“Nós somos o herpes da indústria do cinema“, diz Lloyd Kaufman, dono da produtora de filmes Troma. “Há 50 anos que Hollywood tenta nos destruir, mas sempre voltamos para incomodar!” Kaufman tem 80 anos de idade e, desde 1974, comanda, com o parceiro Michael Herz, 77, a Troma, um estúdio independente americano especializado em filmes orgulhosamente apelativos que abusam de nudez, violência, sangue, gosma e bom humor.
Na terça-feira, 1º de setembro, na abertura do 17º CineFantasy –Festival Internacional de Cinema Fantástico, no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo– será exibido o documentário “Occupy Cannes“, dirigido por uma das filhas de Kaufman, Lily-Hayes, que registra o esforço do pai e de uma equipe do estúdio para divulgar os filmes da Troma durante o Festival de Cannes em 2013.
“Foi a última vez que pisei em Cannes”, conta Kaufman. “Fomos tão maltratados pelos seguranças do festival e impedidos de divulgar nossos filmes, que me recusei a voltar. E olha que eu ia a Cannes religiosamente desde 1974, por isso fiquei tão decepcionado. Mas a verdade é que a indústria do cinema mudou muito e hoje está dominada por conglomerados e megacorporações que odeiam os produtores independentes.”
“Occupy Cannes” mostra Kaufman e a esposa, Pat, comandando uma equipe de abnegados –incluindo voluntários fãs da Troma vindos do Japão, Islândia e Espanha– que tenta atrair atenção para o lançamento de “Return to Nuke ‘Em High”, uma das quatro sequências de “Class of Nuke ‘Em High”, de 1986, clássico trash que conta a história de uma escola atingida por detritos de uma usina nuclear.
Sem grana para pagar por luxuosos outdoors de megaproduções hollywoodianas –cada um ao custo de meio milhão de dólares, segundo o documentário– a trupe da Troma vaga pelas ruas de Cannes vestida de personagens de filmes do estúdio, como o “Vingador Tóxico”, uma criatura deformada que caiu numa tina de lixo radioativo, ou Sargento Kabukiman, um policial de Nova York que adquire poderes mágicos de se transformar num super-herói com visual do teatro japonês kabuki.
“O filme é muito realista e conta exatamente as batalhas que cineastas independentes precisam enfrentar todos os dias para sobreviver no mercado de cinema hoje”, diz Kaufman. “Desde o primeiro minuto em que pisamos em Cannes, fomos tratados como lixo.” Kaufman conta que, por quatro décadas, usou em Cannes o mesmo paletó estampado que herdou do pai. “Naquele ano, sem nenhuma explicação, me barraram numa festa dos irmãos Coen porque eu estaria sem ‘traje apropriado’. Também nos proibiram de usar máscaras do Vingador Tóxico e do Sargento Kabukiman nas ruas de Cannes, enquanto a Disney tinha carta branca para ter um monte de Patetas e Mickey Mouses correndo por lá. Por quê?”
Desde a fundação da Troma, em 1974, Kaufman se coloca como um antagonista dos grandes estúdios. Ele se formou em estudos chineses na prestigiosa Universidade de Yale, em 1968, numa turma que tinha ainda o futuro cineasta Oliver Stone e o futuro presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Foi em Yale que Kaufman conheceu Michael Herz e juntos tiveram a ideia de fundar um estúdio independente de cinema nos moldes das empresas de seus ídolos, Roger Corman e Sam Arkoff, dois rebeldes que sempre produziram os próprios filmes à revelia dos grandes estúdios. Nesses mais de 50 anos, a Troma produziu ou esteve envolvida no lançamento de cerca de mil filmes.
Muitos atores e diretores que hoje são famosos começaram suas carreiras em filmes baratos da Troma. A lista incluiu Samuel L. Jackson (“Def By Temptation”, 1990), Kevin Costner (“Sizzle Beach, USA”, 1978), Vincent D’Onofrio (“The First Turn-On!”, 1983) e Billy Bob Thornton (“Chopper Chicks in Zombietown”, 1989). Diretores como James Gunn (“Guardiões da Galáxia”, “Superman”) e J.J. Abrams (“Star Trek”, “Super 8” e “Star Wars: O Despertar da Força”) também aprenderam o ofício trabalhando para Kaufman e Herz. E a dupla Trey Parker e Matt Stone, quatro anos antes de lançar “South Park”, fez a comédia musical “Cannibal! The Musical”, que foi comprada e lançada pela Troma e virou um sucesso após a estreia da animação “South Park”.
“A verdade é que muita gente deve muito à Troma”, diz a cineasta Lily-Hayes Kaufman. “Meu pai reclama muito e se diz injustiçado, mas, quando nós olhamos para o que a Troma produziu em sua história e para as várias gerações de fãs da produtora, é impossível não perceber como a Troma é importante.”
Além de “Occupy Cannes”, o festival CineFantasy exibirá, até 6 de setembro, 70 filmes de 24 países. As sessões ocorrem no MIS, Spcine Olido, Centro de Formação Cidade Tiradentes e CEUs, com entrada gratuita. Parte da programação também estará disponível online para todo o Brasil pelas plataformas Darkflix+ e Spcine Play.










