Por uma feliz coincidência, o centenário de Janete Clair, em 25 de abril, precede em um dia a festa pelos 60 anos da inauguração da TV Globo. Não é exagero dizer que uma não teria feito sucesso sem a outra.
Janete não está no centro das comemorações que a Globo promove este mês, mas ganhou uma bela homenagem da editora Instante, que acaba de lançar uma nova edição do único romance que escreveu, “Nenê Bonet”, publicado originalmente em capítulos, durante dez semanas, na revista Manchete, a partir de 22 de março de 1980.
Com patrocínio da Nestlé, o folhetim de Janete foi anunciado nas páginas da semanal de Adolpho Bloch como um melodrama clássico. “Até que ponto uma mulher pode descer pelo amor de um homem? Ernestina Vilaça, uma mulher que enlouqueceu por amor. Prepare-se para viver intensamente o drama de Nenê Bonet”, avisou a revista.
O único romance de Janete foi escrito num raro intervalo que teve na Globo, entre o fim de “Pai Herói” e a estreia de “Coração Alado”. A história se passa no Rio de Janeiro, nos anos 1920, e descreve a jornada de uma protagonista inicialmente submissa e reprimida, insatisfeita com o marido machista e autoritário.
“Não se trata de uma história feminista”, advertiu Janete, se distanciando de autoras que já se preocupavam com esta temática, inclusive na Globo. A célebre e histórica série “Malu Mulher”, explicitamente feminista, protagonizada por Regina Duarte, havia sido lançada um ano antes pela emissora.
“Nenê Bonet” expõe o estilo e alguns dos cacoetes de Janete, mas a simplicidade do texto, que na novela ajuda as espectadoras a se identificarem, soa pobre no livro. Sem imagens, os ambientes e situações descritos são pueris. O drama com pitadas de suspense, muito calcado em diálogos, resulta mal desenvolvido e infantil.
Se estivesse viva, Janete responderia a este comentário com o misto de desprezo e amargor com que sempre tratou os críticos: “Se eu vivesse de críticas, estaria desempregada. Há muito preconceito. Não contra mim, mas contra o gênero”.
Em 1974, reagindo a críticas feitas à novela “Fogo Sobre Terra”, observou: “Escrevo para milhões de espectadores. Não posso usar uma linguagem que faça o deleite de meia dúzia de intelectuais frustrados. Tenho que me comunicar com a grande massa que me asiste e me prestigia. Só a sua reação me interessa”.
Naquele mesmo ano, ela foi questionada se conseguiria sucesso reescrevendo suas novelas “dentro da técnica e dos limites do romance ou do teatro”. E, sincera, respondeu: “É possível que sim, se esse trabalho fosse feito por um romancista ou teatrólogo. Mas eu não sou uma coisa nem outra. Acho que o romance e o teatro são gêneros inteiramente diferentes da telenovela”.
Era de novela, mesmo, que Janete Clair entendia. Nascida em Conquista, no Triângulo Mineiro, ela foi locutora e atriz de rádio antes de começar a escrever as próprias histórias. Sua produção para rádios, em especial a Nacional, nas décadas de 1950 e 60, passa dos 30 títulos. Também escreveu novelas para a TV Tupi nos anos 1960, antes de se tornar a mais prolífica autora da Globo.
Numa fase em que a emissora carioca procurava renovar o time de autores, Janete encontrou o seu lugar na faixa principal, a das novelas das oito. Entre dezembro de 1967 e janeiro de 1973, escreveu sete novelas seguidas, de “Sangue e Areia” a “Selva de Pedra”, trabalhando sem parar por quase seis anos.
Casada com o dramaturgo e novelista Dias Gomes, Janete foi mãe de quatro filhos. Sempre se dividiu entre as tarefas domésticas e o trabalho insano como autora.
Entre 1967 e 1983, ano de sua morte, escreveu 18 novelas na Globo. Ao lado do diretor Daniel Filho, ajudou a Globo a modernizar a temática das tramas do horário nobre e conquistou um público fiel e apaixonado, que contribuiu com seguidos recordes de audiência para a emissora.
Muitas das novelas de Janete, como “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra”, “Pecado Capital” e “O Astro”, são lembradas até hoje e integram antologias dos grandes momentos da história da Globo.
O jornalista Artur Xexéo, autor do livro “A Usineira de Sonhos”, afirma que, do primeiro capítulo para a primeira novela transmitida pela rádio Nacional ao último capítulo que conseguiu escrever, 27 anos depois, para a última trama exibida pela Globo, “Eu Prometo”, Janete Clair trabalhou como novelista todos os dias de sua vida.
“Nenê Bonet” faz parte desta produção e o relançamento do livro é uma justa homenagem à autora.





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