Como baldes de pipoca extravagantes querem dar empurrãozinho no cinema

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Como baldes de pipoca extravagantes querem dar empurrãozinho no cinema


Faz tempo que o ingresso não é necessariamente a parte mais cara de ir ao cinema. Mas se a pipoca e o refrigerante já são vistos como itens que encarecem o passeio há anos, agora os valores pagos por eles podem facilmente beirar os R$ 300.

Mesmo que a comida e a bebida sejam as mesmas, saquinhos e copos de papel têm dado espaço para baldes e copos de plástico extravagantes, inspirados em blockbusters, que mais parecem itens de decoração —não à toa, são chamados de colecionáveis.

As embalagens descartáveis continuam à venda por valores menores, claro, mas o lançamento de versões turbinadas e mais caras se tornou parte importante do calendário dos principais exibidores do Brasil e do mundo.

Pipoca e refrigerante agora são servidos em itens como o conversível cor-de-rosa de “Barbie“, o caixão de “Nosferatu“, o chapéu de bruxa de “Wicked” e o infame verme da areia de “Duna” —que viralizou nas redes por exigir que seu dono enfiasse a mão numa cavidade cheia de dentes que lembrava outro tipo de orifício.

“Esses colecionáveis fazem parte de um processo maior. O circuito vem testando estratégias para convencer as pessoas a saírem de casa para ver um filme, o que fica cada dia mais difícil”, diz Pedro Curi, coordenador do curso de cinema da ESPM Rio e especialista em cultura de fã.

“Assim, vemos cada vez mais a sala de cinema se transformando num espaço para viver experiências. É como um McLanche Feliz [combo infantil da rede McDonald’s], que sempre trouxe a ideia de o lanche ser um pequeno evento, não uma refeição. É menos sobre ver o filme e mais sobre a relação que se estabelece entre o espectador e um passeio, uma história, um personagem.”

De acordo com Curi, os baldes ainda ajudam a definir o calendário de exibição das redes. Muitas vezes ofertados em pré-vendas, os itens servem como termômetro para entender o apelo —e, consequentemente, a eventual demanda por ingressos— de um filme com o público brasileiro.

Foi o caso do colecionável de “Lilo & Stitch” que a Cinépolis lançou no ano passado. Apesar das altas expectativas da Disney em relação ao filme, adaptações em live-action —com atores— vacilaram nas bilheterias recentemente. O balde que preenchia a boca da criatura azul com pipoca, de R$ 150, esgotou em poucas horas. O filme, semanas depois, seria exibido em 2.519 salas e renderia R$ 213 milhões no Brasil.

“Sempre tivemos itens colecionáveis, mas mais simples. No pós-pandemia, percebemos que havia um estoque grande de baldes que não eram vendidos. Há uns dois anos, então, começamos a produzir itens diferenciados e mais caros, em menor escala, e a aceitação foi bem maior”, diz Luiz Fernando Angi, gerente de marketing da Cinépolis Brasil. “Temos a percepção de que o balde traz a pessoa ao cinema.”

Alguns desses colecionáveis são desenvolvidos no Brasil. Outros são fruto de parcerias com cinemas de outros países, numa estratégia que torna a fabricação de itens mais complexos viável. A escolha dos filmes que serão contemplados é feita diretamente pelas redes, que mapeiam lançamentos em potencial com meses de antecedência e, na sequência, vão atrás dos detentores dos direitos autorais dos personagens.

Além de mitigar as perdas, a produção mais enxuta funciona como marketing de escassez, em que se cria desejo e urgência no consumidor por meio da ideia de exclusividade de um produto.

Angi explica ainda que os colecionáveis elevam o tíquete médio da bonbonnière —que há muito tempo se desdobrou em chocolates, sanduíches, vinhos e outras guloseimas. Apesar de as empresas não abrirem valores, o consenso no mercado é de que essa ala representa cerca de metade do lucro das redes de cinema.

Para Monica Portella, diretora de marketing da UCI, a expectativa não é lucrar em cima do colecionável, mas usá-lo como estímulo para que o espectador dê uma passada na bonbonnière.

Maior rede de cinemas do mundo, a americana AMC arrecadou, em 2023, US$ 54 milhões, cerca de R$ 267 milhões, com a venda de colecionáveis. À revista Time, Rob Bennett, diretor de alimentos e bebidas da rede, disse que o negócio ficou tão grande que diretores como Tim Burton e James Cameron passaram a se envolver na concepção ou aprovação de itens inspirados em seus filmes.

Daí, surgiram itens como a caixa de sapato de R$ 120 de “O Diabo Veste Prada 2“, da Cinépolis, ou o balde que a Cinemark criou para “Avatar: Fogo e Cinzas“, acoplado às costas de uma das criaturas aladas do filme, de R$ 269. Para “Super Mario Galaxy“, a empresa lançou um Yoshi —dinossauro verde dos games da Nintendo— que se abria para armazenar pipoca, de R$ 288. Os valores são sugeridos e podem varias de acordo com a região.

“Criamos outra camada na experiência de assistir a um filme no cinema. Para muitos clientes, não se trata apenas de comprar um copo ou um balde, mas de levar para casa uma lembrança daquele momento”, diz João Vitor Trevisan, diretor de alimentos e bebidas da Cinemark Brasil.

A revista americana Vulture chegou a criar um prêmio para o melhor balde de pipoca do ano. Alguns dos destaques de 2025 foram uma caixa de música –e de pipoca– de “Wicked: Parte 2”, uma que traz um pequeno Superman disparando raios laser numa pipoqueira e uma boneca endemoniada de “Annabelle”, em tamanho de um bebê, segurando um balde. Não faltaram itens que projetavam luz e som, algo curioso para itens que serão usados, primordialmente, na sala de cinema.

Pedro Curi, o professor, faz coro à ideia de que o colecionável materializa uma experiência. “Isso é geral, acontece nos jogos em estádios, que têm se tornado passeios mais elitizados. As experiências estão cada vez mais se aproximando de um show —não é só ver o filme, mas ver em determinado local e momento, e ter um registro disso”, diz.

“E no cinema sempre houve a materialidade dessa memória, por meio dos ingressos físicos, que sumiram com a era digital.”

Assim, a onda de suvenires da viagem ao cinema é centrada em baldes e copos, mas vai além. Na semana passada, a UCI ofereceu um caderno de “O Diabo Veste Prada 2”. Há alguns meses, quem assistisse a “Wicked: Parte 2” nas salas Imax ganhava um card metalizado.

“São produtos que as pessoas só podem ter se forem ao cinema. Não estão disponíveis online. É uma forma de complementar a experiência e de chamar o público”, diz Samara Vilvert, diretora de marketing da rede Cinesystem.

Com estratégias como essa, ir ao cinema em vez de esperar o streaming reforça a ideia de viver uma experiência coletiva. Este mês de abril, vale dizer, foi o melhor desde a pandemia nas bilheterias brasileiras, puxado por longas como “Michael“, “Super Mario Galaxy” e “O Diabo Veste Prada 2”. Todos tiveram combos especiais nas bonbonnières.

Questionado se a onda pode ser reflexo de uma infantilização do espectador, Curi lembra que esse processo afeta várias áreas. “Hoje nós tratamos a juventude como norma de mercado, enquanto idades mais avançadas são consideradas nucho. Mas esse tipo de consumo sempre existiu, voltado para as bases de fãs. O que o mercado faz, agora, é expandir esse comportamento para um público menos dedicado, mas disposto a pagar.”



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