A comemoração mais memorável da eliminação dos Estados Unidos da Copa aconteceu no vestiário da Bélgica. Depois da goleada por 4 a 1, os jogadores imitaram a dança desengonçada de Donald Trump ao som de “Y.M.C.A.”. Nas redes sociais, a seleção belga arrematou: “Overturn this” —reverta esta.
A zombaria tinha endereço certo. Expulso contra a Bósnia por uma pisada no tornozelo de um adversário, Balogun deveria cumprir suspensão automática na partida seguinte. Trump telefonou a Infantino, disse que o lance nem sequer fora falta, chamou o árbitro brasileiro Raphael Claus de suspeito e pediu uma “segunda olhada”. A Fifa manteve o cartão vermelho, mas suspendeu por um ano a execução da pena. Balogun enfrentou a Bélgica.
A intervenção indignou por ser uma intromissão inadmissível. Mas o caso apenas expõe, num campo de jogo, um método aplicado em arenas mais graves, como a política e as relações internacionais.
No método trumpista, a vontade de Trump, a única que importa, vem primeiro; as justificações não apenas vêm depois, como não precisam ser honestas ou convincentes. Afinal, a honestidade e o esforço lógico ficam reservados para quem se respeita ou para quem tem força para reagir —e Trump não respeita nem teme. Ele decide o que quer e, depois, alguém que se vire para arrumar um pretexto e uma lei. Se os fatos desmentem a acusação, procura-se outra. Se a regra impede a medida, encontra-se uma exceção. Não é a justificativa que conduz à decisão; razões são fabricadas retrospectivamente para dar ao decidido algum aspecto de legitimidade.
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Os trumpistas gostam de chamar isso de “negociação dura”. Não é. Negociar supõe reconhecer interesses, direitos e uma capacidade legítima de recusa da outra parte. Trump não busca composição, mas imposição e capitulação. Mobiliza a assimetria de poder, ameaça com custos desproporcionais e torna a resistência insuportável. O mais fraco deve ceder justamente porque é o mais fraco.
A humanidade conhece esse método há milênios. Numa fábula de Fedro, o leão caça com outros animais e, na hora da partilha, toma para si todas as porções. A primeira lhe pertence, justifica, porque ele é o leão; a segunda, porque participou da caça; a terceira, porque é o mais forte. A última razão é apenas uma ameaça: “Ai de quem se atrever a pegar alguma coisa”. As justificações ornamentam o fato essencial de que o leão fica com tudo porque tem força —e pronto.
Em outra fábula, o lobo já decidiu devorar o cordeiro, mas antes se justifica. Acusa-o de turvar a água do riacho em que bebe. O cordeiro mostra que está abaixo na correnteza. O lobo diz que ele o insultou no ano anterior. O cordeiro responde que ainda não havia nascido. Se não foi ele, foi seu irmão, seu pai ou alguém da família. E o devora. Cada refutação apenas obriga o predador a inventar novo pretexto.
La Fontaine resumiu a moral: “A razão do mais forte é sempre a melhor”. A frase denuncia a facilidade com que a força se fantasia de razão. O predador não argumenta para se submeter aos fatos, mas para encenar que a presa merece o destino já decidido.
Leis, direitos, tribunais, acordos e instituições democráticas foram inventados para domesticar essa lógica arcaica. Nem mesmo o governante mais poderoso deveria conseguir tudo o que quer apenas porque é o mais poderoso. As razões devem preceder as decisões, as provas devem sustentar as acusações e as regras devem valer também quando contrariam quem governa. Com Trump, as razões já não limitam o poder, apenas servem para as aparências.
O Brasil conhece bem a lógica do lobo. Para impor tarifas de 50%, Trump transformou o julgamento de Jair Bolsonaro e as decisões do STF numa “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia americanas. Para sancionar Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, converteu decisões judiciais brasileiras em violações de direitos humanos. Depois, a pressão comercial ganhou novos fundamentos: balança comercial, comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento.
O caráter pretextual aparece na ordem dos fatores, na desproporção das medidas e na facilidade com que os motivos são substituídos, acumulados ou abandonados. A punição permanece; a justificativa muda. Como no riacho, cada resposta do cordeiro convoca uma nova acusação. Trata-se da restauração de uma ideia de governo que a democracia julgava ter superado: a de que “porque sou o leão” pode voltar a ser a primeira e a última razão do poder.
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