O que a obesidade faz com o cérebro – e como uma nova geração de medicamentos muda o tratamento além do peso

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O que a obesidade faz com o cérebro – e como uma nova geração de medicamentos muda o tratamento além do peso


Psiquiatra explica como obesidade afeta o cérebro e por que os novos tratamentos ajudam a reduzir a inflamação e seus impactos sobre a saúde mental

Por

Cinthya Leite


Publicado em 07/06/2026 às 17:23
| Atualizado em 07/06/2026 às 17:25


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PORTO ALEGRE – Durante muito tempo, a obesidade foi tratada quase exclusivamente como uma questão de peso. O número na balança orientava diagnósticos, tratamentos e, muitas vezes, julgamentos. No entanto, uma nova geração de medicamentos está ajudando a revelar algo que especialistas já veem observando há anos: a obesidade também é uma condição que afeta profundamente o funcionamento do cérebro.

A discussão, porém, vai além dos medicamentos. O que está em jogo é uma mudança de compreensão sobre a obesidade: deixar de enxergá-la como uma falha individual para reconhecê-la como uma condição crônica, complexa e profundamente ligada ao funcionamento do organismo. Nesse cenário, as novas terapias se somam a estratégias clínicas, nutricionais e comportamentais na busca por resultados mais duradouros e por uma melhora global da saúde.

Foi essa a reflexão proposta pela psiquiatra Clara Lapa, doutoranda em Neurociências, durante o Brain Congress, que terminou no sábado (6) em Porto Alegre. Ao discutir os efeitos dos análogos do GLP-1 e de medicamentos mais recentes, como a tirzepatida, a especialista chamou atenção para uma mudança importante na forma de compreender a doença.

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Segundo ela, o debate não deveria se limitar à quantidade de peso que uma pessoa perde durante o tratamento. A questão central é entender o que acontece quando um organismo deixa de viver sob um estado permanente de desregulação metabólica e inflamação.

“O sobrepeso e a obesidade fazem muito mal para o sistema nervoso central”, afirmou. A explicação passa pelo papel da insulina no cérebro. Embora seja conhecida principalmente por sua função no metabolismo da glicose, a substância também participa de mecanismos ligados ao humor, à motivação, ao prazer e ao controle de impulsos.

“A insulina dentro do cérebro faz com que a gente responda melhor às monoaminas (substâncias químicas cerebrais essenciais para a regulação do humor, sono, atenção e prazer), como a serotonina, dopamina e adrenalina”, explicou.

Quando esse sistema deixa de funcionar adequadamente, os impactos podem ir além do ganho de peso. Irritabilidade, dificuldade de controle emocional, impulsividade e redução da capacidade de sentir prazer passam a fazer parte do quadro clínico de muitos pacientes.


DIVULGAÇÃO

“A obesidade é uma doença crônica. Ela não tem a ver com força de vontade. O paciente pode ter toda a força de vontade e ter uma condição genética que não o deixa perder o peso necessário para trazer benefícios”, destaca Clara Lapa – DIVULGAÇÃO

A discussão ganha relevância em um momento em que a medicina começa a enxergar de forma mais integrada a relação entre obesidade e saúde mental.

Em entrevista do JC durante o Brain Congress, Clara Lapa destacou que a conexão entre essas condições não é circunstancial. Pacientes com depressão apresentam maior risco de desenvolver obesidade, e pessoas com obesidade também têm maior probabilidade de desenvolver transtornos psiquiátricos. Trata-se de uma relação bidirecional, em que fatores biológicos, comportamentais e emocionais se influenciam mutuamente.

Essa perspectiva ajuda a explicar um dos relatos mais frequentes de pacientes que utilizam os novos medicamentos: a sensação de silêncio. O fenômeno ficou conhecido internacionalmente como food noise, ou “ruído alimentar”. É aquela experiência de pensar constantemente em comida, planejar a próxima refeição, negociar desejos alimentares e gastar uma parcela significativa da energia mental em torno da alimentação.

De acordo com a psiquiatra, muitos pacientes descrevem surpresa ao perceber que esses pensamentos deixam de ocupar espaço central na rotina.

“O paciente consegue ter muito mais controle daquele impulso de comer, porque essas vias estão sendo tratadas e neutralizadas. O paciente não está com comida o tempo todo no pensamento.”

A psiquiatra ainda reforçou a conexão íntima entre a balança e o divã. Ela destacou que um paciente com depressão tem 50% mais chances de desenvolver obesidade, e o inverso também é verdadeiro. Transtornos como bipolaridade e esquizofrenia também estão associados a um índice de massa corporal (IMC) mais elevado, mesmo antes do início de tratamentos medicamentosos (para esses transtornos) que possam causar ganho de peso.”

Para Clara Lapa, essa compreensão ajuda a combater uma das interpretações mais persistentes sobre a obesidade: a de que o sucesso ou o fracasso do tratamento depende exclusivamente de esforço individual.

“A questão da obesidade é uma doença crônica. Ela não tem a ver com força de vontade”, ressaltou. “O paciente pode ter toda a força de vontade e ter uma condição genética que não o deixa perder o peso necessário para trazer benefícios.”

A fala da especialista dialoga com uma transformação mais ampla que vem ocorrendo na medicina. Aos poucos, a obesidade deixa de ser compreendida apenas como um problema estético ou comportamental para ser reconhecida como uma doença complexa, marcada por alterações hormonais, metabólicas, inflamatórias e neurológicas.

Nesse contexto, tratar a obesidade não significa apenas reduzir medidas ou prevenir complicações cardiovasculares. Significa também atuar sobre mecanismos que influenciam diretamente o humor, a motivação, a energia e a qualidade de vida.

Ao normalizar o estado inflamatório e melhorar a relação com a insulina, o cérebro tem a chance de voltar a funcionar de forma plena. Isso explica por que muitos pacientes relatam um aumento súbito na disposição e motivação. “A dopamina dá prazer, disposição e energia. Melhorando esse metabolismo, diminui-se a neuroinflamação, e a pessoa se sente mais disposta”, sublinhou a médica.

Tratar a obesidade, portanto, não significa apenas perder peso. A terapêutica deve ser focada no cuidado de uma condição complexa que afeta múltiplos sistemas do organismo e que exige uma abordagem integrada, individualizada e baseada em evidências.

*A jornalista fez a cobertura do Brain a convite da organização do congresso.






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