Inspirado no caso do cirurgião Farah Jorge Farah, longa discute feminicídio, justiça e impunidade e estreia nos cinemas em setembro
Laís Nascimento
Publicado em 01/06/2026 às 23:30
| Atualizado em 01/06/2026 às 23:38
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Uma história brutal que chocou o Brasil no início dos anos 2000 abriu a programação do Cine PE – Festival do Audiovisual, nesta segunda-feira (1º). Exibido pela primeira vez durante o festival, no Teatro do Parque, área central do Recife, o true crime “Doutor Monstro” é dirigido por Marcos Jorge e estrelado por Taís Araújo.
Em entrevista ao JC, a atriz afirmou que o filme vai além da reconstituição do crime e lança luz sobre problemas estruturais da sociedade brasileira.
“Mostra algumas mazelas do Brasil: a questão da justiça que é morosa, muitas vezes a espetacularização da mídia no que diz respeito a alguns absurdos em que o criminoso vira uma grande estrela e coisas que a gente precisa tomar muito cuidado”, afirmou.
Filmado em 2023 e desenvolvido ao longo de três anos, o longa é inspirado no caso do cirurgião plástico Farah Jorge Farah, que confessou ter assassinado e esquartejado a paciente Maria do Carmo Alves, em 2003.
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O crime teve grande repercussão nacional e se tornou um símbolo de debates sobre violência contra a mulher, feminicídio, impunidade, mídia e as limitações da legislação da época para proteger vítimas de violência.
Com estreia marcada para 10 de setembro nos cinemas, “Doutor Monstro” abriu a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do Cine PE. Na produção, Taís Araújo interpreta Claudia Ferreira, uma promotora de Justiça fictícia encarregada de conduzir a acusação no caso.
Eu acho que o filme deixa essas feridas bem à mostra
Taís Araújo
Segundo Taís, um dos principais atrativos do projeto foi a possibilidade de discutir essas questões por meio de um gênero ainda pouco explorado no cinema nacional.
“A primeira coisa que me interessou foi o gênero, que é um filme de tribunal, coisa que a gente tem pouco aqui no Brasil. Segundo, porque quando aconteceu esse caso, ele não foi tratado como feminicídio, já que feminicídio nem era tratado como feminicídio na época. E, ainda, porque também não era uma promotora, era um promotor”, contou.
Mais do que retratar o assassinato, o longa acompanha os bastidores do julgamento e propõe uma reflexão sobre a atuação do sistema de Justiça diante da violência contra as mulheres.
“Eu acho que o filme deixa essas feridas bem à mostra e achei que era interessante a gente ter um filme de tribunal para entender a justiça brasileira, como funciona, onde falha, como é”, disse a atriz.
Promotora enfrenta dilemas éticos

Para Taís Araújo, filme “mostra algumas mazelas do Brasil” e propõe reflexões – Divulgação
Em “Doutor Monstro”, Claudia Ferreira assume a missão de evitar a absolvição de Farah, que admite ter cometido o assassinato e o esquartejamento da ex-paciente, mas sustenta a tese de legítima defesa.
Ao longo da trama, a promotora precisa lidar não apenas com os desafios jurídicos do caso, mas também com conflitos pessoais que colocam suas convicções à prova.
“Ela tem uma vida fora do tribunal, dúvidas e culpas, e também fica questionando a ética dela”, explicou Taís.
Para a atriz, a defesa da vida das mulheres é um dos aspectos que mais a aproxima da personagem. “Essa personagem é uma mulher muito complexa e de muita humanidade também”, afirmou.
Mudança de perspectiva

Segundo diretor Marcos Jorge, concepção do roteiro passou por mudanças durante o desenvolvimento do projeto – Divulgação
Segundo o diretor Marcos Jorge, a concepção do roteiro passou por uma transformação importante durante o desenvolvimento do projeto.
“A ideia inicial era o protagonismo da defesa. A história era tão absurda que me parecia um personagem interessante, mas alguma coisa não enquadrava na história. A gente percebeu que tinha um cara evidentemente culpado que saiu andando do tribunal e entendeu que o protagonista era a promotoria”, disse.
Cine PE celebra 30 anos
A abertura do Cine PE foi uma celebração aos 30 anos ininterruptos de realização. Durante o evento, foi exibido um documentário inédito que revisita a história do festival e inaugurada uma exposição no hall e corredores do Teatro do Parque. Além disso, homenageou o público, com a entrega de uma condecoração a duas representantes da plateia, que acompanham o festival desde a primeira edição.
O Cine PE chega aos 30 anos avançando no processo de reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco e do Recife.
Com sessões gratuitas, o festival segue até o dia 7 de junho, com filmes de todo o país, debates, homenagens, encontros com realizadores e convidados do audiovisual brasileiro.
Nesta edição, todos os filmes exibidos nas Mostras Competitivas contarão com recursos completos de acessibilidade, incluindo Audiodescrição e Legenda para Surdos e Ensurdecidos (LSE).
A realização do Cine PE 2026 conta com o patrocínio do Itaú, por meio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura. O festival também recebe apoio do Governo de Pernambuco, das Prefeituras do Recife e do Jaboatão dos Guararapes, da Uninassau, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).
Serviço
Cine PE – Festival do Audiovisual 2026
Data: 1º a 7 de junho
Local: Cinema do Teatro do Parque (mostras competitivas)
Mostra Matinê: Cinema São Luiz
Ingressos gratuitos:
Eu acho que o filme deixa essas feridas bem à mostra
Taís Araújo












