Não faz sentido cobrar fidelidade literal de uma adaptação. Cinema e literatura obedecem a regras diferentes, e qualquer diretor, grande ou não, tem o direito de cortar episódios, fundir personagens ou inventar cenas.
O problema de “A Odisseia”, de Christopher Nolan, não é esse. O diretor não altera apenas a narrativa de Homero. Altera a moral que a sustenta, substituindo a ética particular da Grécia Antiga por uma sensibilidade do século 21.
Infelizmente, este texto revela acontecimentos importantes do filme, inclusive seu desfecho; esteja avisado.
Na epopeia atribuída a Homero, concebida por volta de 700 a.C., Odisseu é admirado pela inteligência astuta que lhe permite vencer inimigos mais fortes ou escapar de situações impossíveis.
Recorrer ao estratagema, à vingança e à violência não o desqualifica como herói. Pelo contrário, o eleva. Ele pertence a um mundo regido por honra, reputação, lealdade familiar e pela intervenção direta dos deuses.
Nolan mantém boa parte das aventuras, mas seu Odisseu, papel de Matt Damon, precisa sentir culpa, precisa reconhecer os danos que provocou e precisa pagar por isso.
A transformação é clara no flashback da queda de Troia. Na tradição clássica, o cavalo representa o triunfo máximo da astúcia de Odisseu. É a arma que vence onde a força fracassou durante dez anos de cerco.
No filme, porém, ao abrir as portas da cidade para o exército grego, Odisseu assiste a estupros, saques e massacres que passarão a persegui-lo durante toda a viagem de volta ao seu reino na ilha de Ítaca.
O ardil deixa de ser uma façanha intelectual para se tornar o pecado original da narrativa. Mais adiante, o próprio Odisseu conclui que escondeu soldados dentro de um presente e, assim, violou a hospitalidade protegida por Zeus.
O crime, portanto, não estaria apenas no massacre cometido contra a população de Troia, mas no próprio método empregado para entrar na cidade: fazer de uma oferenda uma armadilha.
Para Nolan, esse gesto, essa ruptura moral, destruiu a confiança entre os homens e abriu caminho para as misteriosas invasões dos povos do mar —grupos cuja identidade permanece desconhecida e que alguns historiadores associam ao colapso das civilizações do Mediterrâneo oriental no fim da Idade do Bronze.
É uma construção dramática engenhosa, mas pura invenção de Nolan. Toda essa atualização facilita a identificação do espectador, mas elimina parte da estranheza moral do mundo de Homero. O mesmo ocorre em outros episódios.
No texto antigo, depois de escapar de Polifemo, os companheiros repreendem Odisseu porque ele continua provocando o ciclope e coloca todos em risco. Seu erro é o orgulho, agravado quando brada o próprio nome, permitindo assim que Poseidon passe a persegui-lo.
No filme, a discussão muda de eixo. Odisseu desfere uma flechada desnecessário contra o gigante já derrotado e passa a ser censurado pela tripulação por ter ultrapassado um limite moral.
Atena também muda de natureza. No poema, ela é uma deusa que conversa com Zeus, orienta Telêmaco, protege Odisseu e interfere concretamente nos acontecimentos. O diretor transforma essa deusa numa projeção psicológica, ligada ao trauma da guerra.
Não é só Atena. O filme reduz a presença direta dos deuses e torna sua existência ambígua. Zeus é apenas citado, Poseidon se manifesta como força da natureza e Hermes é esquecido.
Apesar disso, o filme traz uma série de monstros, que fazem a festa do espectador. Com exceção das sereias, que são mostradas apenas de longe. As armaduras são impressionantes e os demais vestuários não deixam a desejar.
Já a tela verticalizada do Imax, com uma proporção parecida com os antigos televisores de tubo, soa mais uma firula de marketing tecnológico do que de fato transforma a experiência.
Quanto ao desfecho, em Homero, Odisseu mata os homens que disputam a mão da rainha Penélope, os deuses impõem a paz e o herói continua rei de Ítaca. No filme, ele entrega o trono ao filho Telêmaco, papel de Tom Holland, e parte com a rainha, Anne Hathaway, num exílio voluntário para honrar os mortos e reparar seus atos.
O curioso é que Nolan preserva o espetáculo da violência ao mesmo tempo em que altera sua interpretação moral. O filme exibe uma sucessão de assassinatos, incêndios e massacres de inocentes, mas exige que o espectador —e também seu protagonista— condene tudo aquilo.
Nada disso significa que Nolan devesse filmar o clássico como uma peça de museu. Toda adaptação é uma leitura. Mas sua “A Odisseia” traz um Homero higienizado para o público de 2026.












