Adoraria ser convidada para viver uma intelectual ou uma artista, afirma Regina Casé

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Adoraria ser convidada para viver uma intelectual ou uma artista, afirma Regina Casé


É como se a atriz flutuasse em meio às estrelas. Atrás dela, há uma constelação formada por pontos luminosos num telão. À direita e à esquerda, objetos semelhantes a rochas transportam o espectador para a superfície árida de Marte. Nesse cenário, a artista caminha em direção a um globo azulado preso sobre o palco. Ela o acaricia, como se afagasse uma criança manhosa. Regina Casé tem agora o mundo em suas mãos.

O cuidado com que ela manuseia o planeta no monólogo “Viva! Vida!” é próprio de alguém fascinado pela Terra. Essa devoção poderá ser sentida na capital paulista a partir de 9 de julho, quando o espetáculo estreia no Teatro Sérgio Cardoso, no centro da cidade, após uma temporada bem-sucedida no Rio de Janeiro.

Com direção de Daniela Thomas e texto de Estevão Ciavatta, o solo se debruça sobre diferentes capítulos da história do mundo. Começa por sua origem, passando pelo surgimento da vida até chegar aos dias atuais, em que o planeta sofre os efeitos predatórios da ação humana. É como se Casé escrevesse a biografia da Terra diante do público.

Essa narrativa começou a ganhar forma por influência de Ciavatta, com quem é casada há mais de duas décadas. No ano passado, o cineasta se reuniu com cientistas para fazer um documentário sobre a desertificação da Amazônia.

Por curiosidade, Casé decidiu participar dos encontros. “Achava que o que eles estavam explicando era lindo, um texto poético em si”, diz a atriz.

Os roteiros que o marido escreveu a partir desses encontros deram origem ao espetáculo, um projeto pautado pela interação entre a artista e a plateia, um aspecto que ela já havia trabalhado durante as cinco temporadas do programa de auditório Esquenta!, na Globo.

Em uma das apresentações, a artista disse não ver problema no uso de celulares durante a peça —inclusive, até pediu que alguns espectadores abrissem o Instagram para ela bisbilhotar seus perfis.

Após um homem falar que não usava a rede social, a atriz aproveitou para fazer uma piada. “Quem é você? O Batman?” Ela teve mais sorte no assento seguinte, ocupado por uma senhora de cabelos grisalhos e roupas discretas. Era Fernanda Montenegro.

“Eu não sei nada disso, não sou desse tempo”, disse a atriz de 96 anos, em tom zombeteiro, antes de mostrar uma publicação jornalística que apareceu em seu celular.

“As pessoas estão ali não como espectadoras, múmias paradas só olhando. Não é um estado contemplativo, e sim de satisfação. Essa é a minha maior alegria.”

Esse diálogo com o público ajuda a atriz na hora de explicar conceitos espinhosos, como a importância das cianobactérias para a vida na Terra. Embora o tema lembre as aulas de biologia, ela foge do tom professoral.

“Eu não sou aquele cara que pertence à academia e já leu todos os livros a respeito do tópico. Sou tão ignorante quanto a plateia sobre o assunto e quero dividir com ela a mesma alegria que eu tenho de aprender.”

Diretora do espetáculo, Daniela Thomas diz que o texto é um elemento que ajuda a aproximar a produção do espectador. “Ele já nasce com um jeito mais gostoso, acessível e interessante para os leigos.”

Outro componente importante é o fato de o material não ser dogmático ou impositivo. “Ele não propõe nada monástico, mas sugere que você abra os olhos e se dê conta da conexão com tudo e todos.”

A produção, porém, não fala apenas sobre encontros, mas também sobre desencontros. Ao longo do espetáculo, a atriz traz histórias que jogam luz sobre o nosso distanciamento em relação à natureza. Isso acontece quando ela exibe no telão um anúncio que encontrou pelo Rio de Janeiro.

“S.O.S. Árvore”, diz parte da propaganda, que parece até o mote de uma campanha contra o desmatamento. Essa impressão logo se desfaz quando Casé mostra o restante do anúncio. “S.O.S. Árvore, podas e remoções”.

Outro momento que revela a desconexão com o meio ambiente se dá quando ela pede para a plateia dizer o nome de algumas árvores. A tarefa, no entanto, se mostra inglória em razão do desconhecimento quase geral sobre o tema.

“Como ninguém repara que qualquer criança de quatro anos sabe o que é uma girafa, um tigre e um ornitorrinco, mas não conhece nem dez árvores brasileiras? Isso é uma coisa que sempre me chocou.” Para ela, a raiz do problema está na crença de que a humanidade não faz parte da natureza. “Tem uma soberba do ser humano em relação ao entorno, achando que não precisa de nada daquilo.”

Nos últimos anos, escritores indígenas têm usado a literatura para questionar essa visão. É o caso de Ailton Krenak, imortal da Academia Brasileira de Letras e autor de obras como “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”. Durante a peça, Casé menciona o intelectual e fala também sobre tradições ancestrais.

“Na hora em que eu falo sobre o Krenak e sobre esses saberes, estou não apenas mostrando outros pontos de vista, mas também dizendo que não dá para viver sem eles”, diz a artista. “Quem entende de floresta e manutenção do clima são os detentores desses saberes.”

Além do trabalho no teatro, Casé tem se dedicado ao cinema. No final do ano passado, terminaram as filmagens do longa “Um Rio de Janeiro” —projeto que ainda não tem data de lançamento. Sob a direção de Angelo Defanti, Casé vive a mãe de um homem que procura a polícia por se considerar destinado a cometer um crime.

A personagem é uma mulher pobre e batalhadora, características comuns a outros papéis dela na última década. É o caso das empregadas domésticas Val, de “Que Horas Ela Volta?” —que deu a ela o prêmio de melhor atriz no Festival Sundance, em 2015—, e Madá, de “Três Verões”, de 2019, e ainda de dona Lurdes, da novela “Amor de Mãe”, de 2019, popular a ponto de se desdobrar num filme há dois anos.

A artista diz ter orgulho dessas personagens, mas gostaria de ter a chance de encarnar outros tipos. “Eu adoraria fazer uma intelectual e uma artista plástica.” E o que a impede disso? “Me convidarem. Eu posso produzir teatro, mas é muito difícil produzir uma série, uma novela ou um filme.”

No começo da carreira, Casé viveu personagens variados, como a fogosa Arlete, de “Os Sete Gatinhos”. A adaptação de 1980 da peça de Nelson Rodrigues, dirigida por Neville d’Almeida —o mesmo de “A Dama do Lotação”, com Sonia Braga—, ficou conhecida pela alta voltagem erótica, como outros longas brasileiros do período.

“A gente tinha uma relação com o corpo e com o fato de estar pelado muito tranquila. Ainda assim, em alguns momentos, eu me senti usada”, diz Casé, acrescentando que esse não foi o caso de “Os Sete Gatinhos”.

Sem citar nomes ou filmes, Casé diz que se incomodava quando diretores inventavam cenas de nudez não previstas. “Não eram pornochanchadas. Você tinha lido o roteiro, não tinha aquilo, mas eles tentavam te enrolar. Era difícil.”

Por outro lado, hoje ela acredita que o mundo artístico como um todo anda mais conservador. “Acho que o teatro, a televisão e o cinema já fizeram coisas muito mais loucas.”



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