles discos, gravados ainda com a formação de trio, a sonoridade se voltava mais para o metal e menos para a eletrônica e as percussões. Isso mudou depois da saída do baixista Marcelo dos Santos, em 2024 —atualmente, o som é mais dançante, ainda que não perca o peso.

“Cicatrizes do Futuro”, título do novo disco, refere-se tanto às marcas que ainda virão quanto às do presente, mais urgentes, representadas pela inteligência artificial generativa e pelas redes sociais, elementos de um futuro dominado pela tecnologia. “A cicatriz já existe, só que parece que tem uma faca enfiando ainda ali”, afirma Sarine.

Ser representada pelo selo Neurot trouxe visibilidade à banda no exterior. O Deafkids fez turnês pelos Estados Unidos e pela Europa, compôs uma faixa para a trilha sonora do videogame “Cyberpunk 2077”, tocou em importantes festivais de vanguarda de música pesada, como o Roadburn, na Holanda, e gravou um disco com o ex-baterista do Sepultura Iggor Cavalera.

No Brasil, a banda se apresenta com regularidade no circuito alternativo. Apesar de ter uma audiência cativa por aqui, Leal afirma que o Deafkids ainda é um pouco incompreendido. “Não que seja um som que tenha que ser compreendido, mas ainda tem muita porta para a gente conseguir abrir.”



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