A primeira defesa começa no útero: a corrida vacinal contra o VSR, principal causa de bronquiolite em bebês

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A primeira defesa começa no útero: a corrida vacinal contra o VSR, principal causa de bronquiolite em bebês


Há uma proteção que começa antes do primeiro choro. Ainda no ventre materno, enquanto a gestação avança e o bebê se prepara para chegar ao mundo, o organismo da mãe pode começar a produzir os anticorpos que serão transferidos pela placenta e ajudarão a protegê-lo nos primeiros meses de vida.

É nessa fronteira entre a gestação e o nascimento que a vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR) abre uma nova possibilidade de prevenção contra uma das principais ameaças respiratórias da primeira infância.

Nesta reportagem especial, o JC acompanha o avanço dessa estratégia de imunização, conversa com especialistas, gestantes e mães sobre os riscos do VSR e os mecanismos de proteção oferecidos pela vacina. 

Todos os anos, quando os vírus respiratórios ganham força, hospitais e unidades de terapia intensiva (UTI) pediátricas voltam a receber uma cena que nenhuma família gostaria de viver: bebês, ainda nos primeiros meses de vida, com dificuldade para respirar, lutando contra a inflamação e o excesso de secreção que estreitam pequenas vias aéreas. Para uma parcela dessas crianças, o que pode parecer um aparente resfriado pode evoluir rapidamente para um quadro grave.

Mas uma mudança importante na estratégia de enfrentamento desse problema faz com que a proteção possa começar antes mesmo do nascimento. A vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR) durante a gestação permite que a mãe produza anticorpos e os transfira ao bebê pela placenta, ao criar uma espécie de escudo imunológico para os primeiros meses de vida, justamente quando a criança é mais vulnerável às formas graves da infecção.

O VSR é o principal agente causador da bronquiolite viral aguda, uma infecção que provoca inflamação e acúmulo de muco nos bronquíolos. O vírus é responsável por cerca de 80% dos casos de bronquiolite e por até 60% dos quadros de pneumonia em crianças com menos de dois anos de idade.

É também um dos principais responsáveis por hospitalizações e mortes decorrentes de infecções respiratórias entre crianças pequenas. Estima-se que cerca de 90% das crianças sejam infectadas pelo VSR até os dois primeiros anos de vida. Como a imunidade adquirida não é duradoura, novas infecções podem ocorrer ao longo da vida.

Em escala global, o impacto é expressivo. Dados recentes apontam para aproximadamente 3,6 milhões de hospitalizações e quase 100 mil mortes por ano entre crianças menores de cinco anos, especialmente em países de baixa e média renda.

E há um período particularmente delicado: os primeiros seis meses de vida. Mesmo bebês previamente saudáveis, podem desenvolver formas graves da infecção.

A proteção começa na barriga

É justamente nessa janela de maior vulnerabilidade que a vacinação materna assume um papel estratégico.

Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a vacinação contra o VSR durante a gestação tem como objetivo proteger a mãe e favorecer a transferência de anticorpos para o bebê.

A ginecologista Giuliane Lajos, membro da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo, chama atenção para a gravidade que a infecção pode alcançar nos primeiros meses.

“A bronquiolite é uma das principais complicações, especialmente nos três primeiros meses de vida. Ela pode levar a internações e até óbito. A doença pode trazer consequências como o desenvolvimento da asma ou alguma outra condição pulmonar”, explica. 

A lógica da imunização é diferente daquela em que a própria criança recebe uma vacina. Na gestação, quem é imunizada é a mãe. O organismo materno produz anticorpos específicos, que atravessam a placenta e chegam ao bebê ainda durante a vida intrauterina.



Na gestação, quem é imunizada contra o VSR é a mãe. O organismo materno produz anticorpos específicos, que atravessam a placenta e chegam ao bebê ainda durante a vida intrauterina – JAILTON JR./JC IMAGEM

“Ao nascer, há uma proteção de mais de 60% da infecção e de mais de 80% na gravidade e hospitalização. Ou seja, já tem um efeito com a imunização materna. Mas é preciso ter atenção com os bebês prematuros, que não conseguem a vacinação materna em tempo”, explica Giuliane.

A estratégia, portanto, antecipa a proteção. O bebê chega ao mundo já tendo recebido, por meio da mãe, uma resposta imunológica contra o vírus.

Por que os primeiros meses exigem tanta atenção?

A bronquiolite costuma começar de maneira semelhante a um resfriado. Coriza, tosse, febre baixa ou mesmo ausência de febre, irritabilidade e falta de apetite podem estar entre os primeiros sinais. O problema é que, nos bebês pequenos, a infecção pode avançar para as vias respiratórias inferiores e provocar dificuldade para respirar.

O pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) em Pernambuco, explica que o VSR está entre os principais responsáveis pelas internações pediátricas provocadas por infecções respiratórias.

“O VSR é o principal agente causador da bronquiolite em bebês. É responsável por grande parte das internações pediátricas por infecções respiratórias”, alerta. A transmissão ocorre de maneira relativamente simples. O vírus pode passar por tosse e espirro, pelo contato com secreções nasais e também por superfícies contaminadas.

“A transmissão ocorre através de tosse e espirro ou pelo contato com secreções nasais e superfícies contaminadas. Importante destacar que o VSR pode sobreviver por horas em superfícies não porosas”, complementa Eduardo Jorge.

Por isso, a atenção dos pais precisa aumentar quando o quadro deixa de parecer um resfriado comum. “É preciso atenção para a fase de desconforto respiratório, o que pode se manifestar com chiado no peito, dificuldade para respirar (respiração rápida, curta e superficial), esforço respiratório visível (movimentação excessiva da barriga), recusa de alimentos e das mamadas”, detalha o pediatra.

Há ainda sinais que exigem procura imediata por atendimento médico de emergência: lábios ou extremidades arroxeados ou acinzentados, pausas na respiração, sonolência profunda ou letargia e esforço respiratório extremo.


PHILLIPE JONATHAN/SES-PE

Indicada para gestantes a partir da 28ª semana de gravidez, em dose única e sem restrição de idade materna, a vacina contra o VSR estimula o organismo da mulher a produzir anticorpos – PHILLIPE JONATHAN/SES-PE

Uma vacina que transforma a mãe em escudo para o bebê

A transferência de anticorpos maternos para o bebê como ferramenta de proteção já é utilizada na prevenção de outras doenças. “A gente já usa essa estratégia para a prevenção da gripe, da coqueluche, do tétano e da covid-19, e agora também para o vírus sincicial respiratório”, diz o pediatra infectologista Renato Kfouri, secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). 

“O que se espera, como outros países já vêm demonstrando, é que, com altas coberturas vacinais entre as gestantes, seja possível alcançar uma redução expressiva dos desfechos relacionados às infecções causadas pelo VSR, como bronquiolite, visitas a serviços de emergência, hospitalização, ingresso em terapia intensiva e até mortes”, acrescenta. 

A vacina contra o VSR utilizada nessa estratégia é um imunizante recombinante bivalente, dirigido aos subtipos A e B do vírus.

Indicada para gestantes a partir da 28ª semana de gravidez, em dose única e sem restrição de idade materna, a vacina estimula o organismo da mulher a produzir anticorpos contra a proteína de fusão do vírus, a chamada pré-F.

Esses anticorpos atravessam a placenta e chegam ao feto. Quando o bebê nasce, parte dessa proteção já está presente em seu organismo, oferecendo defesa justamente durante os primeiros meses, quando a possibilidade de evolução para quadros graves é maior.

A estratégia tem uma particularidade importante: não é necessário esperar o bebê nascer para começar a protegê-lo. A proteção é construída durante a gestação e transferida da mãe para o filho.

Em âmbito nacional, a estimativa do Ministério da Saúde é de que a estratégia possa prevenir cerca de 28 mil hospitalizações por ano e beneficiar aproximadamente dois milhões de recém-nascidos.


DIVULGAÇÃO

“Esperamos que, com altas coberturas vacinais entre as gestantes, seja possível alcançar uma redução expressiva dos desfechos relacionados às infecções causadas pelo VSR, como bronquiolite”, destaca o pediatra infectologista Renato Kfouri – DIVULGAÇÃO

“Quero vacinar para proteger meu neném”

Atualmente com 19 semanas de gestação, a dentista Thamiris Vieira, 30 anos, ainda espera algumas semanas para chegar ao momento indicado para receber a vacina contra o VSR. Ela já conhecia o vírus e havia buscado informações sobre a importância da imunização durante a gravidez, mas foi no pré-natal que descobriu quando deveria tomar a vacina.

Agora, aguarda o momento de se vacinar com uma expectativa que resume o principal objetivo da estratégia: proteger o bebê antes mesmo do nascimento. Para Thamiris, a vacinação durante a gestação vai além da proteção individual. Ela também representa uma responsabilidade coletiva.

“Eu acho muito importante essa vacinação, não só para mim, não só para o meu bebê, mas para o coletivo em geral. Se toda mamãe tiver esse pensamento de vacinação, de coletividade, certamente os índices de adoecimento dos bebês por esse vírus vão cair.”

Ela também destaca a importância de manter o acompanhamento pré-natal e o calendário de vacinação atualizado durante a gravidez. “É muito importante para mim, pela minha saúde, pelo coletivo e para o meu neném, para dar um pouco mais de imunidade para ele nesses primeiros meses, principalmente, que já nasce com uma saúde mais delicada.”

A existência de uma estratégia de proteção antes do nascimento, diz ela, traz mais segurança para enfrentar os primeiros meses de vida do bebê. “Eu acho que é uma coisinha a mais que a gente pode fazer pela saúde do nosso neném. Além da vacina, a gente tem como proteger, principalmente nos primeiros meses, evitando lugares fechados e ambientes com pessoas que podem estar com algum tipo de vírus. Então, eu acho que é um combo a mais para a saúde”, frisa Thamiris. 


JAILTON JR./JC IMAGEM

Atualmente com 19 semanas de gestação, a dentista Thamiris Vieira, 30 anos, ainda espera algumas semanas para chegar ao momento indicado para receber a vacina contra o VSR – JAILTON JR./JC IMAGEM

Quando a mãe não consegue se vacinar

A vacinação durante a gestação é uma das estratégias de proteção contra o VSR, mas não é a única. Há situações em que a mãe não consegue receber o imunizante no período adequado, inclusive quando o parto ocorre antes que haja tempo suficiente para a formação e transferência dos anticorpos – e casos envolvendo bebês de grupos de maior risco.

Nessas circunstâncias, o SUS disponibiliza estratégias de imunização passiva por meio de anticorpos monoclonais injetáveis. “Para bebês de altíssimo risco, como prematuros e crianças com doenças cardíacas ou pulmonares crônicas, pode ser indicada a aplicação de um anticorpo monoclonal injetável para oferecer proteção imediata contra o vírus”, pontua Eduardo Jorge.


PHILLIPE JONATHAN/SES-PE

Em fevereiro, Pernambuco introduziu o anticorpo monoclonal nirsevimabe, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), e bebês começaram a ser contemplados – PHILLIPE JONATHAN/SES-PE

Entre essas estratégias está o palivizumabe, de aplicações mensais. O SUS também incorporou o nirsevimabe, anticorpo monoclonal de dose única e proteção prolongada destinado a recém-nascidos prematuros e crianças com comorbidades graves.

Em fevereiro deste ano, Pernambuco começou a contemplar bebês com introdução do nirsevimabe, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). O imunobiológico – indicado para bebês prematuros (menores de 36 semanas gestacional e 6 dias) e aqueles menores de 2 anos (1 ano, 11 meses e 29 dias), que apresentam comorbidades elegíveis -, foi disponibilizado pelo Programa Estadual de Imunizações (PEI-PE) para maternidades, serviços de saúde especializados e estabelecimentos de saúde localizados nos municípios.

A chegada de novas opções amplia o arsenal disponível para enfrentar um vírus que continua sendo uma ameaça importante durante os primeiros meses de vida. 


DIVULGAÇÃO

“Para bebês de altíssimo risco, como prematuros e crianças com doenças cardíacas ou pulmonares crônicas, pode ser indicada a aplicação de um anticorpo monoclonal injetável para oferecer proteção imediata contra o vírus”, diz o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima – DIVULGAÇÃO

É preciso fazer a proteção chegar às gestantes

Em Pernambuco, a população estimada de gestantes aptas a receber o imunizante é de 114.058 mulheres. A vacina contra o VSR foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) em dezembro de 2025.

De acordo com o registro oficial da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) até 1º de julho de 2026, Pernambuco apresentava 75% de cobertura vacinal contra o VSR entre gestantes (a partir da 28ª semana em cada gestação).

Os números mostram que ainda existe espaço para ampliar a proteção durante o pré-natal e reforçam a importância de conferir a situação vacinal da gestante ao longo do acompanhamento.

A superintendente de Imunizações da Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE), Magda Costa, enfatiza que a vacina contra o VSR é segura, eficaz e essencial para evitar o agravamento da pressão sobre os leitos infantis.

“A SES-PE segue trabalhando em parceria com os municípios para ampliar esse alcance e garantir proteção aos recém-nascidos antes mesmo do nascimento. A vacina contra o VSR é fundamental para a redução de casos graves da doença. As gestantes, a partir da 28ª semana, devem procurar a unidade de saúde de referência do seu município para obter informações e garantir a imunização no período indicado”, destaca Magda.


SES-PE/DIVULGAÇÃO

A superintendente de Imunizações da SES-PE, Magda Costa, enfatiza que a vacina contra o VSR é segura, eficaz e essencial para evitar o agravamento da pressão sobre os leitos infantis – SES-PE/DIVULGAÇÃO

A prevenção começa antes do colo

A vacina representa uma importante camada de proteção, mas não elimina a necessidade dos cuidados cotidianos. O pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima recomenda lavar as mãos com frequência, especialmente antes de tocar no bebê, evitar o contato da criança com pessoas doentes ou com sintomas respiratórios, cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar, manter os ambientes ventilados e evitar aglomerações.

“Algumas atitudes são fundamentais. Entre elas, lavar as mãos frequentemente (principalmente antes de tocar no bebê), evitar contato do bebê com pessoas doentes ou com sintomas respiratórios, cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar, manter ambientes ventilados e evitar aglomerações”, orienta. 


JACK DE ARAÚJO/DIVULGAÇÃO

“Quando completei 32 semanas de gravidez, a vacina estava em falta. Só me vacinei com 37 semanas e 1 dia, mas André nasceu quatro semanas depois. Então, deu tempo de garantir imunidade”, conta Amanda Pereira Duncan – JACK DE ARAÚJO/DIVULGAÇÃO

Pernambuco diante da temporada de vírus respiratórios

A preocupação não é apenas uma projeção para o futuro. Em Pernambuco, os dados de vigilância epidemiológica mostram o peso das infecções respiratórias graves entre os mais novos.

Até 31 de janeiro, o monitoramento estadual já contabilizava 124 notificações de síndrome respiratória aguda grave (SRAG). Desse total, 80 casos ocorreram em bebês e crianças de até dois anos, o equivalente a 65% das internações graves por infecção respiratória registradas no período.

O ápice dessa temporada de risco ocorre tradicionalmente entre abril e maio. É nesse contexto que a vacinação das gestantes ganha relevância não apenas como estratégia individual de proteção, mas também como uma ferramenta de prevenção de casos graves e de redução da pressão sobre a rede de assistência pediátrica.

Quem acompanha essa realidade de perto é a médica pediatra Amanda Pereira Duncan, que atua na UTI neonatal do Hospital Barão de Lucena (HBL), no Recife. Ela viveu essa discussão sob duas perspectivas: a de profissional que acompanha bebês internados e a de mãe que aguardou a oportunidade de receber a vacina contra o VSR pelo SUS.

“Senti muita felicidade pelo avanço e pela chegada dessa vacina no SUS, o que levará a repercussões positivas referente à queda do adoecimento. A época do ano da sazonalidade para as infecções de doenças respiratórias é o que mais assusta profissionais de saúde que cuidam de crianças e as famílias que têm crianças”, destaca Amanda. Ela reforça que o VSR, que causa bronquiolite, pode provocar o adoecimento grave e deixar crianças, principalmente aquelas abaixo dos dois anos, com necessidade de hospitalização prolongada e assistência em UTI.

“Meu filho (André) está hoje com 7 semanas de vida. Quando completei 32 semanas de gravidez, a vacina estava em falta. Só me vacinei com 37 semanas e 1 dia, mas ele nasceu quatro semanas depois, com 41 semanas e 1 dia de gestação. Então, deu tempo de garantir imunidade”, relata Amanda, que está em licença-maternidade. 

Para quem trabalha dentro de uma UTI neonatal como Amanda, a bronquiolite deixa de ser apenas uma estatística. Ela ganha rosto, respiração acelerada, necessidade de suporte e, para as famílias, o medo de ver um bebê tão pequeno precisar de cuidados intensivos.

Assim, a imunização materna representa uma possibilidade concreta de antecipar a proteção e reduzir o adoecimento durante o período de maior circulação do vírus.


JC

Vacinação contra o VSR – JC





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