Exposição de desenhos e rascunhos revela lado íntimo de Iberê Camargo

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Exposição de desenhos e rascunhos revela lado íntimo de Iberê Camargo


A caricatura do ex-presidente José Sarney com o bigode farto e críticas ao Plano Cruzado, os vários ângulos de um gato feito a lápis, o croqui de uma modelo vestindo um elegante traje azul com chapéu combinando e uma série de desenhos eróticos explícitos, por vezes escrachados e com traços humanos desproporcionais.

Nenhum tema dessas ilustrações acima é comumente associado à obra de Iberê Camargo, mas eles aparecem em meio a 1.901 desenhos e rabiscos feitos pelo artista plástico gaúcho ao longo de quase sete décadas.

A exposição “Iberê Camargo: Quem Sabe, o Tempo…”, inaugurada no mês passado em Porto Alegre, na fundação que leva o nome do pintor, reúne ilustrações feitas desde sua adolescência —as mais antigas são de 1927 e 1928— até o fim da vida, e busca mostrar um outro lado de Iberê e do seu processo artístico.

“É um trabalho que lida com a intimidade do artista, com os modos de pensar do artista, as anotações, às vezes distraídas, de um rabisco num papel”, diz Carmela Gross, artista plástica e curadora da exposição.

Ela afirma que os desenhos ajudam a expor o lugar-comum e a “obra não excepcional” de Iberê. “O desenho carrega todo esse universo anterior à conclusão de uma obra, com várias etapas, com desenvolvimento e com a grande eloquência da pintura. Eu queria uma voz mais baixa.”

Em vez de telas, há papéis de diferentes tamanhos e gramaturas, páginas de jornais, guardanapos e até um envelope pardo que continha exames de Iberê.

Com traços de caneta esferográfica, ele transformou o prédio do Hospital de Clínicas de Porto Alegre no corpo de um animal quadrúpede que leva um homem gigante e enfaixado nas costas.

O conteúdo é ainda mais variado. Traços humanoides em diferentes estilos e níveis de detalhamento, animais, carros, desenhos de humor e propagandas fictícias. A maior parte parece fluxo de consciência, feita por um artista inquieto com um papel e uma caneta, lápis de cor, grafite ou carvão à mão.

Entre os últimos registros de Iberê, feita poucos meses antes de sua morte, há uma crítica ao plano do então candidato à Presidência Fernando Henrique Cardoso.

Esse é um dos vários desenhos com tom sexualmente explícito ou escatológico na exposição, que tem mulheres nuas e atos sexuais ou referências à penetração anal como metáfora cômica. Há, por exemplo, duas versões de uma mesma piada —um toureiro tentando escapar da mira do chifre de um rinoceronte e um homem nu soltando gases dentro de um botijão, com a legenda “economia de guerra”.

Tudo organizado em 93 mosaicos, que ficarão expostos no último andar do museu até março de 2027.

Gross diz que não há uma narrativa visual entre os mosaicos, e as combinações não formam um discurso, mas sim fragmentos —uma janela para a mente do artista, algo que não foi feito para o público ver. “É um processo quase de embaralhamento da obra”, afirma.

Esse processo dialoga com o que mais se aproximou de um norte para Gross na curadoria, o conto “O Relógio”, escrito por Iberê em 1959 e publicado em 1988, estampado na parede do museu como leitura complementar.

A história narra a busca obsessiva de um homem que deixa cair um relógio incrustado de rubis, sua última lembrança da avó falecida, em uma latrina.

Ele passa dias revirando a sujeira com diferentes objetos e, depois, semanas espalhando-a no pátio de casa para dissecá-la milimetricamente, sob chuva forte e sol a pino, à procura de fragmentos do objeto para reconstruí-lo, em uma busca frenética sob a zombaria dos vizinhos.

“É uma procura insana de alguma coisa que ele sabe que está ali, mas que não é dada à primeira vista. Então, ele fica chafurdando na lama, no excremento, separando coisas na busca de encontrar algo que ele tem na cabeça, mas que ele acaba não encontrando”, diz Gross.

A curadora e sua assistente Carolina Caliento analisaram aproximadamente 4.000 ilustrações armazenadas nos arquivos virtuais da Fundação Iberê Camargo para compor os mosaicos.

Gross diz que se interessou, enquanto artista, pela dimensão menos formal do trabalho de Iberê. O público, que encontra nos outros andares pinturas mais famosas e facilmente associáveis ao pintor, pode agora observar uma espécie de etapa preparatória.

Apesar da intenção de fazer uma seleção quase aleatória e não incluir deliberadamente temas que o artista desenvolveria mais tarde, alguns desenhos já antecipam motivos recorrentes em sua obra, como as bicicletas. Um deles mostra um homem e uma mulher nus segurando uma bicicleta; logo ao lado, há o desenho de uma mulher curvada empurrando o veículo.

“O desenho funciona como um norte para depois desenvolver outra coisa. Mas ele, em si mesmo, é só uma pergunta”, diz a curadora.



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