“A Última Sessão” se apresenta como a versão indiana de “Cinema Paradiso“, de Giuseppe Tornatore, lançado em 1988. O título brasileiro também não ajuda, já que remete ao “A Última Sessão de Cinema“, de Peter Bogdanovich.
A aproximação com esses dois filmes não parece um bom marketing, já que sugere ao espectador um “déjà vu” simultâneo, referente a dois longas bastante célebres.
Com efeito, nesta “Última Sessão” o jovem Samay, habitante de um vilarejo que vive em torno da estação ferroviária, se apaixona por cinema quando, por falta de dinheiro para comprar um ingresso, faz um trato com o projecionista, que o deixa assistir aos filmes na cabine de projeção em troca das marmitas que o garoto lhe entrega.
Até aí as semelhanças são grandes. Mas o marketing de “A Última Sessão” não ajuda a recepção do filme. Ele enfatiza a proximidade com o longa de Tornatore, como se fosse uma espécie de imitação, mas se torna mais interessante ali onde se distancia do trabalho de Tornatore.
Em primeiro lugar, é ambientado num momento de transição do celuloide para o digital. Isso supõe uma mudança cultural de que o desaparecimento das velhas latas em que ficavam os filmes é um aspecto secundário. Trata-se, sim, de uma mudança cultural importante, em que as habilidades pedidas de um projecionista de cinema, por exemplo, mudam dramaticamente.
Em segundo lugar, há questões indianas interessantes, como a família do menino pertencer à casta brâmane, coisa que o pai, um frustrado total, acentua bastante —cinema é coisa suja, dirá ele, não é para nós. Ele será contestado pelo professor, que ensina algo bem mais prático e já indicativo de mudanças no tempo —na Índia existem apenas duas castas, dirá, a dos que falam inglês e a dos que não falam.
Na verdade, o pai é o grande personagem do filme, pois foi enganado em um negócio de herança e acabou como dono de uma barraca onde faz chá para os viajantes que passam na estação de trem, e cabe ao jovem Samay vendê-lo. O pai é, dentro da tradição de castas, um decaído. E certamente essa é uma das razões de reagir com violência ao pendor cinematográfico do filho.
Em terceiro lugar, o filme nos remete a um tipo de paisagem, do interior, de uma Índia pobre com que raramente temos contato. Um lugar que também se transforma, como se nota não só na tecnologia do cinema como na próxima aposentadoria dos velhos trens, que em breve serão substituídos por outros, mais modernos, e por isso não vão mais parar na aldeia.
Essas paisagens são responsáveis por algumas das melhores imagens do filme. O que indica que Pan Nalin, diretor deste longa, talvez se preocupe menos em tornar o filme parecido com “Cinema Paradiso” do que em mostrar uma pequena localidade do interior da Índia, e como as transformações tecnológicas podem afetar a vida de seus habitantes.
De tudo, o que parece restar intacto é a atraente comida feita pela mãe de Samay. Tida por ele como “a melhor cozinheira do mundo”, seus pratos não deixam de ser um importante cartão de visitas do país, num momento de intenso crescimento, um dos maiores senão o maior do mundo nos últimos anos.
A transformação da Índia é o assunto que atravessa, subterraneamente, o filme de Pan Nalin. E a cozinha local parece ser um fator seguro de “soft power”, ou seja, propaganda.

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