Na manhã de 11 de setembro de 2001, enquanto os atentados contra as Torres Gêmeas transformavam Nova York no centro das atenções do mundo, uma história paralela começava a se desenrolar a quase 2.000 quilômetros de distância.
Com o fechamento imediato do espaço aéreo dos Estados Unidos, 38 aviões foram desviados para Gander, pequena cidade canadense de pouco mais de 10 mil habitantes. Em poucas horas, cerca de 6.700 passageiros de diferentes nacionalidades desembarcaram inesperadamente na ilha de Newfoundland, praticamente dobrando a população local.
O episódio ficou à margem da cobertura jornalística daqueles dias, mas acabou dando origem, mais de uma década depois, ao musical “Come From Away”, que estreou em 2015 e chegou à Broadway dois anos depois. A obra de Irene Sankoff e David Hein desloca o foco da tragédia para aquilo que aconteceu depois dela.
Em vez de construir uma narrativa sobre o terrorismo, o musical acompanha o esforço coletivo de moradores que improvisaram alojamentos, cozinhas, centros comunitários e redes de apoio para acolher milhares de desconhecidos.
O destaque, então, é mais no discurso de solidariedade do que no atentado terrorista. Assim, o diretor Rafael Gomes e o produtor Vinicius Munhoz buscam um público não tão ávido a consumir todos os musicais da Broadway que ganham montagens nacionais.
“Antes de começar os ensaios, eu pensava que existia um contexto muito específico, mas uma temática maior. Fazendo o espetáculo, a impressão ficou ainda mais forte. O 11 de Setembro funciona como contexto. O que interessa é como uma comunidade reage diante de uma situação extraordinária. Poderia acontecer em qualquer tempo e em qualquer lugar”, diz Rafael Gomes, que dirige pela primeira vez um musical da Broadway.
Com um elenco capitaneado por nomes veteranos do teatro musical brasileiro, como Andrea Marquee, Andrezza Massei, Eduardo Leão, Nábia Vilella, Neusa Romano, Rodrigo Miallaret e Saulo Vasconcelos, o musical não tem um protagonista claro, fazendo com que todo o seu grupo de atores tenha chance de brilhar. Para Vasconcelos, que já viveu alguns dos principais personagens da história do teatro musical, a experiência é a de um jogo de bola bastante fluido.
“É um espetáculo de ensemble. Não existe alguém que se sobressaia. Você recebe um bom passe e precisa entregar um bom passe para o companheiro fazer o gol. O nível de concentração é muito maior do que em outros musicais, porque, se alguém perde o ritmo, o espetáculo inteiro sente”, analisa.
Completam o grupo nomes como Thaís Piza, Bruno Narchi, Luiza Porto, Isaac Belfort, Davi Novaes, Enrico Verta, Rupa, Ana Araújo e Bia Castro, selecionados por Rafael Gomes como uma forma de dar diferentes leituras a personagens que considera muito mais complexos do que à primeira vista parecem. Para Vasconcelos, essa é a característica mais latente.
“Estamos falando sobre as consequências que uma tragédia produz nas pessoas. É sobre gente insegura, estressada, tentando lidar com uma situação inesperada. Isso é universal.”
A escolha do título também ajuda a explicar o momento vivido por Vinicius Munhoz. Depois de dez anos como sócio do Ateliê de Cultura, o produtor decidiu criar a própria empresa para ampliar sua atuação na produção de espetáculos e na gestão de equipamentos culturais. Ele conta que assistiu a “Come From Away” em 2019 e saiu do teatro decidido a montá-lo algum dia.
Fazer com que o musical encontre seu público é apenas uma das missões do produtor, que assumiu desde o início do ano as operações do histórico Teatro Ruth Escobar, na Bela Vista. À frente da VME, produtora responsável por gerir também a programação do Teatro Multiplan, no Shopping Morumbi, região sul, Munhoz vê no musical uma forma de reposicionar o espaço no circuito cultural paulistano.
Isso porque ao longo das últimas duas décadas, o Teatro Ruth Escobar viu suas salas se tornarem palco de produções de pouca ambição artística, recebendo apenas comédias populares. A nova gestão pretende manter na programação o gênero cômico que ajudou a levar novos públicos ao espaço, mas pretende focar no que Munhoz chama de “comédias elegantes”.
“Vindos de Longe” é o primeiro passo, por exemplo, para reposicionar a Sala Dina Sfat como uma das principais da capital, retomando o antigo desejo da atriz, diretora e produtora Ruth Escobar de fazer com que o espaço fosse palco de grandes produções internacionais. Para Munhoz, fazia sentido que a nova fase do teatro começasse justamente com um musical vindo da Broadway.
A reabertura acontece em etapas. A Sala Dina Sfat é a primeira a voltar a receber público, enquanto as demais áreas do complexo ainda passam por obras. Segundo o produtor, a recuperação envolveu desde a substituição de instalações hidráulicas até a eliminação de infiltrações e vazamentos acumulados ao longo de décadas.
Quase 25 anos depois dos atentados que mudaram a política internacional, “Vindos de Longe” chega ao Brasil lembrando um episódio que aconteceu longe das câmeras. Talvez seja justamente essa a principal razão de sua permanência. Em vez de revisitar a tragédia que entrou para a história, o musical prefere observar as pessoas anônimas que decidiram enfrentá-la.














