Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Rio de Janeiro afirmou que o desfile “cometeu prática de preconceito religioso dirigido aos cristãos”
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A escola de samba Acadêmicos de Niterói, que abriu os desfiles do Grupo Especial do carnaval do Rio de Janeiro com um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mirou grupos religiosos evangélicos, representantes do agronegócio e a oposição ao governo. No documento entregue à entidade responsável pela organização da festa, a agremiação definiu a ala como “neoconservadores em conserva”.
A ala integrou o 5º setor do desfile, intitulado “Assim que se firma a soberania”, e representa um grupo que, segundo o texto, atua fortemente em oposição a Lula. A apresentação ocorreu na madrugada de segunda-feira, 16.
“O humor segue em voga para caracterizar os chamados ‘neoconservadores’. Um grupo que atua fortemente em oposição a Lula, votando contra a maioria das pautas defendidas por ele, como privatizações e o fim da escala de trabalho 6×1. O movimento em ascensão no Brasil passou a se associar, dentro do campo político, aos seguidores da extrema direita”, diz o roteiro apresentado pela escola à Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa).
A Acadêmicos de Niterói também detalha a concepção da fantasia. Segundo o documento, os “neoconservadores” defendem a “dita família tradicional”, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos.
“A fantasia traz uma lata de conserva, com uma defesa da dita família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos. Na cabeça dos componentes, há uma variação de elementos para enumerar os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo. São eles: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos. No Congresso Nacional, formam um bloco conservador que defende pautas como flexibilização do porte de armas, exaltação às Forças Armadas, interesses do agronegócio e dos valores tradicionais da família”, continua o texto.
O enredo da escola, intitulado “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o operário do Brasil”, apresentou a trajetória política do presidente e encerrou o desfile com uma “ode à soberania nacional”, contrapondo o que classifica como avanço da extrema direita, representado, entre outros elementos, pelas latas em conserva.
Repercussão
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Rio de Janeiro (OAB-RJ) afirmou, em nota divulgada nesta terça-feira, 17, que o desfile “cometeu prática de preconceito religioso dirigido aos cristãos”. A entidade citou especificamente a ala das latas em conserva.
Parlamentares da oposição também afirmaram que a representação teve caráter depreciativo.
Antes mesmo de o desfile ocorrer, o enredo já havia sido alvo de críticas da oposição, que protocolou ações na Justiça para tentar barrar a apresentação da escola por suposta propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder.
A oposição questiona o aporte financeiro de R$ 1 milhão realizado pela Embratur, com interveniência do Ministério da Cultura, à escola. Um termo de colaboração firmado entre a empresa pública de fomento ao turismo e a Liesa prevê investimento total de R$ 12 milhões (R$ 1 milhão para cada escola do Grupo Especial), destinado oficialmente à promoção internacional do carnaval do Rio como produto turístico.
O Partido Novo, por exemplo, informou que pretende apresentar nova ação. Após o desfile, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, também afirmou que vai protocolar uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra supostos crimes eleitorais cometidos pelo PT.
O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Edinho Silva, reagiu às críticas e classificou como “ridícula” a tentativa de transformar a homenagem ao presidente Lula em desgaste político.
Especialistas divergem sobre a eventual configuração de crime eleitoral. O advogado eleitoral Walber Agra, autor da ação que tornou o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível, avalia que a homenagem não teve gravidade suficiente para responsabilização no TSE.
Já a advogada eleitoral Marina Morais discorda. Para ela, a ação é cabível, pois uma investigação poderia esclarecer como o evento foi financiado, concebido e qual seu eventual impacto no eleitorado.



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