O quadro mais famoso de David Hockney mostra os respingos da água numa piscina. Alguém acaba de mergulhar num espelho esplêndido. No fundo, uma casa de linhas retas e uma cadeira vazia. Tudo é duro, estável, permanente, menos o jorro da água que perturba a ordem e nos dá a certeza de que alguém está ali, embora invisível.
Um dos maiores nomes da arte do século 20, o britânico, morto nesta quinta-feira, construiu na ensolarada Los Angeles, onde viveu na década de 1960, esse registro pleno do desejo e da solidão. “A Bigger Splash“, uma das telas mais emblemáticas da história da arte, é nada mais que a constatação de estarmos sozinhos num mundo de presenças frágeis, companhias instáveis.
Hockney contava em entrevistas que pintar os respingos, a água em movimento, deu muito mais trabalho do que retratar a casa ao fundo e duas palmeiras indefectíveis ao lado. A construção térrea, típica do modernismo californiano, e as árvores são itens permanentes da paisagem, pétreos, enquanto a piscina tomada de assalto é coisa de segundos, uma superfície violada por instantes que, no entanto, parece mais imortal do que as pedras.
Ele estava apaixonado, de fato, pelo amante do momento, mas mais ainda pela ideia de que o desejo pode ser vivido e mostrado dentro do registro dos quadros, a pintura como índice da exuberância de um mundo de possibilidades. Hockney sempre se disse interessado, acima de tudo, pela beleza e pela luz.
Sua obra é de uma simplicidade enganosa. Os traços são nítidos, claros; a feição das figuras beira o cartunesco, o esquemático, são arquétipos. E, ao mesmo tempo, não são —seus retratos, de amigos, de colecionadores, dos próprios pais, dele mesmo, guardam semelhanças com as figuras reais, mas é a pintura que importa, quase uma realidade paralela à dureza do mundo real.
O exercício de Hockney foi contrapor à realidade mais brutal um mundo invertido, de cores saturadas, ângulos menos agudos, espaços iluminados.
Nesse sentido, desafiou todas as vanguardas que atravessaram suas décadas de vida, passou longe do expressionismo abstrato que era a coqueluche da fase em que fez suas obras mais icônicas, a não ser talvez no clássico “We Two Boys Together Clinging”, os tais dois garotos, na verdade formas geométricas, que se agarram numa pintura do início da carreira, ainda em Londres, quando ser gay era ilegal no Reino Unido.
Hockney, no entanto, foi um artífice de outros gestos, momentos isolados que traduzem na própria insignificância a grandeza da vida, o banal como chave definidora da experiência de estarmos aqui e agora, podendo mergulhar na piscina e, talvez, sentir a brisa e o calor do sol.
Suas piscinas, tema recorrente em suas pinturas das décadas de 1960 e 1970, são esses espaços de possibilidade, espelhos móveis que turvam a visão e nisso revelam vontades e desejos escondidos.
“Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)” é a síntese disso. Um homem vestido à beira da água observa outro que nada na piscina —existe uma sugestão de movimento, claro, mas é o aspecto congelado da cena, a expectativa dura, como se o ar fosse a mais robusta arquitetura, que orquestra a situação. Um homem olha para outro que talvez nem note a presença do voyeur.
O tema dos banhistas, Hockney sabia, claro, é dos mais recorrentes na história da arte. E ele foi um leitor atento de tudo que veio antes dele, capaz de olhar na cara de séculos de pintura e sorrir. Seus banhistas, ao contrário daqueles de Paul Cézanne, talvez os mais belos de todos, não são o ímã do nosso desejo. São os motores de uma atmosfera dentro do próprio quadro, uma narrativa em que ele, o artista, se desnuda mais que a figura dentro da água. É a confissão áspera de se entender refém do incontrolável, de paixões movediças.
Numa sequência de “Má Educação“, Pedro Almodóvar deu asas àquilo que Hockney deixa nas entrelinhas. Ele filma o embate visual entre dois homens nesse banho de piscina, partindo da composição do quadro. Mas o britânico talvez fosse mais clássico, um devoto da tradição de certa maneira.
Seu jogo de estranhamento e sedução lembra um poema de Walt Whitman, outro herói queer que nunca se anunciou como tal, em que ele narra uma mulher, possível alter ego dele mesmo, a observar os homens que nadam à luz do sol. Eles brincam, boiam na superfície da água, ela olha de longe. O último verso diz que ali eles estão, à vontade, sem saber quem vai se molhar com os respingos daquela água.












