Se pudesse fazer apenas uma pergunta a Caetano Veloso, Mateus Baldi não escolheria a prisão pela ditadura, o exílio em Londres nem os bastidores de “Transa”, álbum frequentemente apontado como um dos pontos mais altos da longa carreira do compositor baiano.
Baldi perguntaria sobre um único verso, escondido na canção “Neolithic Man”, a penúltima e subestimada faixa daquele disco de 1972 que se tornou um clássico. “God spoke to me/ You are my son/ And my eyes swept the horizon away.”
“A única pergunta que eu faria para o Caetano é ‘de onde veio isso?'”, diz a escritora e pesquisadora, que participa da programação oficial da Flip no próximo domingo (26), na mesa “Nunca Crer no que não Canta”, ao lado do poeta Leonardo Gandolfi, com mediação de Fernando Luna. “Essa música me intriga desde o início.”
A resposta talvez nunca venha. Mas foi justamente esse tipo de curiosidade sem resolução que acabou produzindo “Transa – O Brasil Dentro de Si”, ensaio em que Baldi propõe uma leitura incomum daquele que talvez seja o disco brasileiro mais comentado das últimas décadas.
Mais do que um álbum sobre a dor do exílio, argumenta Baldi, “Transa” desenha um mapa afetivo e musical do país.
“Eu acho que ‘Transa’ é uma operação cartográfica”, afirma. “Ele está desenhando um mapa de um Brasil possível em contraponto à ditadura, ao horror do exílio, ao fato de ele e Gil terem sido escorraçados do país. É quase como se ele refundasse o Brasil durante o exílio.”
A hipótese da autora organiza o livro inteiro. Em vez de reconstruir cronologicamente a gravação do disco, Baldi recua aos acontecimentos da vida e da produção musical que levaram Caetano até “Transa”, e então percorre o disco, faixa a faixa, destrinchando as fontes em que bebe cada uma delas.
Elas vão do poeta barroco Gregório de Matos, o famigerado Boca do Inferno, até a bossa nova de João Gilberto, a capoeira, o candomblé, o samba e o rock, em inglês e em português, numa espécie de mapeamento afetivo do país.
O exílio continua sendo o ponto de partida de “Transa”, como é do disco anterior de estúdio, já gravado em Londres. Mas, na leitura da autora, ao contrário de canções como “A Little More Blue” e “London London” daquele disco, em “Transa” esse afastamento forçado do Brasil deixa de ser melancolia para se tornar desbunde e experimentação.
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“É um disco solar. Tem uma força muito grande. Diante de um exílio tão sofrido, ele consegue criar uma potência. Acho isso impressionante”, afirma Baldi, para quem “‘Transa’ sempre esteve presente na obra de Caetano, atuando como um disparador de diversas manifestações”.
Essa interpretação nasceu menos da tese acadêmica que deu origem à pesquisa da autora sobre “Transa” do que de uma escuta obsessiva do disco.
Durante o mestrado, Baldi mergulhou em hemerotecas, arquivos sonoros, vídeos de bastidores, entrevistas com Jards Macalé, diretor musical do disco, e Tutty Moreno, baterista e arranjador do disco. Passou anos remontando as circunstâncias da gravação. “Eu acho que o bom da pesquisa e o bom do ensaio é você poder pirar nas suas obsessões.”
A principal delas, conta Baldi, continua sendo justamente “Neolithic Man”, uma faixa frequentemente eclipsada por canções como “Nine Out of Ten” ou “Triste Bahia”. “Nunca entendi por que as pessoas quase não falavam dessa música. Tem um verso ali que sempre me pegou muito forte.”
Essa disposição para permanecer na pergunta —em vez de encerrá-la— também ajuda a explicar o tom do livro. Logo nas primeiras páginas, Baldi avisa que não pretende oferecer uma interpretação definitiva de “Transa”.
“Todo mundo tem o seu Caetano. Todo mundo tem o seu ‘Transa’. O livro é uma conversa. Eu só queria trazer mais gente para essa conversa.”
Essa recusa às respostas finais aparece também quando fala da própria pesquisa. Em vez de buscar uma chave única para decifrar o disco, prefere ampliar suas possibilidades de leitura.
Talvez por isso a pergunta que gostaria de dirigir a Caetano permaneça sem resposta, mesmo depois de quatro anos de investigação, como se a força daquele verso estivesse ligada à ausência de uma interpretação definitiva. “Deus falou comigo/ Tu és meu filho/ E meus olhos varreram o horizonte para longe.”












