Quem diria que um mascarado ia causar tanto pânico.
No episódio mais barulhento da Bienal do Livro 2026, homens fantasiados de personagens macabros sensualizaram com garotas jovens no estande da editora Fruto Proibido, de literatura erótica. Não houve influenciador que não desse sua opinião sobre o caso nas redes, entre acusações revoltadas, gente fazendo sinal da cruz e a alegre catarse de fãs de um gênero cada vez mais popular.
O caso terminou ilustrativo do que foi a Bienal deste ano —um caso de sucesso estrondoso, mas que fugiu bastante do controle.
A organização do evento notificou a Fruto Proibido e afirmou “não compactuar com condutas ou ações inadequadas”, sem nunca deixar explícitas quais são as condutas aceitas e as vetadas —nem quis esclarecer isso para as reportagens produzidas sobre o caso.
Foi um episódio que cheirava a coisa errada, que parecia estar indo longe demais, mas nem os castigadores nem os punidos pareciam saber apontar exatamente qual regra estava sendo ferida.
A própria editora lavou as mãos, dizendo que não tinha nada a ver com aquele ator bombado, e em seguida pôs no estande uma placa “para maiores de 18 anos”. Outras casas de literatura erótica reclamaram que o caso manchava a imagem do gênero e cobraram atitudes mais responsáveis.
A responsabilidade, no fim, é da Bienal, que convida e cobra ingresso para o público estar ali.
É certo que, há décadas, o evento consolidou sua atenção nas crianças e nos adolescentes. O que fazer, então, quando a onda “dark romance” vira um fenômeno impossível de ignorar? Os leitores e leitoras que gostam de narrativas sobre tesão incontrolável por criaturas violentas devem se sentir em casa na Bienal? Ninguém parece saber responder.
E são perguntas simbólicas para um evento que parece repensar sua identidade. Há algumas edições, tanto a Bienal de São Paulo quanto a do Rio de Janeiro tomaram dimensões superlativas, sem saber exatamente como lidar com tamanho público —e com um leque tão distinto de fãs.
A fotografia de agora, de novo, traz editoras de sorriso estampado. A Companhia das Letras aumentou suas vendas em 67%, a Record subiu 76%, a Sextante cresceu 82%, a Autêntica e a Intrínseca saltaram 85% e a Globo dobrou seu faturamento —sempre em comparação com o evento paulista de 2024.
A Rocco, que celebra um aumento de 121% na receita, vendeu mais em quatro dias de Bienal do que em um mês inteiro de comércio com a Leitura, maior rede de livrarias do Brasil. É sinal de que a venda de livros se apoia cada vez mais em eventos catárticos como esse, capazes de mobilizar comunidades.
A Bienal de São Paulo informou, no final da tarde deste domingo (13), que teve recorde de público com 760 mil visitantes, 38 mil a mais que a edição de dois anos atrás. E quem foi ao evento sentiu a lotação avassaladora —mais uma vez.
Filas longas e atrapalhadas se misturavam pelos corredores, levando adultos e crianças a esperas de horas não só para ver ídolos literários, mas para entrar e sair de estandes. Editoras extrapolavam seus limites de espaço pela quantidade de fãs que atraíam, e o mapa da Bienal piorou a situação aproximando muitas das casas mais populares do país.
A solução do evento foi abrir um pavilhão anexo e tirar parte da praça de alimentação para fora da estrutura principal, o que colaborou para desafogar um pouco a situação. Mas não adiantou tanto assim —a oferta do segundo espaço era tão lateral que o pavilhão era apelidado de “secreto” por leitores perdidos.
A programação apostou no arroz com feijão, o que não é problema para um evento de “fan service” como a Bienal. Lynn Painter, vindo ao país pelo quarto ano seguido, ainda toca fundo seus leitores. Sucessos perenes como os brasileiros Raphael Montes, Paula Pimenta e Conceição Evaristo continuam provando seu valor.
Tudo a Ler
Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias
Novidades como Alice Oseman e SenLinYu —que se emocionou enquanto emocionava o público de seu “Alchemised”— foram responsáveis por uma lufada de originalidade. Ao longo da semana, a programação mais voltada ao público adulto fez os dias ficarem mais cheios que o normal.
Mas o problema realmente não é como fazer o evento lotar —e, sim, como torná-lo mais confortável e convidativo para o público fiel. A demanda já está flagrantemente enorme. A pergunta, agora, é como não fazer lambança no meio de tanto sucesso.














