Para os pássaros, é uma pescaria, a busca por alimento. Já para os peixes, é uma guerra, a luta pela sobrevivência. Para seres humanos e populações ribeirinhas, que observam a cena das margens ou de dentro das canoas, aquilo é a bateção.
Esses diferentes pontos de vista são costurados e sobrepostos pelo ilustrador Josias Marinho em seu novo livro, “Bateção”, recém-publicado pela Pequena Zahar. Nascido na comunidade quilombola Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, o artista plástico mistura memórias de infância e depoimentos da própria mãe para criar uma narrativa visual que pulsa na cadência do coração do Brasil.
Na região Norte do país, bateção é o nome do fenômeno natural no qual pássaros mergulham nos rios em busca de peixes. Eles despencam dos céus e entram nas águas para surpreender as presas, agarrando-as com seus bicos. Contam os ribeirinhos que alguns peixes chegam a saltar das águas e cair dentro dos barcos na tentativa de fugir das aves.
Pois é essa cena que Marinho reconstrói, mas não de um jeito enciclopédico, muito menos adotando somente a perspectiva dos seres humanos. O embate entre peixes e biguás que pescam no rio Guaporé surge na forma de um caleidoscópio de pontos de vista, que torce os horizontes e faz o leitor enxergar a história por múltiplos olhares.
Se tudo começa com uma mulher pescadora, que pede licença ao rio para deslizar sua canoa pelas águas, logo as imagens multiplicam as perspectivas. Nas páginas seguintes, passamos a enxergar ao mesmo tempo o que acontece dentro das águas e entre as nuvens, como se fôssemos simultaneamente homem, bicho, rio e céu.
É mais ou menos como se Marinho transformasse em narrativa ilustrada a ideia de perspectivismo ameríndio do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Em linhas gerais e muito superficialmente, Viveiros de Castro afirma que grande parte dos povos originários das Américas compartilham uma mesma visão, segundo a qual todos os seres —humanos, animais e até espíritos— têm um ponto de vista próprio. Isso gera uma inversão da nossa lógica ocidental. Se estamos habituados a achar que a natureza é universal e as culturas são múltiplas, vários povos do continente americano vão pelo caminho contrário. Para eles, a cultura seria única e as naturezas seriam particulares, dependendo do ponto de vista do observador.
Ainda segundo essa ideia, os xamãs seriam os únicos capazes de assumir as perspectivas dos outros seres. “Bateção” vai um pouco por esse caminho e permite que nós, leitores, tenhamos acesso a esses diferentes pontos de vista. Afinal, o livro não mostra um único fato objetivo encarado de diferentes ângulos. Na verdade, a narrativa traz vários acontecimentos simultâneos e sobrepostos, sem que exista uma única verdade.
O exemplo mais claro disso é quando os biguás entram nas águas e predam os peixes, deixando um deles partido pela metade, com seu corpo dividido dentro do rio, cauda para um lado, cabeça para o outro. Nessa hora, Marinho ilustra plantas brotando do peixe decepado. Ali, não vemos somente a morte da presa, muito menos a vida do predador que se alimenta. As duas coisas estão juntas, inseparáveis, indissociáveis, sobrepostas. Não é um ou outro. É um e outro.
A muitas perspectivas são reforçadas pelo próprio design da obra. No momento em que o peixe é cortado ao meio, por exemplo, o horizonte é torcido em noventa graus, forçando o leitor a girar o livro até ficar na vertical. É como se o autor nos induzisse a todo instante a alterar o ponto de vista.
Isso aparece ainda na técnica escolhida por Marinho, que opta pela colagem para criar as ilustrações. As filosofias de pássaros, peixes, rios, insetos, plantas, sapos e outros seres que aparecem em “Bateção” estão coladas pelas páginas, formando um mosaico que nos transporta para outros mundos —lugares que nossa perspectiva única e limitada insiste em não querer enxergar.
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