O clima no tribunal era de júbilo. Sean “Diddy” Combs, seus familiares e advogados festejavam talvez a impunidade do espancamento —gravado em vídeo. Ou o poder de comprar silêncios —registrado em documentos legais.
Pela segunda vez, em 25 anos, a Justiça recompensa a violência documentada de Diddy. Sim, o critério para privar de liberdade no código criminal exige a culpa provada sem sombra de dúvida. E, afinal, não importa se o espancamento brutal de Cassie Ventura foi registrado em vídeo, porque ele ocorreu em 2016 —e não pode mais ser punido pela Justiça estadual da Califórnia.
Difícil de negar é que a absolvição do rapper por crimes mais graves, que o fariam morrer numa cela, implica ao menos uma condenação simbólica, como disse a organização Ultra Violet, defensora de direitos das mulheres. No banco dos réus, sugeriu a ONG num comunicado, “está uma cultura em que a descrença nas mulheres e nas vítimas de agressão sexual continua endêmica”.
É impossível ler sobre décadas de descrições plausíveis do comportamento do empresário do hip-hop e não concluir que uma carreira em sociopatia requer cúmplices e, entre eles, se incluem executivos de entretenimento até hoje membros da chamada sociedade de bons modos.
O veredito deve ter repercussões fora de tribunais. Como será a reação de dezenas de pessoas movendo ações civis contra Combs, com alegações que incluem estupro, sabendo como ele intimidou testemunhas antes de ser preso e é notório por fazer ameaças quando incomodado?
O ex-promotor federal Mark Chutkow, que falou à Folha após os argumentos finais da acusação e da defesa, analisou o veredito nesta quarta (2). “A minha suspeita é de que os jurados estavam céticos sobre a acusação de conspiração para extorsão,” diz. “Primeiro, podem ter duvidado de que o império comercial legal de Diddy fosse de fato a organização criminosa retratada na acusação. Segundo, o fato de nenhum outro réu ter sido acusado neste caso enfraqueceu o conceito de que havia uma conspiração.”
Chutkow lembra que os promotores jogaram tudo o que tinham contra Combs e acredita que, se houvesse mulheres com credibilidade para uma acusação formal, elas teriam sido apresentadas como testemunhas.
Certa vez, com dor de cotovelo por perder a estonteante namorada Jennifer Lopez após envolvê-la num tiroteio num clube noturno, Sean Combs se queixou dos paparazzi por só fazerem fotos dele de boca meio aberta. O ávido alpinista social se preocupava com a percepção de gente como a editora da Vogue Anna Wintour, com quem posava sorridente no Met Gala.
Hoje já não deve se importar tanto por ter acrescentado “criminoso condenado” ao currículo. É só olhar em volta na vida pública para perceber que a vergonha parece ter se tornado um artigo fora de moda.

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