Antônio Carlos Sobral Sousa: O coração pode sofrer sem doer

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Antônio Carlos Sobral Sousa: O coração pode sofrer sem doer


A dor no peito tornou-se quase um arquétipo do perigo cardiovascular. Ela é o alarme clássico, o sinal que mobiliza familiares, unidades de emergência



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Há dores que assustam. Outras que ensinam. E há, ainda, silêncios que enganam. Na Medicina, aprendemos desde cedo a valorizar o sintoma. A dor no peito tornou-se quase um arquétipo do perigo cardiovascular. Ela é o alarme clássico, o sinal que mobiliza familiares, ambulâncias, unidades de emergência. É o grito do coração pedindo socorro. Ao longo da formação médica, repetimos à exaustão a tríade dos sinais clássicos, descrevemos o aperto retroesternal, a irradiação para o braço esquerdo, o suor frio, a náusea. A dor, nesse contexto, é linguagem. É mensagem inequívoca.

Mas nem todo sofrimento cardíaco grita. Existe uma condição intrigante — e, por vezes, traiçoeira — chamada isquemia silenciosa. Trata-se da redução do fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco sem que o paciente experimente dor ou desconforto significativo. O coração sofre, mas o indivíduo não percebe. Não há aperto, não há opressão torácica, não há a angústia descrita nos livros clássicos de clínica médica. Apenas silêncio. E o silêncio, em Medicina, pode ser perigoso.

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A isquemia silenciosa é mais frequente do que o senso comum imagina. Ocorre com maior incidência em pessoas com diabetes mellitus, nos idosos e naqueles que acumulam fatores de risco como hipertensão arterial, dislipidemia, obesidade e tabagismo. Em muitos desses pacientes, alterações nos mecanismos de percepção da dor — especialmente nos diabéticos, em razão da neuropatia autonômica — atenuam ou anulam os sinais clássicos da falta de oxigênio no músculo cardíaco. O organismo não emite o alerta esperado.

O paradoxo é inquietante: o órgão que pulsa vida pode adoecer sem aviso perceptível. Vivemos numa cultura que associa ausência de dor à ausência de problema. Se nada dói, está tudo bem — diz o senso comum. Contudo, o coração não obedece a essa lógica simplista. Ele pode estar lutando contra a insuficiência de suprimento sanguíneo enquanto o corpo segue sua rotina aparentemente normal: trabalha, caminha, ri, dorme. O indivíduo cumpre seus compromissos, planeja o futuro, celebra encontros — e, silenciosamente, o miocárdio pode estar em sofrimento. Essa dissociação entre sensação e realidade clínica nos ensina uma lição valiosa: nem sempre a experiência subjetiva traduz a gravidade objetiva.

É nesse ponto que se revela a importância da Medicina preventiva e da avaliação criteriosa dos fatores de risco cardiovascular. A consulta periódica deixa de ser mera formalidade para tornar-se instrumento de proteção. A aferição regular da pressão arterial, o controle glicêmico, a avaliação do perfil lipídico e a estratificação global do risco são atitudes que transcendem o protocolo — representam cuidado.

Exames complementares como o teste ergométrico, o ecocardiograma sob estresse e métodos modernos de imagem, como a cintilografia miocárdica e a angiotomografia coronariana, permitem revelar aquilo que o organismo tenta ocultar. A tecnologia, quando bem indicada, transforma o silêncio em dado objetivo; o dado, em diagnóstico; o diagnóstico, em oportunidade de intervenção. Identificar a isquemia silenciosa é abrir uma janela antes que a tempestade se instale.

O tratamento, em essência, não difere daquele destinado à doença coronariana sintomática. Exige controle rigoroso da pressão arterial, do diabetes e dos níveis de colesterol. Requer mudanças consistentes no estilo de vida — alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, abandono do tabagismo. Demanda adesão terapêutica, disciplina e acompanhamento contínuo. Em situações selecionadas, pode indicar procedimentos de revascularização miocárdica, seja por intervenção coronária percutânea, seja por cirurgia. Entretanto, talvez o aspecto mais profundo dessa condição não seja apenas técnico — seja simbólico.

A isquemia silenciosa nos recorda que o corpo nem sempre grita antes de adoecer gravemente. Às vezes, ele sussurra. E a sabedoria está em aprender a escutar esses sussurros por meio da prevenção e do acompanhamento regular. A Medicina contemporânea, cada vez mais tecnológica, não pode prescindir da escuta atenta, do raciocínio clínico e da visão integral do paciente. Em tempos de vida acelerada, nos quais exames são adiados e consultas postergadas sob o argumento da falta de tempo, lembrar que o coração pode sofrer em silêncio é um convite à responsabilidade. Não se trata de alarmismo. Trata-se de prudência. Não se trata de medo. Trata-se de consciência.

O verdadeiro cuidado não começa na emergência, diante do evento agudo. Ele começa muito antes — na consulta periódica, na avaliação criteriosa do risco cardiovascular, na orientação persistente sobre hábitos saudáveis, no diálogo franco entre médico e paciente. Porque, no fundo, a ausência de dor não é sinônimo de saúde. O coração raramente grita de imediato. Ele começa sussurrando. E talvez possamos aprender com ele que ouvir é uma arte que exige atenção e humildade. Como nos ensinou o filósofo Søren Kierkegaard: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para frente.”

Que saibamos olhar para frente com consciência — antes que o silêncio se transforme em urgência!

Antônio Carlos Sobral Sousa, Professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação






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