Foi gratificante verificar que no Brasil, pela 1ª vez, o analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais caiu para 4,9%, menor taxa da série histórica
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O analfabetismo é um dos fatores mais importantes para preservar desigualdades sociais e econômicas. A título de exemplo, um estudo de alguns anos atrás, promovido pelo Todos Pela Educação, mostrou que, enquanto a chance de um filho de pai analfabeto também ser analfabeto é de 32%, essa probabilidade cai para 0,2% se o pai tiver cursado o Ensino Superior; ou ainda: alguém cujo pai é analfabeto tem apenas 0,6% de chance de completar o Ensino Superior, contra uma probabilidade de 60% caso o pai tenha cursado o Ensino Superior completo. Em outras palavras, o analfabetismo é um convite à desigualdade.
Por isso foi gratificante verificar que no Brasil, pela primeira vez, o analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais caiu para 4,9%, atingindo a menor taxa da série histórica da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Educação. No entanto, as desigualdades regionais, etárias e de raça continuam. Apesar da queda verificada, a Região Nordeste ainda concentra mais da metade das pessoas que não sabem ler e escrever no país. São 4,8 milhões de pessoas nessa região, o que equivale a 57,4% do total nacional – ou seja, a taxa de analfabetos com 15 anos ou mais é de 10,6%, mais que o dobro da média brasileira.
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A Região Norte também ficou acima da média nacional, com uma taxa de 5,7%, enquanto as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste ficaram com taxas de 2,4%, 2,3% e 3,3%, respectivamente.
As desigualdades raciais continuam expressivas. Na faixa etária em questão, 2,8% dos brancos eram analfabetos em 2025, contra 6,5% entre pretos e pardos. Na população com 60 anos ou mais, o quadro é ainda mais preocupante: a taxa foi de 7,3% entre brancos e de 20,6% entre pretos e pardos, quase três vezes mais. Entre os idosos, a PNAD também registrou uma mudança inédita: pela primeira vez, a taxa de analfabetismo das mulheres com mais de 60 anos ficou abaixo da dos homens, 13,7% contra 14,1%, respectivamente.
Para reduzir desigualdades em nosso país, é preciso “fechar a torneira” do analfabetismo – ou seja, assegurar que toda criança seja alfabetizada na idade certa. Por isso, reputo como muito importante a política pública Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), que tem por objetivo assegurar que toda criança até os 7 anos de idade possa ler e escrever.
Essa fase educacional é de responsabilidade direta dos municípios brasileiros, em colaboração com os Estados e a União. Desde 2023, o Ministério da Educação vem medindo a taxa de crianças alfabetizadas por meio do Indicador Criança Alfabetizada (ICA), usando um corte de 743 pontos na prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) na 2ª. série do Ensino Fundamental. E de lá para cá verifica-se um aumento importante de crianças alfabetizadas – mas ainda estamos longe da meta de 80% prevista para 2030.
Políticas como o CNCA não têm apenas um impacto importante, a médio prazo, na redução do analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais de idade, mas também na promoção do sucesso escolar de nossas crianças, com reflexo direto na melhoria da aprendizagem escolar e no aumento da taxa de escolaridade. Com relação a este último indicador, a PNAD também revelou um avanço no nível de escolaridade da população adulta: o percentual ultrapassou pela primeira vez a barreira dos 50%, chegando a 51,3% em 2025 – e, entre as pessoas brancas, a proporção alcançou o índice de 64,9%.
Esses números revelam que a educação em nosso país está de fato avançando – isso é inegável –, mas não no ritmo que precisamos. As desigualdades ainda persistem. Mas tenho esperança de que continuaremos firmes na luta – e, como dizia o nosso saudoso escritor Ariano Suassuna, sou um realista esperançoso.
PS: Algumas informações deste artigo foram extraídas da matéria do g1.globo.com de 19/06/2026.
Mozart Neves Ramos é titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto.













