Estreou na Globo neste mês a série documental “Vida de Rodeio”, que vai ao ar às terças à noite. Pelo esmero da produção, pelo cuidado na abordagem dos personagens e por não fugir de temas polêmicos, a obra visual sobre a cultura sertaneja é de se prestar atenção.
A série dirigida por Edson Ferraz e Gabriel Mitani tem oito episódios, três dos quais já foram veiculados tanto na TV aberta quanto no Globoplay. Mesmo com essa diminuta amostra, já é possível ver grandes qualidades na série, produzida em parceria com a equipe do Globo Rural, o mais icônico dos programas de TV sobre o campo brasileiro.
Nascido em 1980, o Globo Rural era inicialmente um telejornal frio sobre as notícias do campo. Tornou-se, com o passar dos anos, muito mais que isso. O tom coloquial e a presença de repórteres de peso que sabem contar boas histórias, como o memorável José Hamilton Ribeiro, trouxe o respeito genuíno pelos personagens rurais. Do Globo Rural, os diretores de “Vida de Rodeio” conseguiram manter algo raro: a verdadeira curiosidade sobre a cultura do campo, o olhar arguto sobre o mundo agro (o que não significa acriticidade) e a contação de histórias de forma sedutora.
“Vida de Rodeio” relata as vidas de grandes peões brasileiros, desconhecidos para muitos de nós. A vida fora do país, a saudade do Brasil e o perigo constante da morte são abordados com delicadeza. Nos primeiros episódios é mostrada a trajetória de Adriano Moraes, lenda viva do esporte, primeiro tricampeão do Professional Bull Riders (PBR), a liga americana mais importante do mundo.
Em seguida, o roteiro aborda outros peões famosos, como Anderson Sucuri, Rogério Venâncio, Cassio Dias e José Vitor Leme. Este último conquistou neste ano seu tricampeonato mundial no PBR. Se você nunca ouviu falar desses nomes, você talvez seja uma exceção. Há um Brasil imenso que tem estas figuras como ídolos de primeira grandeza.
Com frequência as obras sobre o campo brasileiro flertam com dois opostos: a bajulação ou o desrespeito. Muitas obras audiovisuais buscam simplesmente adular os ricos sertanejos, num pobrismo crítico de doer. Não é o caso de “Vida de Rodeio”. Por outro lado há aquele tipo de produção que não consegue levar os sertanejos a sério, sempre tratando-os com escárnio e deboche.
Um caso exemplar recente desta segunda postura é o episódio “Sertanejo conquista a China”, lançado em 6 de outubro no podcast “Só no Brasil”.
Nesse episódio, os apresentadores cômicos Pedro Duarte e Victor Camejo abordaram a turnê que Milionário & José Rico fizeram na China em 1985. Quando Brasil e China retomavam contatos diplomáticos após o fim da ditadura, o governo chinês convidou os artistas brasileiros mais famosos no oriente naquela época.
Milionário & José Rico se tornaram conhecidos na terra de Mao Tsé Tung por causa do filme biográfico “Estrada da vida”, quando ambos foram dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, o pai do Cinema Novo. Ficou curioso? Pois permita-me o merchan e leia mais essa e outras histórias em “Cowboys do Asfalto: música sertaneja e modernização brasileira”, meu livro que este ano completou dez anos de publicação, e serviu de inspiração ao podcast.
“Com um toque de alívio cômico”, o podcast Só no Brasil diz oferecer “uma pausa divertida em meio ao caos, trazendo reflexões que ajudam a entender – e, claro, rir – das dores e delícias desse enigma chamado Brasil”. A abordagem, no entanto, repete um tom muitíssimo comum quando se trata da vida interiorana. O humor serve ao escárnio e deboche. Milionário & José Rico são olhados “de cima pra baixo”, num misto de superioridade da geração digital e desprezo pelo mundo rural.
Esse é um pecado que “Vida de Rodeio” não comete. A série da Globo trata os peões como atletas, personagens ambíguos e cheios de dúvidas e incertezas. Sem bajular seus heróis, a série não foge das polêmicas. A cultura masculinizada, a violência dos rodeios, o flerte com a morte e os maus-tratos aos animais são temas abordados. O mundo agro tem suas polêmicas e foi por causa da abordagem dessas questões, e não fugindo delas, que “Vida de Rodeio” talvez seja a melhor contribuição documental até agora sobre o tema.
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