João Campos ainda lidera com folga, porém o discurso dominante já fala em queda, enquanto Raquel Lyra consolida imagem de crescimento gradual.
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Numa campanha eleitoral, há uma regra elementar que a matemática impõe e a política confirma. Ninguém cresce para sempre e ninguém passa de 100%. Todo candidato encontra um teto. Mesmo os líderes mais populares carregam uma fatia consistente de rejeição. Saber o próprio teto é importante para não correr o risco de comemorar o topo quando ainda tem estrada demais pela frente.
Outra lição importante, e elementar, serve em qualquer época: eleição não se decide pelo ponto de partida. Decide-se pela trajetória. Um dos problemas para o PSB e para João Campos (PSB) talvez tenha sido acreditar que as pesquisas com quase 40 pontos percentuais de vantagem eram boas meses atrás. Pesquisa boa pode ser muito ruim, quando divulgada na época errada. Com tanto tempo de campanha ainda pela frente, vender uma trajetória de crescimento é mais fácil do que a história de quem já teve uma grande vantagem.
O resultado do primeiro levantamento do Datafolha este ano, divulgado nesta sexta-feira (6), é um alerta sobre isso. Em relação à pesquisa de outubro João caiu cinco pontos e Raquel Lyra (PSD) cresceu cinco. Antes ele tinha 52% e caiu para 47%. Ela tinha 30% e subiu para 35%.
As atenções são sempre mais positivas para quem cresce, mesmo que a distância ainda seja grande.
Datafolha
Há pelo menos dois anos esta coluna alerta para um erro estratégico da equipe de Campos por causa da antecipação da campanha. A divulgação constante de levantamentos mostrando índices próximos de 70% animou a própria bolha, mas elevou artificialmente a régua de comparação e gerou um clima de empolgação que era visivelmente vaporoso.
Quando o teto de um candidato é exibido e exaltado tão cedo, qualquer oscilação vira perda e você tem a ideia de derretimento gradual. Mesmo que a vantagem ainda seja muito grande.
Percepção
Os números atuais ainda deveriam ser vistos como confortáveis para o socialista. Manter vantagem de 12 pontos percentuais contra uma governadora no exercício do cargo não é trivial. Em condições normais, seria notícia positiva. O problema é a “trajetória”. Os 47% contra 35% acabam sempre suscitando um complemento do tipo: “mas já foi quase 70%, não é?”.
A conversa dominante no bastidor passou a ser a de que “ele cai enquanto ela cresce”. Ou então: “A diferença encolheu”. A expectativa geral passou a ser “quando será o empate?”. A percepção de declínio pesa mais do que a vantagem estatística que é dele e não pode ser ignorada.
Dependendo do momento, pesquisa favorável produz efeito contrário. Em vez de transmitir força com o tempo, sugere desgaste.
Teto
O erro original ocorreu quando o PSB tratou a marca de quase 70% lá atrás como algo sustentável e passou a exibi-la como troféu permanente.
Aquilo já era o limite do teto. A partir dali, a única direção possível era para baixo. Cada ponto perdido passou a ser interpretado como crise, mesmo que ela não exista ainda. A antecipação da campanha provocada pelo próprio PSB consolidou essa leitura e ameaça encurtar o fôlego do projeto. O que não é bom para quem está ainda arregimentando forças.
Ritmo
Do outro lado, Raquel Lyra adotou estratégia mais gradual. Conteve expectativas, segurou a ansiedade e a impaciência dos aliados. Ainda não há cenário de favoritismo real e concreto para nenhum dos dois, muito menos para ela. O que existe é uma curva de crescimento constante da governadora, que melhora a disposição do eleitor a observá-la com mais simpatia.
Esse avanço, porém, depende de entrega. Reeleição exige obra, resultado e confiança administrativa. Se a gestão desacelerar, a curva também desacelera.
Campanha é movimento. Quem transmite sensação de avanço empolga. Quem aparenta perder fôlego precisa explicar demais e se perde.
Uma lembrança
Pernambuco já viveu essa dinâmica da importância da trajetória de forma didática. Em 2006, Eduardo Campos começou a disputa com 6% nas pesquisas e praticamente fora do jogo. Terminou eleito com 65,3% dos votos num segundo turno. No mesmo pleito, Humberto Costa (PT) liderou boa parte da corrida e, no fim, sequer chegou ao segundo turno. Um subiu de forma contínua. O outro perdeu fôlego.
Esta é a lição da primeira pesquisa do ano, reforçando o que ocorreu 20 anos atrás: trajetória vale mais que fotografia.

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