Jean Garrett, de quem a Cinemateca Brasileira promove uma pequena retrospectiva, ilustra bem a incapacidade da crítica brasileira de, em determinado momento, captar o interesse de obras voltadas ao público popular. Esse era bem o perfil do cineasta nascido nos Açores, Portugal, mas com uma formação e obra completamente brasileira.
Garrett pode ser reconhecido nos primeiros filmes de José Mojica Marins, como um dos assistentes de Zé do Caixão. Ele trouxe de lá lições, seja de como se comunicar com um público amplo, seja de criar atmosferas próximas ao terror. Outra parte importante de sua formação foi a direção de fotonovelas —que o ajudou na busca de enquadramentos e na direção de atores.
Ele é o nome central da mostra “Mestres do Cinema Paulista: Parte 1”, produzida pela Cinemateca em conjunto com a Heco Produções, que digitalizou as cópias, dedicada a exibir filmes que ganharam o status de raridade nas últimas décadas.
A mostra se abre com talvez o maior sucesso de bilheteria do diretor, “Mulher, Mulher”, de 1979, o que se deve, sem dúvida, à presença de Helena Ramos, principal musa do cinema erótico paulista. O roteiro gira em torno de uma viúva insatisfeita sexualmente e que se retira para o interior, onde sofrerá assédios constantes, mas se manterá sempre fiel ao cavalo pelo qual tem grande apreço.
Garrett nunca se considerou um autor. Foi, sobretudo, um artesão que gostava de aproveitar a contribuição de outros profissionais no roteiro. Em “Mulher, Mulher” foi Ody Fraga. Em “Noite em Chamas”, de 1978, o texto de Luiz Castellini e Garret teve a contribuição de Carlos Reichenbach. Ali, narrava-se a história de um funcionário de hotel que, revoltado, botava fogo no lugar, enquanto outros personagens desenvolviam atividades paralelas nos quartos.
O terceiro filme do miniciclo é provavelmente o mais interessante, “Excitação”, de 1977. Nele, Garrett trata de um homem que compra uma casa em prol do repouso de sua mulher, que está saindo de uma crise nervosa. Mas a casa tinha sido de um homem que se matou, o que já não é boa notícia. Para piorar, existe ali uma vizinha que é amante do tal marido.
Com esses elementos, Garrett invade o mundo do filme fantástico, registro que abordaria com frequência até o fim de sua carreira, mas também se deixa marcar pela influência de Brian De Palma. Mais tarde, ainda, deixaria surgir em seus filmes um toque de mistério que não raro lembra o cinema de Claude Chabrol.
Talvez o essencial de seu trabalho venha depois dessa fase de afirmação na subindústria da Boca do Lixo, e comece com “A Mulher que Inventou o Amor”, de 1980, escrito por João Silvério Trevisan, que sempre reconheceu a fidelidade de Garrett ao seu texto.
Sua carreira foi interrompida depois da chegada do cinema pornográfico, que em poucos anos dominou inteiramente a produção da dita Boca do Lixo, antes de destruí-la de vez. Como vários outros artesãos dessa época, Jean Garrett foi ejetado do cinema brasileiro e passou a trabalhar como gerente de um teatro, sem conseguir filmar novamente.
Morreu ignorado, em 1996, poucos dias após ter completado 50 anos. Hoje, curiosamente, mas não sem motivos, é um dos cineastas mais cultivados por jovens fãs e pesquisadores.
O segundo nome desse ciclo não é menos importante. Ozualdo Candeias foi um dos criadores do ciclo da Boca do Lixo, juntamente com Rogério Sganzerla, João Callegaro e Carlos Reichenbach, entre outros. É até hoje um dos nomes mais celebrados do cinema brasileiro, por filmes como “A Margem”, de 1967, ou “Meu Nome É Tonho”, de 1969, no qual, aliás, Garrett tem pequeno papel como ator.
Este ciclo o remete, no entanto, a seus primeiros exercícios nos anos 1950, os curtas “Tambaú” e “Polícia Feminina”. O primeiro tem um interesse que vai além do cinema propriamente dito: os milagres do padre Donizetti, hoje declarado beato pela Igreja Católica. Fato ou boato, o padre ficou famoso como responsável por uma série imensa de milagres que beneficiou os fiéis que iam a Tambaú, no interior de São Paulo, em busca de seu auxílio.
“Polícia Feminina” prende-se mais aos códigos do filme institucional, mas mesmo aí a marca da pessoalidade de Candeias e seu gosto por um cinema feito contra as convenções clássicas se manifesta. São dois curtas raros, também digitalizados em 4K. A parte de Candeias no ciclo é menor, mas essas raridades, por si só, já valem a visita à Cinemateca.
Programação da mostra ‘Mestres do Cinema Paulista: Parte 1’, na Cinemateca Brasileira:
- 03/07, às 20h: “Mulher, Mulher” (1979), de Jean Garrett
Seguido de debate com Helena Ramos, Eugenio Puppo e Gabriel Carneiro (libras e transmissão ao vivo) - 04/07, às 18h: “Excitação” (1977), de Jean Garrett
- 05/07, às 19h30: “Noite em Chamas” (1978), de Jean Garrett
- 06/07, às 17h: “Tambaú” (1955), “Polícia Feminina” (1960), “Bocadolixocinema” (1976) e “Uma rua chamada Triunpho” (1969-1971), de Ozualdo Candeias
- 06/07, às 18h30: “Mulher, Mulher” (1979), de Jean Garrett


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