De acordo com o governo federal, quase 23 mil estupros coletivos foram registrados no país entre 2022 e 2025 – a maioria em meninas adolescentes
JC
Publicado em 17/03/2026 às 0:00
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A violência contra as mulheres começa muito cedo, num país em que a desigualdade de gênero reflete e integra o mosaico de horrores da realidade desigual. O machismo estrutural alimenta a cultura da brutalidade em comportamentos naturalizados há séculos, entre os homens, no véu de acobertamento das famílias e até das instituições, como a Justiça. O caso de uma decisão no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que considerou normal a relação sexual de um homem acima de 30 anos de idade com uma adolescente de 12, em flagrante confronto à legislação, é infelizmente a ponta do iceberg de um cenário nacional desolador, em que o horror anticivilizatório do estupro de vulnerável é banalizado pela sociedade, ou parte dela, até mesmo a parte que deveria reagir diante da banalização.
Se, por um lado, os avanços acumulados em nome do equilíbrio dos gêneros resgatam a necessidade da continuidade do processo de conquistas – na ampliação e equiparação dos direitos, no reconhecimento do papel feminino como base familiar, na representatividade maior, mas ainda baixa na política, entre outras – por outro, a persistente violência masculina contra as mulheres demonstra um grande fracasso de um processo civilizatório incompleto. Talvez o machismo, no Brasil, seja um dos principais gargalos ao desenvolvimento coletivo.
Sintoma estarrecedor desse distúrbio contemporâneo no país é a constatação da ocorrência de, em média, 15 estupros coletivos – com a participação de dois ou mais criminosos – por dia, em 4 anos, de 2022 a 2025, segundo o Ministério da Saúde. No total, foram 22.800 estupros desse tipo em todo o território nacional, no período, dos quais 14.400 tiveram como vítimas crianças e adolescentes do sexo feminino. O pior é saber, como sabem as autoridades muito bem, que grande parte das ocorrências nem chega a ser denunciada, graças à cultura da normalização e ao medo que cerca as vítimas no silenciamento do trauma. Para Najara Barreto, gestora executiva do Instituto Justiça de Saia, “em casos de estupro coletivo, esse silêncio tende a ser ainda maior. A vítima não enfrenta apenas um agressor, mas um grupo. O medo de represálias, a exposição pública e o trauma psicológico muitas vezes se tornam barreiras quase intransponíveis para a denúncia”, afirmou, em declaração no portal DW Brasil.
A realidade rotinizada onde sobressai uma torpe erotização do sofrimento das mulheres – e sobretudo das meninas – configura um desafio social que extrapola, mas não despensa, o investimento prioritário dos governos de todos os níveis, dos parlamentares e do Poder Judiciário. As instituições precisam liderar um movimento efetivo de transformação cultural, no sentido de tornar claro o cometimento do crime, e de proteger as crianças, as adolescentes e as mulheres adultas contra o risco da exposição à violência masculina. Notadamente nas escolas onde os grupos estupradores se formam, e parecem prosperar sem constrangimento.
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