De mansinho, sem estrondo, como é de seu feitio, a China começa a por as manguinhas de fora no mundo audiovisual. Não se trata de um filme de Jia Zhangke ou alguém assim. “Terra à Deriva 2” é vendido como um enorme sucesso no país, e logo no início traz um cientista anunciando o último grito da informática: uma maneira de passar memória, personalidade e tudo mais de uma pessoa para um computador ou similar. Vida Digital é o nome de seu projeto, que nos promete a vida eterna, desde que digitalizada.
Temos então três tarefas diante do filme: a primeira, decifrar o próprio filme, cuja estética parece tomar por base o sistema hollywoodiano do blockbuster, com planos curtos e a maior parte do tempo agitados, um espírito de videogame que o destina a plateias jovens e muitos efeitos especiais —tantos que de vez em quando o filme parece uma animação— embalando um roteiro por vezes difícil de seguir em detalhes. No mais, algo diferente: em vez dos tradicionais foguetes, os astronautas são levados ao espaço por poderosos elevadores.
A orientação geral é bem didática: diante da ameaça à espécie humana no planeta, criou-se um governo de solidariedade universal. Todos os países colaboram com o projeto de salvação chamado Terra à Deriva, que pretende acomodar os humanos fora da Terra. Projeto que se opõe ao outro, o Vida Digital.
O segundo desafio é decifrar a China nessa história. Estamos em 2044, existe o governo universal, mas, atenção: as nações não deixaram de existir. Não perderam a identidade. Cada representante leva sua bandeira na lapela. Maneira de dizer que a China busca a solidariedade entre as nações, a colaboração sadia etc. Existe aí certa originalidade ideológica em relação a Hollywood: não se procura acirrar os conflitos entre nações, mas o inverso. O principal, no entanto, é que a China deixa de ser o grande e misterioso “Outro” do mundo. Está junto com os demais países diante do perigo comum.
Por fim, pode-se tentar decifrar o cinema chinês abençoado pelo Estado a partir deste filme. Existe uma clara valorização dos filhos. O mocinho da história tem um filho e investe tudo no futuro dele. Já o vilão perdeu a filha na vida real, mas quer que ela continue viva no mundo virtual. Optar pela realidade é importante, parece nos dizer o filme, enquanto negar o mundo real em favor do digital é uma insânia. Em certos momentos é quase impossível não lembrar do cinema de David Cronenberg. Por vezes “Terra à Deriva 2” se lança num caminho delirante próprio (o que também é interessante).
Como bom filme de ação, o pau come em “Terra à Deriva 2”. Mas algo o distingue claramente dos blockbusters de Hollywood, em que há sempre um Tom Cruise ou alguém assim para salvar a humanidade. Aqui a operação privilegia a ação coletiva, embora um ou outro personagem se realce. Ainda quanto a momentos de distinção em relação ao cinema ocidental, note-se um diálogo interessante.
Um astronauta (francês e negro, se ouvi bem) diz a Peiqiang, astronauta chinês, que o importante não é viajar pelo espaço ou algo assim, mas levar flores à namorada. Peiqiang responde que isso não passa de um tremendo clichê. No entanto, ele logo aparecerá com um reluzente buquê de rosas vermelhas para ela. E essas flores terão papel relevante no filme.
Aliás, as mulheres têm papel de destaque no projeto (e no filme). As mulheres chinesas em especial, que, sabemos, há não tanto tempo assim eram relegadas a papéis domésticos e pouca coisa mais.
Dito isso, lá fora, o pau come. A tecnologia está pronta para levar os homens a lugar mais aprazível. A orientação básica é clara: o pessoal de Vida Digital são os vilões: hackers terroristas que invadem os sistemas e botam Terra à Deriva em xeque. O governo colaborativo da humanidade teme Vida Digital, pois à medida que as sabotagens são bem-sucedidas, o tempo para salvar a humanidade vai se tornado exíguo. Ou seja, a evolução do filme é bem tradicional.
Estamos em 2044, e pelo que se vê não sobra uma mísera árvore na Terra. Mas a China, o filme dá a entender, está completamente comprometida com o futuro da espécie e só o concebe como um projeto de engajamento geral. Há gente do mundo inteiro. Até uma brasileira aparece rapidamente em cena. E, fato bem importante, cada representante nacional fala sua própria língua —outra diferença em relação ao padrão hollywoodiano, centrado no idioma inglês. Aliás, os estadunidenses do filme são boa gente, embora vez por outra equivocados. O importante, no entanto, é enfatizar o tempo todo que a China não quer encrenca, e sim colaboração.
“Terra à Deriva 2” oferece ao espectador não um espetáculo irretocável, mas a oportunidade de entender como a China pretende ser vista e, aos poucos, introduzir sua cultura no Ocidente: devagar, em silêncio, como quem não quer nada, mas disposta a buscar sua parte no comércio e difusão de imagens —como, aliás, faz com outros produtos.
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