Imagine um lugar encantado, longe do mundo dos humanos, onde criaturas mágicas vivem em harmonia. Essa é “A Comunidade do Arco-Íris”, uma peça inspirada no conto infantil de Caio Fernando Abreu que, em sua recente montagem no CCBB São Paulo, resgata a urgência poética dos anos 1970/80 enquanto dialoga com as inquietações do presente. Sob a direção de Suzana Saldanha e supervisão de Gilberto Gawronski, o espetáculo mantém o núcleo da história — uma utopia comunitária ameaçada por conflitos morais —, mas enriquece a narrativa com camadas visuais e sonoras que a transformam em uma experiência lúdica, interativa e profundamente reflexiva.
Voltada principalmente para o público infantil, mas com uma riqueza que encanta todas as idades, a peça aborda, de forma divertida e sensível, temas como amizade, respeito, democracia e generosidade. No centro da trama, personagens marginalizados — uma bruxa de pano, uma sereia cansada da poluição, um soldado que odeia a guerra e outros seres fantásticos — encontram refúgio em uma floresta, criando uma espécie de paraíso. A chegada de três gatos oportunistas desestabiliza essa harmonia, levando o público a decidir, por meio de uma votação democrática, o destino da comunidade. Essa interatividade não só envolve as crianças na narrativa, mas também as convida a refletir sobre perdão, consequências e a importância das escolhas coletivas.
A trilha sonora, composta por Tony Bellotto e João Mader, a partir do hino presente no texto, mistura rock e dissonâncias, reforçando a dualidade entre a beleza efêmera do arco-íris e a tempestade dos conflitos. Já o cenário minimalista, com estruturas lúdicas que lembram um jardim meio parque de diversões, conecta o discurso ecológico de Caio à crise ambiental atual. Com Bianca Byington no papel da bruxa de pano, a montagem prova que o teatro é um veículo excelente para reativar clássicos: em vez de encerrá-los no passado, lança suas perguntas ao presente.
“A Comunidade do Arco-Íris” abre espaço para a dúvida ética, ensinando às novas gerações — e relembrando aos adultos — a importância da convivência, da empatia e da participação. Afinal, em um mundo cada vez mais dividido, a peça nos lembra que a vida em comunidade é bela apesar de frágil.
Três perguntas para…
… Suzana Saldanha
Quais foram os maiores desafios e as maiores recompensas de revisitar um texto tão significativo para você e para o teatro infantil brasileiro após tanto tempo?
Dei ao elenco uma entrevista essencial de Caio Fernando Abreu ao Instituto Estadual do Livro [feita por Roberto Antunes Fleck, Vera Aguiar e Charles Kiefer]. Nela, Caio fala desde sua infância no interior gaúcho até sua visão, já nos anos 1970, de um mundo onde todos pudessem ser quem são.
Montei essa peça pela primeira vez em 1979, mas o que Caio denunciava na época – sobre ecologia, liberdade – ainda ecoa hoje. Não à toa, ele segue sendo lido e amado pelas novas gerações.
A trilha sonora com Tony Bellotto e João Mader, e a participação de Malu Mader, trazem elementos interessantes para a peça. Como você trabalhou para integrar esses elementos mais “rock’n’roll” com a delicadeza e a ludicidade da história?
A Malu Mader é uma querida – amorosa, gentil, faria a Bruxa de Pano com todo o coração, mas problemas familiares a impediram.
Quando convidei o Tony Bellotto, ele topou na hora! No texto do Caio tem um hino da Comunidade do Arco-Íris – o Tony e o João Mader (filho da Malu) criaram a música juntos, como parceiros do Caio. Ficou ótimo e muito divertido!
Qual você considera ser o papel do teatro infantil na formação de novas gerações? Que tipo de mensagem ou experiência você busca proporcionar aos jovens espectadores em seus trabalhos?
Em 2008, quando a diretora Manuela Anabuki me convidou para montar “A Comunidade do Arco-Íris” na Escola Carlitos, vi como é crucial levar teatro às novas gerações – um aluno de 11 anos, profundamente impactado pela peça, me disse: “Eu queria votar para que os gatos ficassem na comunidade, eles pediram perdão e se arrependeram do que fizeram”, e eu respondi: “Mas eles também roubaram os objetos…”, deixando no ar aquela reflexão que só o teatro sabe provocar.
CCBB SP – rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico. Sáb., 11h e 15h. Dom., 15h. Até 31/8. Duração: 60 minutos. A partir de R$ 15 (meia-entrada) em bb.com.br/cultura e na bilheteria do CCBB
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