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A discussão sobre o crescimento das baterias de samba no Carnaval de Olinda ganhou novo capítulo nesta terça-feira (10), com a publicação de uma carta aberta da Associação das Agremiações de Frevo de Olinda (Afrevo).
Criada recentemente para defender o Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a entidade sustenta que a presença de equipamentos sonoros da de alta potência das baterias “tem descaracterizado o ambiente sonoro do Carnaval olindense” e interferido “diretamente no desfile das agremiações tradicionais”.
“[Isso] atropela os pulmões acústicos dos músicos das orquestras, bloqueia cortejos históricos de forma inadvertida, ameaça o patrimônio material em razão da potência sonora e agride o mais aclamado patrimônio carnavalesco de Pernambuco: o frevo”, afirma a carta.
A associação ressalta que o debate “não se trata de disputa entre culturas”, mas de adequação ao território cultural e à legislação de proteção do patrimônio material e imaterial, especialmente no que diz respeito ao uso de sistemas amplificados de som.
O dossiê do Iphan sobre a manifestação diz que “a preservação efetiva do frevo só é possível quando os sujeitos, neste caso a comunidade produtora do frevo, são partes essenciais do contexto social em que o bem está inserido”.
Repercussão de entrevista com Maestro Óseas
A carta menciona ainda a entrevista concedida pelo Maestro Óseas Leão ao Jornal do Commercio, publicada em 2 de fevereiro na série “Maestros do Frevo”. Na conversa, o músico afirmou que “não se pode mais circular pelo meio da rua por causa das batucadas”.
“Não são escolas de samba — não tenho nada contra, cada um no seu espaço, respeito todos. Mas existe um problema: a gente tem hora para começar e para terminar. Ficamos presos atrás de uma bateria, esperando a boa vontade deles saírem para a gente passar. Os turistas vêm do Rio de Janeiro para quê? Para ver o frevo”, declarou. O recorte teve ampla repercussão nas mídias.
Segundo a Afrevo, a fala do maestro “é um alerta necessário”
Óseas não foi o único a abordar o tema na série. O Maestro Carlos, que atua em agremiações como Homem da Meia-Noite, Menino da Tarde, O Majestoso e Pitombeira dos Quatro Cantos, afirmou que as baterias “às vezes atrapalham na cidade”.
“Elas teriam de ter um lugar específico para desfilar, não na Cidade Alta. A parte alta é do frevo, das pessoas que gostam do frevo, dos blocos que existem, suas fantasias e tudo mais. Temos dificuldade para nos locomover de um lugar para o outro”, disse.
Integram a Afrevo agremiações reconhecidas como Patrimônios Vivos de Pernambuco, entre elas Homem da Meia-Noite, Cariri Olindense, Vassourinhas, Pitombeira dos Quatro Cantos e Elefante de Olinda.
Troças, clubes e blocos emblemáticos, como Ceroula, John Travolta, Lenhadores, Boi da Macuca, O Menino da Tarde, Trinca de Ás e Tá Maluco, também fazem parte da associação.
Carnaval de 2025 expôs problemas
As baterias de samba têm presença histórica em Olinda — a exemplo do Patusco, fundado em 1962. Nos últimos dez anos, contudo, houve um crescimento mais expressivo dessa categoria nas ladeiras.
A utilização de sons mecânicos, somada ao grande número de integrantes — que pode chegar a 270 por grupo —, tem gerado reclamações relacionadas ao fluxo dos cortejos.
No ano passado, o mestre bonequeiro Silvio Botelho, criador do Desfile dos Bonecos Gigantes, relatou que o tradicional cortejo da terça-feira precisou aguardar a passagem de quatro baterias por mais de uma hora na Rua de São Bento. Diante da demora, o grupo desistiu de seguir o percurso.
Baterias dizem que respeitam o frevo
Durante uma prévia realizada no último domingo (8), Julieta Mergulhão, presidente da bateria Sambadeiras — formada em 2008 exclusivamente por mulheres —, afirmou que a agremiação “não desmerece ritmo nenhum”.
“Temos o maior respeito pelo frevo. […] Não somos ‘esmagadeiras’. Fazemos o nosso estilo com o maior respeito de todos e todas”, disse.
Já Múcio Mariano, da bateria Cabulosa, anunciou no domingo (9) que, em 2027, o grupo não irá desfilar na Cidade Alta pela primeira vez.
“Vamos fazer um desfile lá embaixo, ou onde a Prefeitura determinar. Quando você faz um trabalho bom, onde você for, as pessoas também vão. Enquanto a situação não for resolvida, com um ordenamento, só vão colocar a culpa em alguém”, afirmou.
Ele defende que qualquer solução seja construída de forma coletiva. “Os blocos, no geral, atrasam horários. São diversos problemas para resolver”, completou.
Prefeitura diz que mantém diálogo
A Prefeitura de Olinda, por meio da Secretaria de Cultura, esclareceu em nota “que mantém diálogo permanente com orquestras de frevo, grupos de bateria e demais agremiações para garantir um Carnaval seguro e organizado”.
“Está sendo publicado um decreto construído de forma conjunta com os diferentes segmentos, assegurando a convivência harmônica entre as manifestações culturais”, continua.
“O Município reafirma seu compromisso com a preservação do frevo como patrimônio imaterial e com o respeito às tradições que fazem do Carnaval de Olinda uma referência cultural”.

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