João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé debatem obsessões ideológicas

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João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé debatem obsessões ideológicas


Em um debate sobre obsessões ideológicas na democracia, o filósofo Luiz Felipe Pondé e o cientista político português João Pereira Coutinho discutiram o avanço dos discursos identitários e a crise do liberalismo no segundo e último dia do Festival Fronteiras, que levou mais de 50 pensadores para diferentes palcos no centro histórico de Porto Alegre.

Para eles, esquerda e direita atuais compartilham o mesmo impulso regressivo: em vez de avançar sobre as conquistas sociais do liberalismo, buscam disputar qual versão do passado merece ser restaurada.

“Na direita, isto parece mais óbvio. A ideia do passado é ordem e segurança e, como se diz em Portugal, ‘um (António) Salazar em cada esquina’”, disse, relembrando o período de alta vigilância e repressão do Estado Novo português, entre 1932 e 1974.

Por outro lado, ele acredita a esquerda quer voltar a um período semelhante à Idade Média, em que o ser humano era categorizado apenas pelo grupo ao qual pertencia.

“Você era definido pela cultura, pela família, pela religião. E a esquerda quer transplantar isso para o tempo contemporâneo. No fundo, quer a esquerda, quer a direita, querem cancelar o indivíduo”, afirmou Coutinho.

Para Pondé, discursos identitários como lugar de fala e interseccionalidade ganharam força após o colapso da União Soviética, quando a esquerda, sem conseguir enfrentar diretamente o capitalismo, precisou encontrar outros espaços para explorar, se aproximando de pautas ligadas a gênero, sexualidade e opressão racial.

“Você começou a definir a relação entre oprimido e opressor numa outra chave que não é uma relação capital-trabalho”, disse Pondé. “A esquerda quer, na realidade, ter um shopping para chamar de seu. Um shopping em que tenha cotas, que tenha espaços de empoderamento de determinados grupos, e que na verdade não arranha o modo de produção capitalista.”

Segundo ele, os maiores ganhos políticos e sociais do século 17 até hoje se devem à repercussão das guerras religiosas europeias, que cumpriram papel de “parteira da humanidade”.

“O mundo moderno e o liberalismo nasceram de sangue cristão derramado na Europa, uns matando os outros”, afirmou. “Se chegou àquilo pelo cansaço, se matou tanto que já não tinha mais o que fazer.”

Coutinho também apontou o preço alto cobrado pela história para produzir avanços sociais. “No tempo presente, o que eu vejo são reacionários, de esquerda e de direita, que querem impor um dogma. No fundo, querem regressar às guerras sanguinárias que destruíram a Europa.”

Ele atribui grande parte dos avanços sociais da sociedade moderna a pensadores como John Locke (1632 – 1704), cujos questionamentos sobre a possibilidade de paz sob a imposição de doutrinas rígidas levaram à idealização do contrato social liberal moderno.

“O pluralismo, a ideia de que existem vários valores e que você pode escolher entre os vários valores, é uma conquista que está em risco”, afirmou o português.

“Quando as pessoas deixarem de se olhar como parte da mesma experiência, acabou a democracia aqui, porque aí não há nenhum motivo para eu aceitar que eu sou parte de uma nação. O Brasil já teve um aperitivo disso, os Estados Unidos também.”


Os temas da edição do festival, cultura e autenticidade, foram debatidos em diferentes mesas do evento, que reuniu artistas, escritores, psicanalistas e cientistas de diferentes áreas.

Em um bate-papo sobre desafios da longevidade no mundo contemporâneo, o gerontologista Alexandre Kalache também recorreu à experiência política autoritária na Europa, relembrando uma visita a Portugal feita dois meses após a Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura salazarista.

À época, o país figurava entre as menores expectativas de vida da Europa, tinha taxa de fertilidade acima da média do continente, altos índices de tuberculose em grandes áreas urbanas e incidência elevada de demências cerebrovasculares relacionadas ao consumo excessivo de álcool e sal. Cinquenta e dois anos depois da revolução, a expectativa média de vida do país chegou a 82,7 anos, entre as mais altas da Europa.

De acordo com Kalache, a mudança ocorreu a partir de políticas públicas pensadas em uma formação futura. “Governos de direita, de esquerda e de centro, ao longo dessas décadas, investiram em educação”, disse. “Eles continuam sendo muito mais pobres do que outros países, mas estão se tornando menos desiguais.”

Em outro painel, a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia disse que a transformação social passa por entender como o poder foi distribuído e quais pressões isso gerou. “O poder formal, o poder no sentido de submeter alguém ou alguma coisa à sua própria vontade, foi dado ao homem em uma sociedade estruturada de forma machista, de forma sexista”, afirmou.

Segundo a ministra, essa estrutura não é definitiva. “O ser humano é plural, inclusive na sua instrumentalidade, na sua intelectualidade, na sua capacidade de ser.”

O primeiro dia do festival contou com debates com o neurocientista Álvaro Machado Dias, que discutiu os impactos da inteligência artificial sobre o trabalho e a vida pública, além de diálogos entre a atriz Beth Goulart e a psicanalista Ana Suy sobre Clarice Lispector, a escritora Carla Madeira e a romancista argentina Claudia Piñeiro e o escritor espanhol Javier Cercas e a historiadora Lilia Schwarcz.



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