Eles estão por todo lado —assim como o bombardeio de más notícias que se alastra pelo mundo. Por trás da febre dos Labubus, os monstrinhos de pelúcia que hoje são vistos nas mãos desde superestrelas como Madonna até nas de quem compra versões falsificadas na rua 25 de Março, há algo maior —a vontade de voltar os olhos para o nada e escapar das discussões complexas do momento.
Eles lembram os Funko Pops, outra espécie de miniatura, esta de plástico, que virou febre na última década. Mas são completamente diferentes. Embora possam ser usados da mesma forma, como um chaveiro ou um enfeite numa estante, os Funkos são réplicas de personagens populares —da Disney ou de franquias como “Harry Potter“— que possuem significados, porque vêm da literatura, do cinema ou da televisão. Sua existência está atrelada a essas plataformas, nas quais eles fazem parte de uma narrativa mais ampla e que lhes confere alguma personalidade.
Os Labubus, pelo contrário, são desprovidos de qualquer significado. Vêm na mesma esteira, por exemplo, dos personagens de autoria desconhecida, criados com inteligência artificial, que povoam vídeos no TikTok com narrativas que dizem tão pouco quanto eles próprios —Tralalero Tralala, um tubarão que usa tênis; Ballerina Capuchina, uma xícara de pernas com vestes de balé; e muitos outros que parecem ser frutos de uma pane no sistema, um delírio da tecnologia que ganhou liberdade criativa.
Nada parece fazer sentido, mas isso não importa. Essas febres têm unido o planeta num momento de desunião —por questões inúmeras, como política, debates identitários ou brigas que chacoalham a diplomacia mundial.
Fato é que, eleitor de Lula ou de Bolsonaro, brasileiro ou americano, ter um Labubu como chaveiro, pendurado a uma bolsa ou estampado numa camiseta, é como pertencer à rodinha mais maneira do planeta, estar por dentro de uma piada interna, só que global —até Madonna, afinal, fez um bolo inspirado nesse monstrinho para comemorar seu último aniversário.
Eles podem ser comprados em viagens descoladas ao exterior, por quem tem dinheiro de sobra em outras moedas, mas podem ser adquiridos também na Liberdade —bairro da capital paulista onde se encontra todo tipo de quinquilharia—, nas calçadas da avenida Paulista e nos centros comerciais como a 25 de Março.
Nesses lugares, aliás, predominam as versões pirateadas, apelidadas de “lafufus” ou “tribufus” pelos brasileiros. Mas isso não é problema —original ou não, todo Labubu é aceito, mesmo os mais estranhos. Esses, aliás, até têm um charme próprio e reforçam a tendência “ugly-cute”, algo como feio e fofo, que norteia a proposta desses bonecos e também de sucessos como o Stitch, personagem da Disney dos anos 2000 que voltou a ser febre nos últimos anos e ganhou um novo filme.
Quem deu o pontapé na tendência dos Labubus foi a cantora tailandesa Lisa, do grupo de k-pop Blackpink. Ela foi uma das primeiras celebridades a usar um Labubu como complemento de um look. Depois ele encantou Rihanna, Dua Lipa, passou pelas mãos de Lady Gaga em um de seus megashows e, no Brasil, foi adotado pela influenciadora digital e apresentadora Virginia Fonseca.
Com um Labubu, portanto, mesmo não podendo carregar uma bolsa Birkin, coisa que se vê nos braços de personagens de “Sex and the City” e pode custar centenas de milhares de dólares em suas versões mais exclusivas, todos podem se parecer como essas estrelas. Qualquer um, afinal, pode comprar um desses monstrinhos e, como elas, usar como um acessório. Eles são a ostentação possível para uma juventude com um poder de compra desidratado, muito menor se comparado ao de seus pais.
Seu sucesso, aliás, tem raiz na infantilidade. Um bichinho de pelúcia é um produto essencialmente infantil, e ter um deles sempre foi visto como coisa de criança. Justamente por isso, os Labubus evocam a tranquilidade de uma infância cada vez mais distante, de um tempo em que a ignorância do caos que se abate sobre o mundo não era uma escolha, mas o natural.



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