Após seis décadas dividindo o palco com grandes elencos, Arlete Salles encara a plateia sozinha pela primeira vez. A estreia no formato solo se dá em “Mande Notícias do Mundo de Lá”, espetáculo escrito e dirigido por Carlos Jardim, que coloca a consagrada atriz diante de um caixão —sem nenhum outro interlocutor em cena. Após temporadas no Teatro Fernanda Torres, em São Paulo, e no Teatro dos 4, no Rio, a montagem reestreia no Teatro Renaissance, na capital paulista, a partir de 17 de outubro.
Para quem construiu uma trajetória calcada na precisão do jogo coletivo e na agilidade do diálogo entre parceiros, a mudança exigiu recalibrar a bússola artística. Sem o tempo de resposta alheio para modular humor e gravidade, Salles diz que hesitou diante do convite, mas foi amplamente recompensada por descobertas técnicas que só agora, aos 88 anos, teve a oportunidade de vivenciar nos palcos.
“Eu gostava do diálogo, de contracenar —gostava não, eu gosto—, mas estou descobrindo diariamente que o monólogo tem um empoderamento de ator, ele precisa de uma resistência de ator”, ela diz. “Lá na minha terra se diz que a gente vai morrendo e aprendendo, isso quer dizer que a gente aprende até o final. Isso não quer dizer que eu pretendo fazer um segundo monólogo, mas a experiência tem sido muito enriquecedora”.
Escrita em um ato único de uma hora e dez minutos, a peça apresenta Eulália Eugênia, mulher vivaz que carrega um pavor crônico da finitude. Ao chegar a uma capela mortuária para se despedir de Rosimere, companheira de uma vida inteira, ela se depara com o velório completamente vazio. Recusando-se a deixar a amiga partir no abandono, Eulália se aproxima da urna e começa a falar.
O solilóquio, porém, subverte as solenidades fúnebres —no lugar de preces ou grandes orações, o afeto e o luto emergem embalados por picuinhas cotidianas acumuladas ao longo de décadas. Entram em pauta o figurino duvidoso da falecida, o perfume adocicado em excesso, a sangria aguada e a persistência em eleger o estrogonofe como banquete refinado desde os anos 1980.
A aparente futilidade dos comentários atua como engenhoso escudo contra o desespero. O texto equilibra ironia e desamparo, mecanismo desenhado por Jardim para aproximar o espectador sem ceder ao melodrama. Vindo do telejornalismo e de documentários pautados pela escuta, o diretor adotou uma cenografia limpa, restrita ao esquife e a cadeiras desocupadas.
“O texto é direto e econômico, sem grandes dissertações. A opção por uma encenação minimalista foi um caminho natural”, afirma ele. “A saída mais acertada foi limpar os excessos para concentrar tudo na vitalidade dessa atriz extraordinária.”
No tablado, Salles transita com maestria entre notas confessionais e tiradas cáusticas. O dinamismo quebra a rigidez do velório e alcança momentos de catarse insólita, como quando a personagem ignora o ambiente de vigília e dança ao som do Abba.
Jardim destaca o domínio cômico da veterana. “Ela é mestra em pausas e entonações que valorizam o humor, conduzindo o público de um estado a outro sem sobressaltos”. O diretor defende que rir é a melhor ferramenta diante de tabus. “Falar de velhice e morte assusta a maioria das pessoas. O humor é um meio eficiente de tocar a emoção e instigar a reflexão.”
A identificação com a personagem é palpável ao abordar o passar dos anos, embora a disciplina da atriz trace fronteiras nítidas. “Vivo momentos do espetáculo na vida pessoal, mas no palco o foco é a Eulália; não posso me deter em ponderações privadas.”
A montagem se completa com a luz precisa de Sarah Salgado, os figurinos de Antônio Rocha e a direção musical de Liliane Secco, cujo título evoca a canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Ao celebrar a vida em pleno rito de passagem, Arlete Salles transforma a despedida em afirmação luminosa da vida.














