Chega uma altura na vida em que uma pessoa precisa ter uma conversa séria consigo mesma. Pelo menos é o que me dizem.
Eu nunca tive vontade de experimentar, uma vez que meu interlocutor é um idiota. Mas enquanto lia Teofrasto sobre os diferentes tipos de caráter moral, comecei a pensar no tipo de pessoa que serei.
Teofrasto fala do sórdido, do impertinente, do vaidoso, do covarde, do maledicente, e eu admito ter ao menos um pouco de todos esses, mas acredito ter descoberto o tipo de ser humano que eu sou.
Eu sou o tipo de pessoa que, quando tropeça, ensaia uma corridinha para fingir que não sofreu um percalço e deixar claro que o objetivo era mesmo estugar o passo.
A propósito, verifico que, em português, só usamos o verbo estugar para nos referirmos ao passo. Ninguém estuga mais nada.
E, já agora, reparei que também só exaramos em atas. Não exaramos em outro tipo de documento. E só envidamos esforços, também. É a única coisa que se envida.
Enfim, talvez eu também seja o gênero de pessoa que se preocupa com este tipo de questão.
Mas sou sobretudo definido pela corridinha depois de tropeçar. Por que razão farei isso? Tenho assim tanta aversão a que os outros percebam que tropecei?
Não há mal nenhum em tropeçar, e não se pode dizer que quem olha para mim não tenha já identificado dez ou 20 defeitos mesmo antes de eu tropeçar.
Não é o tropeção que irá estragar a minha imagem.
Há ainda o fato de que fazer a corridinha após o tropeço acrescenta uma falha a outra falha: além de ser uma pessoa que tropeça, sou uma pessoa que não quer que os outros percebam seus tropeções.
E, terceira falha, eu sou uma pessoa que recorre a um método bastante pueril e ineficaz para camuflar a primeira falha.
Há uma única coisa que me consola diante de tudo isso: o fato de eu ser uma pessoa que esconde o tropeção com uma corridinha indica que, se algum dia eu cair acidentalmente de um 20º andar, em princípio irei recorrer a um estratagema semelhante.
Para mostrar que a minha ação foi proposital, irei embelezar a queda ao realizar uma série de lindas piruetas e mortais encarpados.
Vou ter uma morte muito bonita.
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