Crítica: Antologia faz o retrato mais complexo da obra de Antonio Cicero

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Crítica: Antologia faz o retrato mais complexo da obra de Antonio Cicero


Suas letras participaram da formação sentimental de gerações. Consagrado pelas vozes da MPB e do pop rock brasileiro, Antonio Cicero sempre soube transitar entre a musicalidade coletiva das canções e a introspecção silenciosa dos poemas. Para ele, a letra buscava a “totalidade da canção cantada”, enquanto o poema se bastava à leitura solitária.

Ainda assim, sua obra desafia essa distinção. Muitos poemas encontraram vida como canções, e não poucas letras se sustentam com força mesmo sem intérpretes, cruzando fronteiras entre canto e leitura, entre ritmo íntimo e partilha pública.

Publicada pela Companhia das Letras, a coletânea “Fullgás: Poesia Reunida” traça um retrato abrangente ao reunir seus três livros —”Guardar”, de 1996, “A Cidade e os Livros”, de 2002, e “Porventura”, de 2012— complementados por poemas esparsos, inéditos e algumas letras.

Num tempo em que a ansiedade por fazer antologias leva autores ainda na casa dos 40 a publicar suas obras reunidas, o volume cumpre de fato esse papel, oferecendo um retrato mais complexo e amplo de sua trajetória após sua partida em 2024.

A leitura revela a riqueza multifacetada da poesia de Cicero, que é lírica e filosófica, sensual e meditativa, fluida e meticulosa. Seus poemas conjugam uma atenção aguda à forma, com liberdade rítmica que espelha o vaivém do pensamento e do desejo.

Cicero é o tipo de poeta que vive e, simultaneamente, pensa a vida; sua poesia revela uma atração pelo aforismo onde o verso funciona como unidade de pensamento condensada.

É uma poesia de introspecção participativa e, nisso, drummondiana, pois nunca se fecha completamente, atendendo ao apelo do fora —da cidade, dos corpos, da paisagem, do chamado da vida e do sexo além do eu.

Antonio Cicero ocupa lugar fundamental na história da “homoescrita brasileira”. Sua poesia homoerótica inscreve o desejo entre sombras e fulgurações, com contenção que intensifica a força evocativa em descrições de rara beleza.

Na sua poética a homossexualidade não é tema, mas modo de ver e habitar o mundo. Desenha-se um sujeito fragmentário, feito de encontros fugidios —ora melancólicos, ora extáticos— que expressam pacto com o acaso.

Como na poesia de Roberto Piva, a noite é espaço-tempo especial, manifestando-se por exemplo no belo “O Parque”, onde o sujeito anônimo, guiado por sua intuição erótica, se enlaça à noite na cidade e aos corpos amorosos possíveis, encontrando no ápice do gozo o seu abismo, descrito como um estar “a seus pés sem fundamento”.

Sua poesia incorpora naturalmente a visitação à tradição clássica. A leitura dos gregos não é apenas referência temática, mas estrutura de sua sensibilidade.

Outra marca é como trata nomes próprios —sobretudo os que designam espaços urbanos. A linguagem desloca e transforma-os em zonas densas de afeto e sentido. Assim, os topônimos Marina e Glória passam da cartografia objetiva para esfera mais íntima ou mais transcendental.

Há algo profundamente lúcido em sua poesia. Talvez por isso não surpreenda que sua despedida —por carta, à família e amigos— tenha precedido sua morte voluntária, por morte assistida, na Suíça. A finitude e as marcas de nossa frágil passagem —questões que mobilizaram sua criatividade e agora também a moldam como gesto final.

Esta antologia é ao mesmo tempo celebração e elegia, um convite para reler o que sua escrita, em poema ou letra, sempre ofereceu: a elegância da palavra como forma de pensamento, a forma como experiência, e o poema como presença cálida que nos ata ao momento e nos suspende além dele.



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