A China tem se apresentado mais aberta a receber jovens estudantes de diversas partes do mundo e investido em ciência, tecnologia e inovação
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Um dos rankings universitários mais conhecidos do mundo, o do Times Higher Education (THE), com foco na produção científica, colocou as universidades chinesas nas primeiras posições e mostrou uma queda importante das americanas. Na entrevista que dei ao programa Em Pauta, da Globo News, creditei esse quadro não a um único fator, mas a um novo ambiente mundial, no qual a China tem se apresentado mais aberta a receber jovens estudantes de diversas partes do mundo e investido maciçamente em ciência, tecnologia e inovação.
Notadamente, as universidades americanas construíram, ao longo de décadas, uma grande história de credibilidade mundial, mas as últimas medidas governamentais têm afastado os estudantes estrangeiros e reduzido substancialmente os recursos federais destinados a essas universidades. O maior exemplo disso são as restrições impostas à prestigiosa Harvard University. Para se contrapor a esse cenário, a Associação Americana de Professores Universitários (AAUP) entrou na justiça contra algumas das medidas adotadas pelo governo federal. O presidente da entidade, Todd Wolfson, alertou para o fato de que os cortes vão atrasar o desenvolvimento da próxima geração de cientistas.
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Um dos efeitos dessas medidas governamentais foi a queda – a maior em mais de uma década – de alunos estrangeiros estudando ou trabalhando em universidades americanas. Isso pode trazer impactos importantes para a economia americana, pois estima-se que os estudantes estrangeiros movimentam US$ 42,9 bilhões por ano e ocupam mais de 355 mil empregos no país. Muitos brasileiros, por exemplo, estão voltando ao Brasil ou migrando para outros países – entre eles, a China. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) já iniciou um robusto programa de repatriamento desses estudantes para trabalharem nas universidades paulistas. Nesse mesmo ranking, a mais bem colocada brasileira é a Universidade de São Paulo (USP), e atribuo isso, em parte, à presença da Fapesp, que investe mais de 1 bilhão de reais por ano nas universidades de São Paulo.
Em contrapartida aos Estados Unidos, a China tem ampliado enormemente os recursos destinados às suas universidades e à pesquisa nacional em áreas estratégicas. Em plena pandemia, em 2021, esse país asiático investiu cerca de US$ 840 bilhões em educação, o equivalente a 4% de seu PIB. Estudar na China pode ser o grande diferencial para jovens que desejam ser protagonistas mundiais. A procura do estudo de mandarim só faz crescer em todo o mundo. Os jovens sabem que, além da tecnologia e da inovação, a China oferece uma grande oportunidade – uma cultura milenar num ambiente com reais possibilidades de empregabilidade.
Esse comportamento da China já se faz sentir no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que mede a proficiência escolar de estudantes de 15 anos de idade em leitura, matemática e ciências – ou seja, de estudantes que deverão ingressar no Ensino Médio, a ponte para o Ensino Superior. Nas três áreas avaliadas, nas dez primeiras posições aparecem as duas Regiões Administrativas Especiais (Raes) da China, Macau e Hong Kong, e Xangai, o maior centro comercial e industrial do país. No ranking do PISA em Ciências, os Estados Unidos aparecem apenas na 34ª posição.
Naturalmente, os diferentes rankings podem traduzir coisas diferentes em termos desse comportamento – mas não muito. A China entendeu esse novo ambiente mundial, enquanto os Estados Unidos parecem ignorá-lo. O Brasil pode até tirar algum proveito dessa eventual guinada mundial – o problema é que a educação de base em nosso país está longe da qualidade desejável.
Em recente podcast que fiz para a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e para a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), externei que a solução do Ensino Superior brasileiro passa necessariamente pela qualidade da educação de base: muitos estudantes estão no Ensino Superior sem sequer terem alcançado 450 pontos no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) – mínimo necessário para obter o certificado dessa última etapa da Educação Básica.
Por fim, não se pode aqui deixar de reconhecer que as universidades americanas ainda são o sonho de estudo e de trabalho para muitos jovens de todo o mundo – mas não tanto quanto antes –, enquanto as chinesas começam a ganhar esse espaço que as americanas vêm perdendo. Segundo Phil Baty, diretor de assuntos globais da Times Higher Education (THE), está vindo aí uma grande mudança – uma espécie de nova ordem mundial no domínio global do Ensino Superior e da pesquisa.
Mozart Neves Ramos é titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE.


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