“A gente vai colocar uma pessoa para tomar banho no meio da cidade!” Era com ênfase e determinação que Paulo Mendes da Rocha se referia à sua ideia de instalar uma piscina no topo do Sesc 24 de Maio, em São Paulo, quando o prédio do Serviço Social do Comércio ainda estava na prancheta.
Desde a inauguração da unidade, há oito anos, o intenso movimento de banhistas mergulhando a céu aberto em meio aos edifícios da região central de uma das maiores cidades do mundo indica a força de um dos princípios do arquiteto —o de construir para as pessoas.
Com os espaços em comum em mente, ele também desenhou o Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, em São Paulo, onde uma grande praça no nível da rua acolhe o público, e o futuro Cais das Artes, em Vitória, um centro cultural que, quando for inaugurado, terá uma esplanada de proporções generosas junto à sua entrada.
“O Paulo dizia que a cidade foi criada para que a gente pudesse conversar, se encontrar. Como ele dizia, ir ao botequim, isso só acontece na cidade. Para que serve a arquitetura? Para fazer que haja esse encontro”, afirma Nuno Sampaio, diretor-executivo da Casa da Arquitectura, instituição portuguesa que publica agora um livro sobre o arquiteto.
“E a arquitetura numa cidade muitas vezes densa, como São Paulo, com essas grades que separam o espaço privado do espaço público, ele quis criar espaços que, sendo privados, pudessem ser do encontro do público.”
A generosidade com as pessoas, seja em ambientes para milhares de frequentadores ou nas casas particulares que projetou, é lembrada nas análises das obras de Mendes da Rocha que compõem o livro “Geografias Construídas”. O volume de mais de 400 páginas, com lançamento no próximo dia 13, em São Paulo, reúne textos de dezenas de pensadores sobre um dos gigantes da arquitetura brasileira e mundial.
Editado pela Casa da Arquitectura, museu e centro de estudos em Matosinhos para o qual Mendes da Rocha doou seu acervo antes de morrer, em 2021, o livro discorre sobre 12 dos principais projetos do vencedor do prêmio Pritzker, considerado o Oscar da arquitetura, incluindo residências particulares, como a Casa Gerber, em Angra dos Reis, e instituições públicas, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, além de uma de suas únicas empreitadas no exterior, o Museu dos Coches, em Lisboa.
São textos detalhados sobre a trajetória do arquiteto de Vitória que teve em São Paulo o seu campo de atuação —dado que quase toda a sua obra está na capital paulista—, ilustrados com desenhos, plantas, fotos de maquetes e dos canteiros de obras, um material pinçado dos cerca de 9.000 itens de Mendes da Rocha que estão sob a guarda da Casa da Arquitectura.
“A gente achou que seria interessante não escapar muito dos projetos mais conhecidos para escrever o Paulo num mapa-múndi, apresentá-lo para uma audiência que não é a brasileira”, afirma Vanessa Grossman, uma das organizadoras do livro ao lado do historiador de arquitetura Jean-Louis Cohen. “Nas principais escolas de arquitetura, ele é um arquiteto conhecido, mas não tem a recepção do Oscar Niemeyer.”
Outro projeto de Mendes da Rocha que dá bastante ênfase às pessoas, abordado no livro como um trabalho definidor de sua trajetória, é o pavilhão do Brasil na Expo de Osaka de 1970, prédio que ele concebeu pouco antes de ter seus direitos civis caçados pela ditadura militar e ser forçado a abandonar seu cargo de professor na Universidade de São Paulo.
Sobre pequenas colinas naturais na cidade japonesa, Mendes da Rocha imaginou uma grande cobertura de concreto que dá a impressão de flutuar, apesar de sua monumentalidade. O croqui reproduzido no livro mostra linhas finas na horizontal, desenhadas com delicadeza, o que naturalmente contrasta com a brutalidade da construção de toneladas de concreto, como vemos nas fotos de época.
A grande laje “ampara as pessoas com sombra numa praça modulada artificialmente, uma geografia que ele construiu”, diz Sampaio, justificando o título do livro, “Geografias Construídas”, uma alusão a como Mendes da Rocha enxergava os terrenos de suas obras como intrínsecos aos projetos, não só como locais onde um prédio seria erguido.
Grossman, a organizadora, salienta que Mendes da Rocha via a geografia como a “primeira arquitetura”, pensando em como o homem transforma a natureza para se instalar onde se instala e por que o faz. Ele tinha ideias filosóficas sobre a nossa presença no mundo e uma “mentalidade planetária”, ela argumenta, destacando que os aspectos mais subjetivos do arquiteto são abordados no livro porque eles não eram do conhecimento de todos.
“Geografias Construídas” é o complemento a uma exposição realizada em 2023 na Casa da Arquitectura, a maior já feita sobre a obra de Mendes da Rocha, com base em seu acervo sob guarda da instituição. Embora traga imagens da mostra em Portugal —que está em tratativas para talvez chegar ao Brasil— e textos de seus organizadores, o livro não é um catálogo, mas sim uma publicação de referência.
Além dos projetos abordados, há textos sobre a juventude do biografado e a sua relação com o pai engenheiro, o papel do desenho no seu processo criativo e uma carta sua na qual trata das intervenções que realizou na capela de Nossa Senhora da Conceição, em Recife, além de outros temas. Para quem se aprofunda na obra Mendes da Rocha, é um livro incontornável.

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