A marca Mancuda, de direção criativa de Carll Souza, 28 anos, e Nair Beatriz, 26 anos, estreou na passarela do DFB Festival 2026 com a coleção Favela Wear na última terça-feira, 9, na Praia de Iracema, em Fortaleza (CE). O momento histórico no evento de moda foi marcado pela forte presença de pessoas negras e periféricas que vestem as peças da marca e se identificam com a sua estética. A trilha sonora do desfile teve assinatura do artista e DJ cearense Fixter, que disponibilizou o trabalho para quem deseja ouvir.
“A importância de ocupar lugares como o DFB marca também a inserção de outras identidades que estão tentando a todo tempo negociar o seu espaço no mundo, né? Nós, pessoas de periferia, nós estamos cansados de estarmos só dentro da periferia, de termos esse token da periferia! Nós somos sujeitos de identidade, que quer negociar em outros espaços”. É o que declara o estilista e diretor criativo Carll Souza.
Leia a entrevista completa que o estilista cearense e diretor criativo da Mancuda, Carll Souza, cedeu para o Site Negrê!
Negrê – Como e quando surgiu a marca Mancuda? E qual o principal conceito de vocês?
Carll Souza – Ela surgiu na pandemia como uma possibilidade de resistência, se liga? A gente tava vendo um corte contingente de bolsas da universidade, tanto eu quanto a Nair, éramos dois bolsistas da universidade. E aí, no meio do primeiro lockdown, veio o pânico. E eu encontrei na costura, a possibilidade de me sentir um pouco mais ocupado dentro de casa, porque eu ficava muito grilado com tudo o que estava acontecendo no mundo. E a Nair chegou com a proposta: “Ah, porque você não faz uma marca?”. Ela, até então, não queria fazer parte, né? Ela queria ser uma contratada. Queria fazer o serviço de costura. E aí, eu na mesma hora: “Não, eu acho que eu quero trabalhar com você, né? Quero que você divida essa direção criativa comigo!”. E aí, a gente foi nesse processo de querer criar uma marca, pensando o que a gente queria vender, né? A gente tinha esse entendimento racializado de que a moda não olha com muito carinho para os nossos corpos desde sempre, né? Isso tem se transformado de uns anos para cá, muito por conta da luta do movimento negro e por conta da luta do movimento negro de mulheres, sobretudo, né? E a moda, ela tem se transformado nos últimos anos por conta dessa empreitada, sobretudo das mulheres, né? E da população LGBT. E aí, a gente queria criar um projeto de uma marca em que ela pudesse dar conta de representar e de visibilizar esses corpos que, até então, eles não apareciam nas campanhas, né?

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Negrê – Fazer parte da passarela do DFB Festival era um sonho? Como foram os preparativos pra este momento?
Carll Souza – Fazer parte da Passarela do DFB é um sonho sim, viu? E os preparativos tavam acontecendo desde o final do ano passado, que a gente já tava tramitando vários desenhos, várias obras. Na verdade, a gente tem essa coleção desde o início de 2025. E aí a gente foi só construindo e potencializando ela junto com outros artistas que entraram nessa com a gente. A Gleice Braz, que é uma designer que é lá do Vicente Pizón; a Vitória Maria, que é do Avi Atelier, e que, atualmente, ela reside no Canindezinho; o Fernando Wesley, que é do Maracanaú; e o Caio Vieira, que também é daqui do Pirambu e é CEO da Rush Street. São pessoas que, tipo, potencializaram as criações também e nos ajudaram nesse processo, né? São designers que somaram com a gente e quebraram cabeça para essa ela existir, sabe? E os preparativos, eles foram muito nessa linha de tentar também respeitar o nosso próprio tempo com o processo de produção, sabe? A gente não quis quebrar a cabeça e fazer com que esse momento não fosse um momento proveitoso pra gente.

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Negrê – Qual a importância de ocupar lugares como o do DFB Festival para marcas periféricas como a Mancuda?
Carll Souza – Eu acho que a importância de ocupar lugares como o DFB marca também a inserção de outras identidades que estão tentando a todo tempo negociar o seu espaço no mundo, né? Nós, pessoas de periferia, nós estamos cansados de estarmos só dentro da periferia, de termos esse token da periferia! Nós somos sujeitos de identidade, que quer negociar em outros espaços. E aí, ocupar esses espaços necessariamente não significa que a gente quer se transformar em outras pessoas, mas que a gente quer também visibilizar os nossos trabalhos e mostrar a riqueza que existe dentro das periferias do Ceará. Então, para nós, ocupar esse lugar no DFB é também um lugar de marcar um novo início também na moda cearense. Porque essa transformação, ela já tá acontecendo em outros estados brasileiros e já tem acontecido no mundo todo. No mundo todo, eu digo assim, de outras identidades estarem negociando o seu lugar na moda, sabe? Porque a nível internacional não existem favelas como as nossas, né? Mas no Brasil, já existem movimentos de marcas de periferia que são inseridas dentro de passarelas grandes.

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Negrê – Como o convite do DFB Festival chegou pra você?
Carll Souza – O convite, ele chegou diretamente do DFB, chegou diretamente do Cláudio. A gente não vai mentir que já existia uma tramitação porque vários outros designers, vários padrinhos, assim, a gente tem o David Lee, por exemplo, como um padrinho nosso, ele é um amigo, sabe? Uma pessoa que a gente pode contar. O David Lee, ele é uma pessoa negra de uma marca muito foda, que é a marca David Lee, e desde sempre, ele já viu na gente talento, sabe? Ele soube identificar ficar o nosso talento, ele sempre soprou o nosso nome, sabe? E é muito importante também esse rolê das relações. Porque, se a gente não criar relações, a gente não ser respeitado por pessoas que vêem qualidade, potencialidade no nosso trabalho, a gente não sai do canto. E aí, é muito importante também essa questão da rede, né?
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Negrê – Quais são os planos e projetos após o DFB Festival 2026?
Carll Souza – A gente tem feito um trabalho, que é o das nossas campanhas. Todo mundo conhece as campanhas da Mancuda. Eu acho que são o puro suco da Mancuda, que são os nossos fashion filmes, os nossos visuais, que a gente usa muito modelos iniciantes, que, em sua maioria, não são modelos, né, de carreira, que são pessoas que a gente conhece na rua e diz: “Pô, fulano devia ser modelo”. E aí é muito também nesse processo da gente conseguir criar uma movimentação dentro dos nossos bares, dos nossos territórios, que façam com que as pessoas, elas consigam se destacar e serem reconhecidas, né? Serem visibilizadas e também serem representadas, entende?
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Negrê – Como vocês pretendem aproveitar a visibilidade do evento para alcançar o público de vocês?
Carll Souza – A gente tá desenvolvendo a marca, sabe? E aí, a gente tá num processo muito grande de estudo também, de várias técnicas e metodologias novas de trabalho, de formas de fazer design também. E a gente espera que a gente encontre um lugar, né? Para esse futurismo da moda cearense que a gente tanto quer, mas com essas referências sócio-históricas que não podem ser esquecidas, né? Do que os povos indígenas nos deram, que as pessoas negras contribuíram, que os povos sertanejos formaram. Eu acho que os planos pós-DFB é poder cada vez mais mostrar a potencialidade que existe nessa história e que ela está na periferia, mas que as pessoas não conseguem perceber, sabe?
Foto de capa: Ducker Studios.
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Jornalista profissional (nº 4270/CE) preocupada com questões raciais, graduada pela Universidade de Fortaleza (Unifor). É pós-graduanda em Comunicação 5.0: Inteligência Digital e Novos Ambientes Comunicacionais pela Universidade Potiguar (UnP). É Fundadora, Diretora Executiva (CEO) e Editora-chefe do Site Negrê, o primeiro portal de mídia negra nordestina do Brasil. É autora do livro-reportagem “Mutuê: relatos e vivências de racismo em Fortaleza” (2021) e do livro de poesias “Relicário das coisas simples” (2025). Foi Coordenadora de Jornalismo da TV Unifor. Soma experiências internacionais na África do Sul, Angola, Argentina e Estados Unidos.












