Uma fanfarra ruma ao desconhecido. Ao longe, os músicos desaparecem numa grande massa de roupas brancas. De perto, a pele negra salta da tela de Dalton Paula. Ele destaca a dualidade da obra que recebe os visitantes em sua primeira mostra panorâmica, recém-inaugurada no Inhotim, em Minas Gerais.
A exposição, inclusive, parte de outro dualismo —”Dupla Cura”, explica a curadora Beatriz Lemos, diz respeito ao conforto espiritual que transcende o autor e contempla o público. O título ainda deriva dos santos são Cosme e são Damião, que em religiões de matriz africana representam o equilíbrio entre a maturidade adulta e a inocência infantil.
Não por acaso, foi à dupla divina que a mãe de Paula confiou a saúde do filho na infância. Dois vídeos do artista ilustram essa fase de vida. Num deles, garotos colhem frutas e imitam outros ritos dos pais. Noutro, um debate acalorado divide dois meninos —pode o rio ser considerado um ser vivo?
“Precisamos prestar mais atenção nas futuras gerações. O universo das crianças é tão potente quanto qualquer outro”, afirma Paula, que em 2021 fundou o Sertão Negro, no interior de Goiás. O centro oferece cursos artísticos para jovens e estimula a integração com a natureza e quilombolas da região.
O artista descreve o cinema como síntese das artes. Numa performance em vídeo, por exemplo, vira ator e realça o contraste entre paredes brancas e a própria cor. Já em fotografias, cola recortes de jornais sobre si para questionar a comercialização de pautas raciais.
“Penso nos meus trabalhos como documentos. Precisamos olhar para a memória e formar os que darão continuidade a ela.”
É esse arcabouço lúdico que unifica as obras na galeria Mata, dividida entre temas, técnicas e suportes. Entre pinceladas robustas em telas antigas, crianças se divertem na copa de árvores, carroceiros atravessam festas populares e cirandas tomam as ruas.
Já entre obras mais recentes, como retratos de figuras negras não representadas na história, traços delicados deixam linhas brancas, quase incompletas, entre fios de cabelo e peças de roupas. Segundo Paula, é um jeito de desenhar algo intangível, que ultrapassa a realidade. Afinal, o artista é conhecido por subverter a “história oficial”, dando espaço a personagens e repertórios culturais excluídos durante décadas.
Sejam líderes negros, como João de Deus Nascimento, Chica da Silva e Ganga Zumba, exibidos no Masp há quatro anos, sejam objetos que recebem pinturas, ele projeta uma linha do tempo alternativa criada pela imaginação.
“A fabulação fundamenta novas linguagens e materialidades”, diz Paula. Ele cita pedras douradas de “Fanfarra”, referência aos orixás, como elementos que conectam a matéria à espiritualidade.
Na instalação “Rota do Tabaco”, os materiais da vez são tigelas, usadas para alimentos e rituais religiosos. Sobre a cerâmica de tom terroso são inscritos vários ícones do comércio de fumo.
Dalton Paula revê o colonialismo ao unir escravos, sacerdotes, procissões de matriz africana e outras cenas além do eurocentrismo. É semelhante aos seus desenhos sobre capas de enciclopédias. Ora pintando utensílios de cozinha, ora plantas medicinais, Paula sobrepõe outros conhecimentos a livros considerados eruditos.
“A arte permanece muito elitista, então tento criar ‘armadilhas visuais’ e poéticas para levar essas questões e permitir relações mais íntimas com essas obras.”
Além de celebrar os vinte anos do Inhotim, “Dupla Cura” é mais um dos esforços do museu para dar mais espaço a artistas negros. Nos últimos anos, a iniciativa ganhou força via parceria com o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, o Ipeafro, e exposições de artistas como Abdias Nascimento e Paulo Nazareth.
Não significa que o museu esteja imune a polêmicas. Em 2022, quando ocorreu a temporária “Quilombo”, por exemplo, Maxwell Alexandre exigiu que sua obra ali presente, e que pertence ao acervo da instituição, fosse retirada e criticou a falta de pavilhões permanentes dedicados a artistas negros.
Agora, o Inhotim também acaba de inaugurar uma instalação de Davi de Jesus do Nascimento, no espaço em que ficava uma obra do cubano Carlos Garaicoa. Criado às margens do rio São Francisco, o artista repensa a natureza num tipo de caverna.
Já “Contraplano”, última das novidades do mês, revê a relação entre arquitetura e ambiente. Inspirada em cavas de mineração, a obra de Lais Myrrha leva o concreto ao relevo mineiro e traz um novo espaço de convivência.
Para Paula, inaugurar sua primeira panorâmica no Inhotim é como consultar um oráculo —”um modo de ver o que funcionou e pensar o futuro”. A reflexão lembra outro destaque, em que duas moças escrevem numa mesa de madeira.
Na obra “Formatura”, a bandeira do Brasil surge incompleta ao fundo, só com contornos. “Não sabemos se ela está surgindo ou desaparecendo.” Na tela do artista, um novo país aguarda ser escrito.
O jornalista viajou à convite do Inhotim.




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