Era 2007, e Don L estava com pressa. Seu grupo de rap, o Costa a Costa, colhia os frutos da primeira mixtape e tinha dois shows marcados numa noite em Fortaleza. “Estava com muita sede, a mente a milhão, andando de moto, correndo muito”, ele diz. “Louco atrás de grana pra me manter e levar o corre da música, sofri um acidente. Fui parar no hospital, fiquei de muletas, sem andar por um tempo.”
Essa experiência inspirou “Morra Bem, Viva Rápido”, em que o eu-lírico vive no limite, a 120 quilômetros por hora, seduzido por outdoors brilhantes, a modelo que sorri e as joias de topázio azul que não pode comprar. A música abre “Caro Vapor: Vida e Veneno de Don L”, o primeiro trabalho solo do rapper, de 2013, e traz num verso a temática que o acompanha até hoje —”nós tudo vive pra morrer, mas luta pela vida”.
Nesta segunda-feira (16), Don L lança “Caro Vapor II: Qual a Forma de Pagamento?“, a continuação da obra de doze anos atrás. Mais que uma atualização daquela luta —em suas palavras, para “viver e não apenas sobreviver”—, o rapper agora se vê diante de um novo mundo, com um capitalismo ainda mais avançado, dominado por bets, big techs, algoritmos, influencers desesperados por likes e uma concentração de renda cada vez maior.
“É viver numa distopia”, ele diz. “Só que [cantar sobre] distopia é uma aceitação dessa realidade. Estou tentando fazer uma utopia dentro da distopia e pensando isso de uma forma coletiva, porque hoje tudo é sobre escapismo. Uma coisa ultrarreligiosa, em que as pessoas apelam para uma ideia de ‘sou o escolhido’. ‘Deus me escolheu, por isso posso ser um bilionário no meio de um mar de miséria’.”
É uma ideia que ele já tinha desenvolvido em “Roteiro pra Aïnouz Vol. 2″, seu disco mais recente, de 2021, só que num plano mais político, revisando o colonialismo no Brasil e inventando maneiras de enfrentá-lo, inspirado em Canudos e Carlos Marighella. Agora, Don L navega a contemporaneidade em busca do que dá sentido à vida, tendo sempre a malandragem como guia.
Esteticamente, “Caro Vapor II” é um mosaico tropical de sonoridades brasileiras, mas também tem influências da América Latina e da África. Há bossa-jazz, Dorival Caymmi, Itamar Assumpção, Rodger Rogério, funk e amapiano, entre outras referências. É quase impossível saber o que é sample e o que são gravações novas, e há tanto bases com instrumentos tocados quanto batidas eletrônicas.
Don L continua cantando rap, mas o entorno está diferente. “Estou tentando fazer outro tipo de rap —é rap, só que com outras batidas”, diz. “Tentei usar o mesmo método, mas com outras sonoridades, outras fontes.”
Em “Para Kendrick e Kanye“, Don L reinventa “Para Lennon e McCartney“, de Milton Nascimento. “É um recado para caras de que eles não estão ligados como é ser do sul do mundo”, diz. “E tem uma camada maior —o que eles representam, ideologicamente falando, no rap mainstream. Kanye agora é de extrema-direita, e o Kendrick é o oposto. Mas dentro de uma visão global os dois agem de forma imperialista, porque a música americana se impõe sobre as outras culturas —e não as escuta.”
Evitar Estados Unidos e Europa, diz Don L, é o primeiro passo de uma autovalorização. “Vários começaram a fazer esse caminho quando viram que não são porra nenhuma nos Estados Unidos”, diz. “A gente é muito isolado, você pode ser gigante no streaming só no Brasil. Mas se vem alguém como o Ja Rule, que lá é um nada hoje, todo mundo leva na quebrada, estende o tapete vermelho. Aí quando os caras chegam lá, nada. Nunca vi um rapper brasileiro chegar lá e, que seja o Ja Rule, levar num rolê.”
É uma dinâmica que espelha o que acontece com o Nordeste em relação ao Sudeste do Brasil, ele acrescenta. Gabriel Linhares Rocha, nome de batismo de Don L, nasceu em Brasília, e aos quatro anos se mudou para Fortaleza, cidade com a qual se identifica. Ele rompeu com a família, de classe média baixa, e saiu de casa quando tinha 16 anos.
Musicalmente, foi influenciado primeiro pela mãe, cantora, e depois pelo trabalho vendendo CDs pirata. “Estava na era Lula clássica, quando a favela começou a ter tocador de CD e DVD. Saí de casa, fui morar de aluguel numa kitnet, depois numa ocupação, em barraco —era melhor que pagar aluguel. Comprei uma moto, uma vespinha, e vendia esses CDs em Fortaleza inteira.”
Foi como Don L começou a formar o repertório de samples presentes em sua obra. O que era vendido, diz, era o brega de Evaldo Braga e Waldick Soriano, e não a MPB de Caetano Veloso ou Chico Buarque. O rapper lembra que quando começou a ouvir gente como Jorge Ben Jor, nos anos 2000, aquilo era visto pelos amigos como “música de coroa”. Foi algo que mudou com o rap.
“Os Racionais falavam do Jorge, do Cassiano“, diz. “O rap trouxe isso —essa rapaziada começou a consumir uma música que não era consumida, pelo menos em algum estrato da população. Uma parte da considerada elite cultural do país age como se liberar um sample fosse um favor que fazem pra gente. É interessante lembrar que o uso dos samples não é apenas reverência nossa pela bagagem cultural —é também trazer esses caras para quem não conhece.”
As referências do rap americano cresceram em Don L depois que ele foi presenteado por amigos que furtavam toca-CDs de carros. “Veio ‘Illmatic’, do Nas, ‘Soul Food’, do Goodie Mob, um disco do Tupac”, diz. “Pensava que ‘sacanagem, o cara que foi roubado tinha um gosto musical interessante.”
Don L escrevia rimas num caderno, ele diz, “para desabafar”, e começou a conviver com o rap em movimentos sociais da cidade. Suas primeiras gravações não tinham batidas —ele usava uma faixa instrumental de um disco da Sade como base para as rimas. Os temas? “Eram rimas de malandragem, sobre a rua, o crime, as coisas que falo até hoje.”
Hoje, uma das alcunhas pelas quais Don L atende é “o último bom malandro”. “O malandro é o cara que não aceita se submeter ao que está posto. Que vive sob condições adversas, mas inventa formas de vida”, diz. “O malandro não faz apologia de trabalhar 14 horas por dia. Ele trabalha o necessário para ter uma vida decente. Não é o bandido —é o trabalhador que ocasionalmente praticou algum tipo de contravenção ou bandidagem para se manter.”
Ele próprio passou por isso. “Me envolvi [com o crime], não de uma forma intensa, porque eu já queria fazer rap”, diz. “Quando você faz rap na quebrada, ainda mais nessa época, tem que ter respeito da liderança da quebrada. Tinha a liderança comunitária e a do crime. Eu colava tanto na rádio comunitária quanto na esquina, trocava ideia com os donos da boca. Se você estava sem dinheiro, podia chegar e dizer ‘faz um adianto para mim, pego e te pago tal dia’. Era uma solução para conseguir um dinheirinho para sair de uma situação e depois tentar na música de novo.”
Don L nessa época morava no conjunto São Pedro, complexo de morros perto da praia do Futuro. Ele conheceu o rapper Nego Gallo, que vivia no outro lado da orla, e formou o Costa a Costa, com quem lançou em 2007 a seminal mixtape “Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa”. Com outras gírias e referências —em especial as batidas e samples de música brasileira e latina, do reggaeton ao carimbó—, o grupo ganhou destaque nacional com Regina Casé na Globo e recebeu de Caetano Veloso prêmio Hutúz, troféu mais cobiçado do rap na época.
Mas a honraria foi para a categoria Norte e Nordeste —sendo que não havia prêmios para outras regiões. “O tempo todo ali a gente pensava que tratavam a gente como segunda divisão”, diz. “Sempre falavam com a gente como se fala com uma criança. ‘Acho você o melhor do Nordeste.’ Falamos ‘muito obrigado pelo prêmio, mas não estamos aqui para jogar categoria Norte e Nordeste’. Para mim não tem essa divisão. Fizemos uma parada tão relevante que criaram uma categoria para que não ficássemos sem ganhar prêmio. É tipo chegar para uma mulher e falar ‘você é a melhor rapper feminina’.”
Ali Don L já apresentava a abordagem intrincada como letrista que o consagrou como o “favorito do seu rapper favorito”. “É muito mais fácil fazer rap em inglês do que em português. As palavras são menores, um sujeito vira um verbo, um objeto vira um verbo, tudo é plástico, você pode moldar”, ele diz. “O português tem muito mais palavras, e elas têm terminações muito diferentes. Os caras escreviam rap como quem faz um texto. Rimava a última palavra e o texto era interessante, mas a métrica nem tanto.”
Seu estilo, ele diz, veio depois de perceber que gente como Jackson do Pandeiro e Caetano Veloso já fazia o que ele buscava —”entortar a língua”. “Eu tinha que inventar um bagulho meu, porque não é natural você só sair escrevendo”, diz. “Tive que inventar soluções. Queria fazer um rap suingado como Jackson do Pandeiro fazia o forró dele, com o tanto de rima que o Tupac fazia. Essa era a minha doideira.”
Don L se mudou para São Paulo em 2013, onde desenvolveu sua carreira solo, em ascenção. Em Fortaleza, ele é tratado como lenda pelas novas gerações. Matuê, trapper cearense que é um dos artistas mais tocados do Brasil, sampleia e cita o conterrâneo na música “Quer Voar”.
Hoje, o rapper nada contra a maré no discurso. “Nossa ostentação [no Costa a Costa] era muito humilde. Naquele tempo, não dava para falar que estou de Nike se eu estivesse de Adidas. Hoje em dia os moleques falam que estão de Porsche, mas estão num Corsa. É uma coisa ‘fake it until you make it’. Se a gente fizesse isso, era cobrado na rua”, afirma.
Diz que as letras no rap atual são “só sobre uma vitória individual, diz que você só vai conseguir mesmo ser feliz se ficar rico”. “Todo mundo fala de marca de luxo, carros de luxo, uma vida inacessível para a maioria da população”, afirma, antes de se lembrar de sambistas do século passado. “Hoje, você tira algumas pessoas da miséria para fazer de conta que isso é possível. Mas os caras faziam você invejar uma vida que, na verdade, era bem dura. Diziam ‘estamos vendo essa situação, ninguém está baixando a cabeça —mas também estamos tirando onda’.”
Mais do que a sequência de um clássico do rap, “Caro Vapor II” é resultado de uma trajetória em que Don L buscou abrir caminhos, em vez de seguir trilhas já abertas —tanto que o reconhecimento de sua obra costuma vir com certo atraso. É música de sonho e de futuro.
Aos 44 anos, ele continua com sede. Mas talvez agora tenha menos pressa. “Montamos nossa empresa para ir construindo aos poucos e tornar isso cada vez maior”, diz. “Quando você trabalha pelo hit, pela parada do momento, é bom ter outros outros planos —porque aí é puro business. Então, sei lá, monta uma cafeteria também.”







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