Nos últimos 15 anos, o Tame Impala lançou alguns dos discos mais interessantes da fusão de rock com música eletrônica. Tame Impala é o projeto do australiano Kevin Parker, um artista talentoso que compõe, grava e produz sozinho quase todos os seus discos. Quando se apresenta ao vivo, Parker recebe a ajuda de instrumentistas para recriar as músicas no palco.
Os dois primeiros discos da banda, “Innerspeaker” (2010) e “Lonerism” (2012), traziam uma sonoridade orgânica, com muitas guitarras e inspirações na música psicodélica dos anos 1960 (Pink Floyd, Beatles, Soft Machine). Nos dois álbuns seguintes, “Currents” (2015) e “The Slow Rush” (2020), Parker levou a banda para um som mais sintético, eletrônico e dançante, criando canções que agradavam ao público fiel da banda, mas que atraíram também fãs de pop e de dance music. O Tame Impala mudou e ampliou enormemente sua base de fãs.
O sucesso transformou Parker, hoje com 39 anos, num produtor e compositor em alta demanda no universo pop. Nos últimos anos, ele emprestou seu talento a astros como Lady Gaga, The Weeknd, Dua Lipa e Travis Scott. Nada mal para um moleque solitário que cresceu em Perth, na Austrália, uma das cidades mais isoladas do mundo, a 2.100 km de distância da cidade grande mais próxima, Adelaide. Kevin Parker é um caso curioso de artista que trabalha em isolamento –seu estúdio fica numa área remota em Yallingup, ao sul de Perth, com vista para o Oceano Índico– e que tem deixado sua marca no pop comercial.
Cinco anos depois de “The Slow Rush”, Parker volta com um novo disco, “Deadbeat”. Em entrevistas, ele disse que o novo trabalho foi inspirado pela cena de música eletrônica na Austrália, em especial por raves que ele costumava frequentar. A julgar pelo tom das letras e a sonoridade do álbum, as festas não deviam ser lá muito animadas.
“Deadbeat” é um trabalho dos mais lúgubres e tristes, com canções sobre amores interrompidos, crises existenciais e, claro, solidão. A capa, com uma bonita foto em preto e branco de Parker com a filha, Peach, não dá pista da melancolia presente no disco. O nome também não ajuda: “Deadbeat” pode significar “pessoa de má reputação” ou quem não cumpre suas responsabilidades.
Assim como outros discos do Tame Impala, quase todas as letras são escritas em primeira pessoa e com tons confessionais. Logo na faixa de abertura, “My Old Ways”, Parker dá o norte lamuriento do LP e parece estar descrevendo um surto depressivo: “Aqui estou de novo/ sinto-me mal/ (…) parece que veio do nada dessa vez/ gostaria de ter alguém para culpar/ mas eu sou apenas humano”.
“Deadbeat” traz o mesmo estilo eletrônico-pop dos dois discos anteriores, mas sem a animação desses. Uma das faixas mais alegres é “Dracula”, com uma letra engraçada que parece descrever os primeiros raios de sol numa festa de música eletrônica ao ar livre e referencia o mais famoso traficante de cocaína de todos os tempos: “A noite está quase no fim/ não sei onde você está/ as sombras me deixam bonito como um astro do cinema/ a luz do dia me faz sentir como Drácula (…)/ agora eu sou o Sr. Carisma/ Pablo Escobar”.
Várias letras falam de relacionamentos destruídos e usam a luz do sol e a chegada da manhã como analogias para a tristeza, como se Parker precisasse encarar a realidade depois do fim da festa. Musicalmente, o álbum é muito mais desanimado do que “Currents” e “The Slow Rush”, com exceção das faixas “Ethereal Connection”, um dançante trance de quase oito minutos que não faria feio em pistas de dança e da canção que fecha o disco, a pesada e rápida “End of Summer”, que remete a Underworld e tem uma letra que fala de separação. O que quer que esteja acontecendo no mundo de Parker, esperamos que ele se recupere.

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2579745293.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2579750594.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)








/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2579745293.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2579750594.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)
